quarta-feira, julho 25, 2012

Bom português

Abespinharam-se, há dias, alguns comentadores e outros atentos leitores  deste blogue quando por aqui fiz uma curta listagem de quantos, na nossa imprensa, entendo que escrevem um "bom português". E logo alguns inquiriram o porquê dessa escolha.

Pode ser que esteja enganado, mas julguei detetar, em algumas dessas observações, que os juízos se estabeleciam na direta dependência da simpatia pessoal que os escribas suscitavam nesses leitores. Ora, se se olhar o conjunto dos nomes que referi, fácil é verificar que se trata de gentes de diversas e até de contraditórias orientações, o que prova que, pelo menos no que a mim me toca, julgo não poder ser suspeito desse desvio opinativo.

O que é o "bom português"? Sei lá! Para mim, é uma escrita que me agrade, por uma sábia combinação de substância e forma, alinhada de forma escorreita, não pretensiosa, sem demasiados ademanes estilísticos. Para ser sincero, é o português que melhor se aproxime do modo como eu próprio gostaria de saber escrever e que, sem qualquer inveja mas com basta admiração, me dá gosto ler. E mais não digo, porque estas coisas são assim mesmo, bem simples. 

Krivine

"Sabes quem é aquele tipo, ali na mesa do canto? É o Alain Krivine". A revelação do meu amigo, feita no Café de Flore, há algumas semanas, trouxe-me à memória um outro tempo.

As tardes no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, respondendo aos deputados, durante a presidência portuguesa da União Europeia de 2000, tinham alguma graça. O secretariado-geral do Conselho preparava-nos umas respostas em "langue de bois", para as perguntas enviadas por escrito pelos deputados, com antecedência. A "emoção" estava, assim, nas réplicas a que os parlamentares perguntadores têm direito, feitas de improviso, muito mais "livres" e, às vezes, fugindo claramente  ao tema da pergunta. Devo confessar que me dava um certo gozo exercitar a minha criatividade discursiva nas respostas a essa segunda parte de cada intervenção. Quase tanto como olhar, de viés, para as caras ansiosas dos funcionários do Conselho, que tão ciosamente haviam preparado as respostas "by the book" e que viviam esses momentos de liberdade do representante da presidência com clara expetativa e burocrática angústia.

Entre os deputados eleitos para o PE houve e há figuras gradas da política passada de vários países, muito ministros e até primeiros ministros. Mas aqueles que me "saíram em rifa", nesse semestre de 2000, foram quase sempre obscuros parlamentares, com nomes algumas vezes muito estranhos, de sonoridades gregas, eslavas ou nórdicas. É que esse tempo é utilizado, quase sempre, para afirmação da devoção desses deputados a causas muito específicas, o que lhes permite uma saliência mediática de que os seus colegas mais conhecidos já não necessitam.

Numa dessas longas tardes de Estrasburgo, ouço o presidente do parlamento anunciar: "Dou a palavra ao deputado Alain Krivine". Acordei do marasmo com aquela menção e, de imediato, procurei, no imenso areópago quase vazio, colocar um retrato no nome acabado de anunciar. O nome de Alain Krivine dizia-me alguma coisa. Figura histórica do trotskismo francês, havia sido candidato à presidência da República, não me passando a mim pela cabeça que fosse então deputado europeu.

Anos antes, no início da década de 70, numa visita a Paris, eu fora arrastado por uns amigos para assistir a um comício da "Ligue Comuniste Revolutionnaire", que teve lugar na "Mutualité", perto da Sorbonne. A LCR era um grupo trotskista com certa expressão na esquerda francesa e, embora as teorias de Trotsky pouco me dissessem, achei graça assistir a um comício dessa extrema-esquerda - num tempo em que, em Portugal, apenas a União Nacional e a sua sucessora Ação Nacional Popular reuniam em público sem medo de vigilância policial.

A pergunta que Krivine fez à presidência portuguesa foi, como era de esperar, violenta e agressiva, sobre uma temática que já não recordo. Devo confessar que tenho ideia de que a  minha resposta foi mais "soft", nostalgicamente atenuada pela memória de um passado no qual, embora de forma menos radical, eu também acreditava em que os "amanhãs" poderiam vir a cantar. Depois, foi o que se viu...

