quinta-feira, outubro 01, 2009

Financeiros

São umas dezenas de jovens na casa dos 20 e dos 30 anos, portugueses ou luso-descendentes, que ocupam lugares técnicos de relevo em empresas em França. Reúnem-se mensalmente, para reforçar amizades, contactos e lusitanidade. Chamam-se a si próprios a "Confraria dos Financeiros" e têm homólogos no Luxemburgo e no Reino Unido.

Ontem, estive a jantar com eles e a aprender um pouco o que é esta nossa nova comunidade, unida pelas raízes portuguesas, leal à França onde se inserem plenamente, com o seu presente marcado já pelas principais profissões do futuro.

Ocupação

Um grupo britânico de "okupas", dedicado a ocupar casas devolutas, acaba de instalar-se numa moradia em Belgravia, umas das zonas mais prestigiosas de Londres, perto da casa de Margareth Thatcher, da Embaixada de Portugal e, ao que li na imprensa, de Vale a Azevedo.

Esta história recordou-me uma outra, ocorrida em S. Paulo, no Brasil, há alguns anos. Um grupo de "sem abrigo" ocupou um andar de luxo, desabitado, na zona dos Jardins. Ao final de alguns dias, os ocupantes desistiram da ocupação, não por qualquer atitude coerciva, mas, muito simplesmente, por terem concluído que os preços dos produtos básicos, em todas as lojas da zona, era muito superior àquilo que poderiam pagar no seu dia-a-dia.

Tal não será o caso de Belgravia, pelo género de ocupantes e pela própria geografia. Por todas as razões, a história terá, sem dúvida, um final diferente.

"P'ra não dizer que não falei das flores"

Economia

Os docentes universitários Carlos Pereira e Dulce Santos acabam de preparar para a Pocket , aqui em França, este interessante pequeno livro, "pour maîtriser la langue des affaires", um bom instrumento de trabalho para a área económica.
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Num tempo em que é importante reforçar o intercâmbio económico bilateral, aqui está uma excelente iniciativa, a saudar.

Política externa

Ao longo da campanha eleitoral que há dias se concluiu, alguns comentadores estranharam o facto da política externa, tal como a política de defesa, não ter sido objecto de debates, embora constasse dos programas de todos os partidos.

Contrariamente a quantos entendem que as questões de ordem externa ganham em ser alimento para o confronto político-partidário, devo confessar que, como profissional da diplomacia, fiquei muito satisfeito em vê-las afastadas da polémica eleitoral. O que, no entanto, não exclui a necessidade de tais opções deverem ser regularmente abertas a uma reanálise serena e objectiva, na qual se insira a apresentação de propostas alternativas para a sua condução, à luz das mudanças que a conjuntura e a evolução dos nossos interesses justificarem.

Ao longo de mais de 35 anos de regime democrático, com excepções ligadas a certos momentos do período da consolidação do novo regime e, num tempo mais recente, a uma episódica leitura ultra-zelosa de alinhamentos tradicionais, a nossa política externa tem mantido uma constância e um perfil de grande continuidade e de elevado consenso interno, que se reflecte nos programas e práticas dos vários Governos. E permitam-me que diga que sei do que falo, porque, ao longo da minha carreira, servi já sob a orientação de 19 ministros dos Negócios Estrangeiros...

Foi esse percurso de crescente solidez de actuação que nos permitiu garantir a imagem de coerência e previsibilidade que hoje marca a nossa política externa e que conduz, com segurança, o exercício da nossa diplomacia. Por essa razão, felicito-me pelo facto do calor das discussões eleitorais nos ter poupado.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Portugal Fashion Paris

Uma vez mais, a moda portuguesa e de portugueses apresentou-se em Paris, com destaque mediático.

De Portugal vieram Luís Buchinho e Fátima Lopes. Por cá está Felipe Oliveira Baptista. Foi ontem, nesta terra que é a capital da moda. Um excelente sinal. Aprendam a conhecer melhor estes estilistas, clicando nos respectivos nomes.

Blake & Mortimer

Para parte de geração portuguesa que teve a infância ou juventude nos anos 50 do século passado (por alguma razão, custa-me sempre escrever a expressão "do século passado"), as aventuras de "Blake et Mortimer", da autoria de Edgar P. Jacobs, são ainda hoje uma recordação muito viva.