Naquele final de tarde no Flore, perguntei ao Francis, que vagueava patronalmente entre as mesas, o que é que Alain Krivine estava a beber. Era um Chablis. Pedi outro para mim. Afinal, como dizia Voltaire, "les beaux esprits se rencontrent".

terça-feira, julho 24, 2012

Camaradas

Há poucas semanas, em Moscovo, logo atrás da Praça Vermelha, deparei com uma manifestação do Partido Comunista local, que agora já não é "da URSS". A minha incorrigível curiosidade por estas coisas fez com que decidisse aceder ao espaço vedado, que estava reservado para o comício (com prévia passagem por um estrito controlo de metais...), por forma a observar mais de perto o ambiente. Eram uma escassas centenas de pessoas, com muitas bandeiras e tarjas vermelhas, junto a um palco onde peroravam algumas figuras - ao que me foi dito para protestarem contra os malefícios da alternância entre Putin e Medvedev.

A memorabilia à venda tinha escassa graça, tanto mais que, para espanto dos vendedores, eu andava à procura de coisas do tempo de Stalin, para oferecer a um amigo que ainda é fã do "pai dos povos". 

Ao sair do inesperado evento, dei comigo a pensar que, desde há quase um século, o Partido Comunista continua a ser, na Rússia, a única força política com o privilégio de poder organizar livremente as suas manifestações públicas.

Para o meu amigo (ainda e sempre) estalinista, e na impossibilidade de lhe ofertar, como desejaria, um "recuerdo" do "Zé dos Bigodes" (cujo busto, note-se, continua a figurar junto à muralha do Kremlin), deixo esta fotografia da placa da "rua da ditadura do proletariado", que recolhi na ex-Leninegrado. Pelos vistos, é quase tudo quanto que vos resta, "tovarich"...  

segunda-feira, julho 23, 2012

Lisboetas

Passar os Verões nas capitais, "de Rodriguez" ou não, é, desde sempre, um ato de sofisticada sabedoria, como já por aqui se opinou em outros calores.

Como guia para uma "outra" Lisboa, os leitores podem agora recorrer às indicações gastronómicas, fotográficas, literárias e não só, que o meu amigo (e excecional jornalista) João Paulo Guerra e o seu filho Francisco nos dão no seu delicioso Beco das Barrelas, um blogue para ulissipomaníacos de bom gosto, com ilustração exclusiva dos próprios.

domingo, julho 22, 2012

Comida e cultura

Por mais que, com alguma frequência, dela discorde, não deixo de ser leitor fiel de Clara Ferreira Alves, que tem uma escrita limpa, inteligente e em bom português, que já começa a rarear na nossa imprensa - a par com poucos, como Ferreira Fernandes, Vasco Pulido Valente, Miguel Esteves Cardoso e José Manuel dos Santos, este último até que a "Atual", do hebdomadário balsemónico, lhe tirou misteriosamente o espaço (*).

Na "Revista" do "Expresso" de ontem, Clara Ferreira Alves analisava a pobreza cultural dos nossos meios políticos e de imprensa. E, definitiva e tremendista como é do seu estilo, acabava o texto dizendo: "Como bem disse Vargas Llosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e Ortega y Gasset" (o "Expresso" colocou o Y em maiúscula, porque o revisor deve ter pensado que era a inicial de um outro apelido...).

Reconheço que, por vezes, as nossa imprensa exagera um pouco na exploração do tema gastronómico. Mas faço notar que ele não é, de forma alguma, incompatível com a cultura, como o António Mega Ferreira e eu tentámos provar, há uns tempos, numa divertida conversa com a Paula Moura Pinheiro, na "Câmara clara".

Nestas curtas férias, aliás, vou entreter-me a tratar um pouco de ambas. Da comida, no meu blogue "Ponto Come", onde tenciono ir dando despretensiosa conta de algumas experiências de "restauração" feitas pelo país. Da cultura, mano-a-mano com Isabel Pires de Lima, no final desta semana, charlando sobre a cultura portuguesa e da Europa, numa iniciativa integrada na Feira do Livro de Viana do Castelo.

(*) Em tempo: como bem lembra um comentador encartado, há também o Manuel António Pina

sábado, julho 21, 2012

Ora Eça!

"Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo", dizia Jacinto, encantado com a feliz descoberta da simplicidade. Lá estive hoje, em Tormes, a ver a mesa onde Eça/Jacinto comeu um dia o celebrado arroz que o reconciliou com as favas.