Figura importante da excelente escola belga de banda desenhada, de que Hergé é, sem dúvida, o maior expoente, Jacobs abria-nos o mundo através de álbuns de uma fantástica qualidade e fruto de cuidado estudo, que agarravam a nossa imaginação e nos transportavam para cenários muito realistas, às vezes quase plausíveis. Quando vivi em Londres, não resisti a reproduzir os percursos do "Marca Amarela" e do Dr. Septimus e, ao entrar um dia no museu do Cairo, a figura do Professor Grossgrabenstein (que só pode ter sido inspirada, "avant la lettre", no Caetano da Cunha Reis) veio-me logo à memória - este último saído desses dois álbuns sem par que constituem "O Mistério da Grande Pirâmide". E até os Açores passaram pelas histórias de Jacobs, no "Enigma da Atlântida".

A trama jacobiana centra-se sempre numa dupla de amigos, um militar e um cientista, envolvidos na luta eterna, pelo lado do "bem", contra um inimigo permanente, Olrik, que encarna os vários males e que tem uma capacidade de sobrevivência que acaba por nos causar mesmo alguma admiração. As mulheres, confirmando uma misoginia muito própria de um certo período da banda desenhada europeia (mas não, curiosamente, dos "comics" americanos, sendo embora da mesma época), têm sempre um papel escasso nestas tramas, surgindo apenas com algum relevo nos álbuns desenhados pelos seguidores de Jacobs, já após a sua morte.

A que propósito vem esta evocação? Pelo facto de, há dias, ter sido aqui anunciada a iminente publicação de um novo álbum, que vai mobilizar alguns que, como eu, continuam a não perder nenhuma das aventuras de "Blake et Mortimer", mesmo se já escritas pelos seus continuadores. Peço que percebam: trata-se de amigos com quem me "dou" há mais de meio século.

E nada melhor para ilustrar este post do que um extracto do movimentado e tempestuoso "SOS Meteoros", com a parisiense igreja da Madeleine ao fundo.

terça-feira, setembro 29, 2009

Praxes

Acabam de ser anunciadas novas medidas de natureza coerciva para pôr termo às mais degradantes formas de praxe académica - esse modo primário de "integração" que tem vindo a converter-se, progressivamente, num processo cada vez mais violento de humilhação intergeracional.

Aquilo a que a sociedade portuguesa tem vindo a assistir, nas últimas décadas, é à transformação do que era uma prática de conteúdo lúdico, mais ou menos divertido e consentido, num ritual de violência gratuita, muito potenciado pela anormalidade alcoolizada dos seus executores, com requintes de sadismo que chegam a levar a violações, agressões e até a mortes.

Um incompreensível imobilismo colectivo deixa quase sempre impunes os executores dessas práticas, absolvidos por um manto de alegada tradição que mais não é do que um alibi para a discricionariedade e o arbítrio. Veremos se, finalmente, algumas regras de natureza oficial conseguem abrir caminho para obrigar os dirigentes das escolas - os principais responsáveis e os únicos a terem condições de proximidade para poderem actuar - a serem mais rigorosos, menos permissivos e, essencialmente, menos cobardes.

Cunhas

Roman Polanski, o genial realizador de cinema, cometeu um crime de violação, há cerca de três décadas. Foi condenado, com todas as garantias de defesa, a cumprir uma pena de prisão, situação a que se furtou, indo viver para o estrangeiro. Agora, por distracção, foi detido e arrisca-se a ser extraditado para o país que o condenou. Esse país não é nenhuma ditadura onde haja uma desproporção chocante entre a gravidade do crime e a pena que lhe compete: trata-se dos Estados Unidos da América.

Se ele se chamasse Zé do Anzóis e vivesse num subúrbio, nem uma linha seria publicada e, porventura, já estaria a caminho da prisão. Como tem um nome internacional, amigos poderosos e uma corte de admiradores (entre os quais me incluo), correm já por aí abaixo-assinados para isentar o violador do cumprimento da pena. Subscritores que, muito provavelmente, nunca tiveram as suas filhas violadas.

Isto faz-me lembrar, medidas as diferenças de escala, as atribulações por que sempre passa a diplomacia portuguesa quando certos cidadãos nacionais - desde que com bons contactos (artistas, jornalistas ou outros mediáticos "istas") ou ditos de "boas" famílias - se metem em alhadas com a justiça pelo mundo, com a droga como motivo mais comum. Nas horas seguintes, lá chegam aos titulares das embaixadas ou dos consulados, por vezes de instâncias inesperadamente "altas", telefonemas pedindo urgentes intervenções e personalizadas diligências, com vista a tentar safar suas excelências. Tudo isto procurando garantir uma forma de actuação diferente do que aconteceria se se tratasse de um qualquer pobre diabo, sem nome nem amigalhaços influentes, que apenas receberia a protecção consular normal.