Para quem possa fazê-lo, recomendo vivamente uma visita à casa de Tormes, onde hoje está a Fundação Eça de Queiroz, perto de Baião, se possível acompanhada por uma leitura calma, no local, das páginas que, em "A cidade e as serras", o escritor dedicou à paisagem e ao ambiente rústico que o terá impressionado, há quase um século e meio. Eça ter-se-ia porventura indignado com muitas edificações de discutível gosto que hoje pontuam a serra, mas, mesmo assim, a vista permanece soberba. Dê-se também um salto à estação de Aregos/Tormes, onde já não pontifica o Pimentinha e onde o Silvério, pela certa, nos não esperará. E, por gratidão e respeito por quem nos proporcionou o prazer dessa escrita ímpar, não se esqueça de deixar uma flor na campa de Eça de Queirós, no pequeno cemitério de Santa Cruz do Douro.

Tenho um amigo que costuma dizer, com alguma sobranceria, que gostar de Eça de Queirós é uma das mais banais expressões culturais de qualquer português. Pode ser que assim seja, mas, nesse caso, eu vergo-me sem custo a "eça" banalidade.

(Este post é dedicado ao meu amigo e incomparável queirosiano Luis Santos Ferro)  

sexta-feira, julho 20, 2012

José Hermano Saraiva

José Hermano Saraiva, que acaba de desaparecer, foi um improvável ministro da Educação do último governo de Oliveira Salazar. Simples professor liceal, terá sido a sua fidelidade ao Estado Novo, aliada a uma inteligência viva e uma inegável capacidade de ação, que lhe assegurou a ascenção política. Ainda estou a ver a fotografia da tomada de posse, em Belém, ao lado de Américo Tomás, de fraque e calças de fantasia, em Agosto de 1968, na qual, recordo, surge também uma outra personalidade que há dias faleceu, embora num relativo silêncio mediático, Justino Mendes de Almeida.

Dias depois, Salazar cairia da cadeira de lona e, semanas mais tarde, os equilíbrios do regime fizeram com que Marcello Caetano confirmasse José Hermano Saraiva no cargo.

Não foi nada fácil a tarefa do ministro. Como ponto "alto" das questões que teve de gerir, recorde-se a "crise de Coimbra", em 1969. Quem viveu esse período lembra-se bem dele, ao lado do presidente Tomás, na inauguração do edifício das Matemáticas, em Coimbra, nesse tenso e verdadeiramente único momento em que Alberto Martins teve a coragem de pedir a palavra, em nome da academia, naquele que viria a ser o início de um dos maiores protestos de contestação universitária vividos em Portugal.

A agitação universitária propagou-se a Lisboa. No ISCSPU, José Hermano Saraiva decidiu não "homologar" a lista eleita da Associação académica, de cuja direção eu fazia parte (ver aqui um relato do nosso encontro com o ministro). Ficou claro que Marcello utilizou então Hermano Saraiva para afastar, do ISCSPU, o seu rival político Adriano Moreira, personalidade com a qual, à época, as lideranças académicas decidiram, taticamente, solidarizar-se. Isso veio a redundar numa invasão do Instituto pela "polícia de choque", chefiada pelo capitão Maltez, e pela dissolução dos órgãos legítimos da Associação, que passou a ser dirigida por uma complacente "comissão administrativa".

Com o tempo, Marcello Caetano substituiu Saraiva por Veiga Simão. No que me toca, devo dizer que a mudança não ajudou muito, porque não tive o ensejo de apreciar, em excesso, as credenciais, ditas liberais, do novo ministro: em 1972, como presidente eleito da Assembleia geral dos estudantes do ISCSPU, voltei a ver a minha escolha não "homologada" pelo novo ministro. Mas isso deve ser sina pessoal...

Usufruindo da oportunidade dada pela Democracia, José Hermano Saraiva viria a fazer escola como divulgador televisivo, e não só, da História pátria, confirmando a perceção de que a historiografia permanece como um dos poucos domínios culturais onde o pensamento conservador preserva uma certa notoriedade pública. A sua capacidade de "contador de História" era inegável e, embora muitos achem que isso foi muitas vezes feito em detrimento de algum rigor científico, a verdade é que ele terá contribuído para despertar o interesse pela História de Portugal - e esse será um importante serviço que o país, sem a menor dúvida, lhe ficou a dever.

Em tempo - Não notei, como devia ter feito, que José Hermano Saraiva foi embaixador "político" em Brasília, nos tempos que antecederam o 25 de abril.

Guimarães

No meio de um verão queirozionamente "de ananazes", estive presente em mais uma reunião do Conselho geral de "Guimarães 2012 - capital europeia da Cultura".

A meio do percurso temporal de execução, foi excelente poder constatar que o projeto vai de vento em popa, não obstante os constrangimentos provocados por algumas surpresas (ou não) financeiras, graças a uma equipa motivada e serena na gestão do projeto.

Vale a pena andar por Guimarães por estes dias, assistir à dinâmica no comércio provocada pelo eventos, atentar na surpresa positiva provocada em quem visita a cidade, muitas vezes vindo de muito longe. É muito interessante cruzarmo-nos nas ruas com animadores, em inesperados eventos, poder usufruir da multiplicidade e diversidade das ofertas culturais existentes e, "last but not least", gozar da cozinha minhota que ali se pratica.

Fico com a sensação de que Guimarães deu uma bela lição a muitos - e talvez seja essa a razão que motiva o estranho silêncio de alguns plumitivos que, "em condições normais de pressão e temperatura", já normalmente se teriam dedicado a desdenhar em algo que corre bem. Não embandeiremos em arco: ainda restam seis meses. Por ora, Guimarães vai dando música à crise...

quinta-feira, julho 19, 2012

Os diplomatas e as viagens

No passado domingo, no 4º Festival das Artes da Fundação Inês de Castro, em Coimbra, falou-se de "As viagens dos Portugueses cinco séculos depois: Ásia, Brasil, África". Por lá estive, com os meus colegas Marcello Mathias e António Monteiro, recordando experiências e refletindo sobre o que aprendemos nas andanças profissionais da nossa vida. Cada um tinha a sua perspetiva, mas todos tínhamos a consciência de ser os herdeiros coletivos das viagens que outros, em nome de Portugal, fizeram no passado, deixando marcas diversas pelo mundo.

O tema das viagens está, no imaginário público, ligado à vida dos diplomatas. O António Monteiro deixou, aliás, uma história, curiosa e verdadeira, ligada aos concursos de entrada para o Ministério dos negócios estrangeiros. Como ele recordou, na "prova de apresentação" - uma conversa informal entre o candidato e os membros do júri, chefiados pelo secretário-geral, que sempre tem lugar -, havia sempre uma recomendação que era feita aos putativos diplomatas: nunca se "descaírem", dizendo que uma das principais razões que motivava a sua candidatura era o gosto pelas viagens. Uma frase dessas, porque indiciadora de uma motivação lúdica, podia arruinar em definitivo a prova. 

quarta-feira, julho 18, 2012

Viana

Viana do Castelo é uma terra à qual o nome de Pedro Homem de Melo ficará para sempre ligado, quanto mais não seja pelo poema que Amália cantou e que a imagem mostra.

O poeta tinha uma casa em Cabanas, perto de Afife, a poucos quilómetros da cidade. Hoje, ao passar na praça da República, lembrei-me de uma história que o meu pai, testemunha presencial, sempre contava.

Pedro Homem de Melo passeava-se com amigos. Do outro lado da praça surgiu José "Rancheiro", uma figura conhecida da cidade, senhor de palavra fácil e de uma voz forte. E que, alto e bom som, fez ecoar pela praça o seguinte poema (cito de cor), que está num azulejo em Cabanas, junto à casa de Homem de Melo:

"O rio passa em Cabanas
por entre fragas
tão lindo
que mesmo que vá descendo
parece que vai subindo".

Acabada a curta declamação, José "Rancheiro" acrescentou, também bem alto: "Belo poema!". Ao que Pedro Homem de Melo, visivelmente lisonjeado, reagiu, com aquela voz rouca que tinha: "... dito por Vossa Excelência!".

Não deixava de ser bonito um certo cavalheirismo de um outro Portugal. 

terça-feira, julho 17, 2012

Governantes e governantes

Um dia, bem à minha custa, aprendi que, em Portugal, há dois tipos de membros do governo: os que já foram deputados e os que, emergindo da sociedade civil, sendo ou não militantes de partidos, nunca antes se sentaram nas cadeiras parlamentares. E há um mundo de diferenças entre eles.

Embora o não digam alto, os partidos políticos veem com maus olhos a escolha, pelos primeiros-ministros, de personalidades oriundas da "sociedade civil" que, por virtude de alguma especialização temática, são alcandoradas a postos governamentais.

Pode haver alguma razão nesta atitude: quem se dedica à política tem a legítima expetativa de, subindo o seu partido ao poder, poder ter direito a ocupar lugares no executivo. Ver uns "paraquedistas" ultrapassarem-nos, não deve agradar a quem se considera ungido pelo voto popular e, por essa razão, tem muito mais legitimidade para governar. Só que os partidos não desconhecem que a inclusão desse tipo de personalidades acaba por credibilizar os próprios governos, porque lhes garante uma componente técnica valiosa, com reflexos na sua imagem junto da opinião pública. No outro prato da balança, verifica-se que a falta de "calo" político faz com que, muitas vezes, essas figuras de perfil demasiado técnico, quando sujeitas às tensões da vida política e, muito em particular, às exigências da vida parlamentar, possam derrapar. Foi o que me aconteceu, um dia, em 1996.

Eu tinha ido à Assembleia da República para defender já não sei bem o quê, na minha qualidade de secretário de Estado dos Assuntos Europeus. Ao meu lado, na bancada do governo, estava o então secretário de Estado dos Assuntos parlamentares, António Costa.

Fiz a apresentação que tinha preparado e, como é de regra, preparei-me para a chuva de perguntas que se seguiria. Fui tomando notas, para lhes responder em conjunto, no final. 

Uma das intervenções, de um deputado da oposição, tinha apenas uma questão irrelevante, que era um evidente pretexto para um discurso doutrinário de oposição geral, e a meu ver gratuita, à política europeia do governo. Logo que acabou de falar, saiu da sala, sem sequer aguardar pela minha resposta. Fiquei furioso.

No meu período de respostas, deixei para o fim a resposta a esse deputado, que tinha muito baixa estatura. Fazendo-me surpreendido, disse: "Relativamente à questão colocada pelo senhor deputado Fulano - que eu não consigo vislumbrar atrás da sua bancada... - devo dizer que fiquei perplexo, porque não me ficou claro o que pretendia com a sua intervenção. Por isso, e porque considero que não há nada de concreto a que eu possa responder, talvez seja legítimo concluir que o que disse se insere na preparação de curriculum para aquilo que consta serem as suas ambições a futuro líder parlamentar do seu partido".

Mal eu tinha acabado a frase e logo o António Costa, ao meu lado, me disse, alarmado: "No que você se foi meter! Agora, isto vai ser bonito". E foi. Ouvi logo um bruá vindo do lado do grupo parlamentar do partido do tal orador, um evidente mal-estar nas caras dos deputados do partido que apoiava o governo e, de imediato, um pedido urgente de palavra de um deputado ao presidente da Assembleia para "defesa da honra da bancada".

Fui "desancado" pelo deputado interpelante, que considerou que só podia levar à conta da minha "falta de experiência política" o que acabara de passar-se e que exigia um pedido de desculpas da minha parte. O António Costa perguntou-me o que eu queria fazer. Respondi-lhe que desculpa não pedia, porque considerava que a saída da sala do deputado que eu criticara era um gesto deselegante e que a minha reação fora motivada por isso mesmo. Com a sua maior experiência, o António Costa levantou-se, tomou a palavra e deu, com grande habilidade, a volta à situação, deitando "água na fervura", para meu grande sossego.

Na realidade, eu cometera uma grande imprudência e fora vítima do meu estatuto. A imprudência foi, desde logo, ter-me imiscuído na vida interna de um outro partido, o que fiquei a saber não ser aceitável pelas regras parlamentares consuetudinárias. Mas também aprendi que o facto de nunca antes ter sido deputado me criava uma posição "diminuída" perante os eleitos presentes na sala. Eu não era "um deles", pelo que estava longe de poder ter um estatuto para poder enveredar por graçolas que, se porventura fossem ditas por antigos colegas, teriam sido muito melhor toleradas.

domingo, julho 15, 2012

Credenciais

A apresentação de credenciais por um embaixador, junto de um chefe de Estado estrangeiro, é um ato protocolar que difere bastante de país para país, dependendo dos usos e costumes locais, muitos deles marcados pela respetiva história. Em muitos casos, o próprio chefe de Estado introduz alterações às práticas nacionais, de acordo com a sua personalidade.

Foi o que sucedeu, aqui em França, com o presidente Nicolas Sarkozy. Sendo Paris uma das capitais do mundo com maior número de embaixadas, e tendo alguns países a propensão para não deixarem os seus embaixadores "aquecer o lugar", o ritmo de apresentação de credenciais acaba por ser muito intenso. Ao que me dizem, o presidente Jacques Chirac, não obstante o peso desse formalismo, fazia questão de falar uns minutos com cada novo embaixador, deixando perguntas ou comentários que tocavam as relações bilaterais. O seu sucessor, Nicolas Sarkozy, tinha optado por um fórmula mais "leve". Cerca de 20 novos embaixadores eram colocados, lado-a-lado, numa sala e o presidente cumprimentava-os sucessivamente, recebendo as respetivas cartas credenciais, as quais, de imediato, passava para o lado, para um seu colaborador, deslocando-se para frente do diplomata seguinte, até concluir a vintena de cumprimentos.  Nessa altura, os embaixadores eram chamados a colocar-se numa espécie de semi-círculo em frente ao presidente o qual, por escassos minutos, trocava com alguns deles umas palavras de circunstância. Alguns colegas entenderam sempre este método demasiado expedito e menos conforme com a dignidade da sua função como representantes de um Estado estrangeiro. Outros compreendiam que, com uma agenda política carregada e com as relações diretas entre os chefes de Estado e de governo a processarem-se, nos dias de hoje, muitas vezes diretamente, era pouco sensato estar a pedir ao chefe de Estado francês um maior dispêndio de tempo. 

Em 2009, na minha apresentação de credenciais, testemunhei uma cena curiosa. Eu tinha acabado de saudar o presidente francês, deixando-lhe, em brevíssimos segundos, uma palavra de identificação de quem eu era e entregando-lhe as minhas cartas credenciais. Nicolas Sarkozy passara, de imediato, para o diplomata seguinte, uma senhora, representante de um país africano, que procedeu de forma idêntica à minha. Ou quase. Mal o presidente havia seguido para a cena com outro embaixador, senti um toque no braço, por parte da minha colega, que, em voz baixa e preocupada, me disse: "Que acha que devo fazer? Esqueci-me de entregar ao presidente as minhas cartas credenciais!", mostrando-me, com uma cara algo angustiada, o seu envelope. A cena fora tão rápida que o presidente nem notara que, além do cumprimento, não recebera o documento que oficializava a qualidade da embaixadora. Sosseguei-a: "Não se preocupe, dá isso depois a alguém...". E tudo se resolveu, acabada a cerimónia, com a discreta entrega do envelope ao chefe do protocolo, que sorriu, divertido, perante o relato do sucedido.

Noutros quadrantes, as cenas podem ter outro sabor e picante, como, há anos, contei aqui

sábado, julho 14, 2012

Elvas

Como já aqui se referiu, Elvas e as suas fortificações passaram, há poucos dias, a ser considerado pela UNESCO como "património mundial".

Para quem não conheça (e deve conhecer!) aquela que é uma belíssima cidade de Portugal, aqui fica esta "visita" virtual, que as novas tecnologias permitem.

sexta-feira, julho 13, 2012

Hoje

(Aqui se prova como um equívoco se pode criar, com facilidade. Nem a bela foto é minha, nem sei se isto é ou não Serralves. Só sei que vou viajar de avião, de férias. Foi tudo quanto pretendi "dizer". Pelos comentários registados, falhei, claro!)

Grandes e pequenos

Ontem, durante um almoço de trabalho de alguns embaixadores europeus com a nova presidente da Comissão de Negócios estrangeiros da Assembleia Nacional francesa, Elisabeth Guigou, falou-se, como recorrentemente acontece, do conceito de "países grandes" e de "países pequenos" na União Europeia, a propósito da necessidade da gestão europeia não aparecer dominada por qualquer "diretório" auto-assumido, que afaste alguns das decisões que a todos importam.

O meu colega luxemburguês, George Santer, com a sua proverbial boa disposição, que muita falta vai fazer em Paris, quando, daqui a dias, trocar esta capital por Berlim, citava alguém, dizendo que, em rigor, só há dois "grandes" países na Europa: "La Grande-Bretagne et le Grand-Duché du Luxembourg..."

quinta-feira, julho 12, 2012

Cova da Moura

Há semanas, em Lisboa, no Chiado, em frente à FNAC, entrei num táxi (para responder a um comentador: é verdade que ando muito de táxi, em Portugal) e disse ao motorista: "Leve-me à Cova da Moura, por favor". O homem voltou-se, olhou para mim com um ar de surpresa, e retorquiu: "À Cova da Moura? Desculpe, mas para aí não vou!".

Por um segundo, fiquei suspenso. O equívoco desfez-se quando percebi que o homem tinha entendido que o meu pretendido destino era um subúrbio com o mesmo nome, para lá de Benfica, na periferia de Lisboa, tido como um lugar altamente perigoso. Mas, afinal, eu estava a referir-me ao palácio da Cova da Moura, perto da avenida Infante Santo.

O palácio da Cova da Moura é um belo edifício, prémio Valmor em 1921, construído para moradia, que passou, em data que não posso precisar, a ter serventia pública. Em 1961, era aí que se instalava o Ministério da Defesa Nacional e nele teve então lugar a tentativa de "pronunciamento" titulada pelo general Botelho Moniz, que pretendeu, em abril desse ano, substituir Salazar na chefia do governo. Em 25 de abril de 1974, o espaço acolhia o Secretariado-geral da Defesa Nacional e foi escolhido para sede da Junta de Salvação Nacional. Como militar, nomeado assessor de um dos membros dessa estrutura de liderança formal da Revolução, aí estive por alguns meses, até que a Junta desapareceu, na ressaca do chamado "28 de setembro", nesses tempos "quentes". Mais tarde, julgo que alojou a Direção-geral da Administração Pública, para, nos anos 90, passar a ser a sede da Secretaria de Estado dos Assuntos Europeus. Aí trabalhei - bem! -  por seis anos e meio e por aí ainda tenho muitos e bons amigos - principalmente amigas, porque há muito mais mulheres que homens a tratar das questões europeias, vá-se lá saber porquê.

quarta-feira, julho 11, 2012

Contraditório

Por via de uma vida que me obriga regularmente, com algum gosto, a expor e debater ideias, fiz e continuo a fazer parte de painéis de um imensidão de colóquios, congressos, seminários ou coisas similares. Às vezes bem interessantes, outras vezes nem por isso.

Nesse mundo, há uma figura pública portuguesa, que já teve experiência governativa, com quem me cruzo, desde há muito. Temos visões políticas opostas, olhamos as coisas de maneira muito diferente, raramente coincidimos no modo de abordar as questões. Conhecemo-nos há mais de quase quatro décadas, temos modos muitos diversos de estar na vida e, por coisas que não vêm para o caso, cultivamos ambos uma espécie de insustentável tendência para nos "picarmos" em público. No meu caso, entretenho-me a procurar descortinar pontos que considero fracos no seu argumentário para depois os tentar desmontar de uma forma crítica, quase sempre sem me poupar a alguma ironia. No caso dele, julgo que é pior: quase nem precisa de ouvir o que eu digo para logo me atacar. Andamos neste "jogo" há anos.

Um dia, numa universidade americana, onde ambos éramos convidados para uma conferência, estávamos colocados em painéis diferentes, o que reduzia as hipóteses de um aberto conflito público. Eu fiz a minha apresentação, após o que a pessoa que dirigia a sessão abriu o debate ao auditório. Desse mesmo auditório, levantou-se então esse meu contraditor de estimação que, com ênfase, deixou logo claro que não concordava com o essencial do que eu tinha afirmado e com a perspetiva que eu defendera. E partiu daí para uma longa intervenção, disfarçada em pergunta, na qual, devo confessar, eu reconhecia muito pouco daquilo que tinha dito. Nada que fosse novo.

A meio dessa intervenção, sempre bem articulada e até com alguma graça, um colega de painel, creio que francês, disse-me ao ouvido: "Não percebo por que razão ele o está a contestar!". Divertido, respondi: "Não se surpreenda. É sempre assim. Já é uma velha história, entre nós". Ao que ele esclareceu: "Não é isso! É que ele não ouviu nada do que você disse. Ele entrou na sala no momento em que você estava precisamente a terminar a sua intervenção..."

Ontem, em Lisboa, cruzámo-nos, por acaso, e, naturalmente, saudámo-nos com a cordialidade conflitual que nos torna eternos adversários de estimação. 

Agostinho

Nestes tempos de "Tour de France", o jornal "Le Parisien" tem trazido memórias das canções criadas em torno da maior prova ciclística do mundo.

Sou hoje surpreendido com uma canção dedicada, em 1989, a Joaquim Agostinho, cinco anos depois da sua trágica morte em 10 de Maio de 1984. Confesso que nunca tinha ouvido falar da existência dessa canção. É uma bela homenagem de uma França que nunca esqueceu os dois terceiros lugares conseguidos no "Tour" (entre oito classificações nos dez primeiros lugares em vários outros anos) e a sua famosa chegada vitoriosa ao Alpe-d'Huez, em cuja famosa curva 14 está um marco a lembrar o feito.

Ouçam aqui a canção.

A crise

Comentário de um taxista lisboeta, esta manhã, notando que o trânsito está mais fácil:

"Os que não sentem a crise estão de férias e, por isso, não andam de carro na cidade. Os que estão em crise também deixaram de andar de carro e nem têm dinheiro para fazer férias".

É capaz de ter razão...

segunda-feira, julho 09, 2012

O poder dos intérpretes



É uma rua "paralela" à Étoile: rue de Presbourg. Passei por lá há pouco. O tempo de um semáforo deu-me oportunidade de atentar na explicação de ser o antigo nome de Bratislava, hoje capital da Eslováquia.

Fui a Bratislava, pela primeira vez, como turista, ainda no tempo da Checoslováquia. Em termos de beleza, não se compara com Praga, sendo embora uma cidade bastante agradável para viver, ao que me dizem. Um choque de modernidade provocado no tempo do "socialismo real" construiu-lhe, no centro, uma sinistra ponte sobre o Danúbio, que rasgou o coração histórico da cidade, arrasando um bairro judaico, destruindo uma zona que deve ter tido uma apreciável unidade arquitetónica. Agora que ando pela UNESCO, refletindo nos atentados ao património, tenho pensado nisso com alguma frequência.

Desde então, fui várias vezes a Bratislava, em especial quando vivi em Viena. Em fins de semana, ia por lá à ópera, para simples passeio ou para a feira de antiguidades. E tenho hoje por lá amigos eslovacos.

Um dia, creio que 1997, recebi em Lisboa o presidente do parlamento eslovaco, Ivan Gašparovič. O país era então candidato à União Europeia, mas o governo autoritário eslovaco, chefiado por Vladimir Mečiar, era execrado pelos países comunitários, sensíveis aos justos protestos da oposição sobre as limitações colocadas à liberdade da comunicação social, às inaceitáveis pressões sobre a vida política e aos métodos brutais da sua polícia. 

No encontro que tive com o meu interlocutor eslovaco, para além de expressar a simpatia de princípio de Portugal pelas aspirações europeias do país, repeti, com a necessária delicadeza de termos que a ocasião e o seu elevado estatuto impunham, as preocupações que o estado de coisas que se vivia no país a todos criavam - e neste "todos" incluía outros países candidatos à adesão, que viam o seu processo sofrer atrasos pela singularidade negativa do exemplo eslovaco.

A conversa foi feita por intermédio de um intérprete eslovaco, que insistiu em que eu falasse português. À medida que ia ouvindo a versão que lhe era dada das minhas palavras, notei que o meu interlocutor ia ficando nervoso, crispado e muito tenso. O que eu dizia, porém, bem como a forma que eu utilizava para o dizer, não justificava minimamente esse estado de espírito. Na resposta que deu à minha intervenção, contestou, com alguma rudeza, o que acabara de ouvir. E, de forma um tanto inopinada, apressou o fim da reunião. Fiquei algo perplexo, mas não liguei muito ao assunto.

Dias mais tarde, ao nosso embaixador em Viena, acreditado em Bratislava, chegou um protesto informal das autoridades eslovacas, reclamando pelo modo, tido por menos cordial, como eu tinha interpelado a segunda figura da hierarquia do país. Lembro-me de ter reagido e, já não sei bem como, fiz chegar a minha maior estranheza pela ocorrência ao meu contraparte no governo eslovaco, que conhecera brevemente numa reunião em Bruxelas. Se há tradição que a diplomacia portuguesa tem é a preservação do diálogo e uma constante prática de cordialidade, mesmo em momentos mais tensos, onde a firmeza se impõe. Eu sabia muito bem o que tinha dito, e que diria de novo, e se havia alguém que era culpado de qualquer "misunderstanding" essa pessoa era o intérprete eslovaco. Mas como me era possível provar isto?

Pouco tempo depois, percebi que algo tinha mudado: recebi um convite oficial para me deslocar à Eslováquia. Era uma visita com algum risco, porque não se podia permitir que fosse aproveitada pelo regime como traduzindo um gesto que indiciasse qualquer fragilização da atitude crítica que prevalecia na Europa sobre o comportamento do regime. Insisti, por isso, em encontrar os principais partidos políticos de oposição, tendo visitado a sede de um deles e recebido dois outros responsáveis oposicionistas no hotel. Esta é uma prática que nunca agrada aos nossos anfitriões oficiais, mas coloquei-a como condição sine qua non para a realização da visita. E, para evitar declarações isoladas à imprensa, proferi uma conferência sobre o processo de integração num instituto dedicado aos estudos europeus, com uma surpreendente enchente e um animado debate.

Apenas um pormenor mais. No programa da visita, pedi que fosse incluído um encontro com o interlocutor que encontrara em Lisboa, para lhe apresentar cumprimentos. Não tinha disponibilidade, como eu imaginava. Ivan Gašparovič é hoje presidente da República da Eslováquia.

Várias vezes me tenho interrogado sobre a quantidade de confusões políticas que os intérpretes já devem ter provocado por esse mundo fora.

Jogar à defesa

Dizer que o ataque a um país situado a mais de dez mil quilómetros tem uma natureza "defensiva" só não roça o ridículo porque, da ...