Às vezes, há que reconhecer que é difícil resistir a tais pressões, embora, no MNE, como se recordarão, o tempo das "cunhas" já tenha tido melhores e mais mediáticos dias...

segunda-feira, setembro 28, 2009

Nova sociedade

Uma das mais instrutivas experiências para quem, como eu, vive fora de Portugal é deparar com um novo e totalmente desconhecido mundo social-mediático, por vezes indecifrável.

Há umas revistas, que começam logo a ser-nos "servidas" nos aviões, onde somos abalados (e aqui invento nomes, claro) por títulos desta estirpe: "Mónica Leal encontra um novo amor com Ricardo Teles, depois da separação de Miguel Dias". Ou então: "Gravidez de Isabel Damas interrompe a sua carreira, reforçando a ligação com Telmo Soares". Os cenários de fundo variam, com as festas a dominarem no Verão, discotecas ou ambientes familiares sempre, algumas fotos de paparazzi paroquiais à mistura, mas as mais das vezes com poses consentidas e aparentemente procuradas.

Todas estas excitantes revelações são acompanhadas de imagens ilustrativas, embora os respectivos textos considerem quase sempre dispensável, por óbvia desnecessidade de que só alguns ignaros reclamam, dar-nos mais elementos sobre quem são, na realidade da vida, tais figuras. Às vezes, lá se consegue, pelo cruzamento de algumas escassas referências, perceber o que fazem as personalidades dessa nova sociedade: quase sempre moda e televisão, com alguns jogadores de futebol à mistura. E, de quando em vez, há pelo meio uns empresários de camisa aberta até ao terceiro botão.

Podem crer que, para um diplomata, é angustiante: ter a percepção de não conhecer um tão importante sector do país que representa!

TAP

Tenho o maior respeito pelas greves e pelo direito de cada um poder fazê-las, quando muito bem entende e pelas razões que acha oportunas.

Gosto, no entanto, de perceber a racionalidade das reivindicações e, devo confessar, isso para mim não foi nada evidente na recente paralização dos pilotos da TAP. Agravar o défice de uma companhia aérea, que está num difícil processo de recuperação, parece-me uma atitude masoquista e quase suicidária.

Mas devo ser eu que estou a ver mal as coisas. Eu e a totalidade dos funcionários da companhia com quem falei numa deslocação a Lisboa no último fim de semana.

À distância

Será inevitável? Não sei, mas lá que é profundamente irritante ver o "Le Monde" tratar nas suas colunas as eleições em Portugal pela pena do seu correspondente em Madrid, lá isso é! Parece que voltamos ao tempo do Estado Novo, quando era isso que acontecia.

Por que não fazer os artigos na redacção, em Paris, com base nos "takes" das agências? De Madrid vê-se melhor Lisboa?

sábado, setembro 26, 2009

Reflexão

É obra!

Este blogue chega à véspera das eleições legislativas em Portugal com um orgulho que não pode disfarçar.

Nos últimos meses, a política encheu a esmagadora maioria da "blogosfera" portuguesa. O acentuar do debate interpartidário, no caminho para as eleições europeias e, mais recentemente, na aproximaçao da dupla jornada de eleições legislativas e autárquicas que aí vêm, deu alento aos espaços informáticos que trataram esse mesmo tema, de forma mais ou menos "engajada", mas sempre tendo-o no centro das suas atenções. Por isso, muitos blogues portugueses, muitas vezes colectivos, reflectem uma elevadíssima frequência diária de visitantes-leitores, a qual, manifestamente, representa também o interesse que a vida política tem suscitado entre nós. O que não deixa de ser saudável e traduz mesmo um sintoma de uma forte vitalidade cívica.

Mas, então, porquê o orgulho que este nosso blogue ostenta? Porque, não obstante, pelas razões que são óbvias, nos furtarmos a colar a nossa escrita às temáticas da polémica política, e tratando-se ademais de um blogue com um único autor, foi-nos possível manter uma muito apreciável "clientela" de fiéis leitores. E isso, indiscutivelmente, é obra - essencialmente dos nossos leitores, claro! O que prova essa coisa tão simples de que há mais vida para além da política.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Voto

Este fim de semana, por óbvias e cívicas razões, este blogue regressa a serviços mínimos, embora sempre regulares.

A actualização dos comentários sofrerá, contudo, algum atraso.

2ª feira, cá estaremos. É que a vida continua, sabem?

Chiado

A disparidade dos padrões culturais tem consequências curiosas, embora nem sempre cómodas.

Precisamente há uma semana, no Chiado, decidi engraxar os sapatos. Era uma bela tarde e, aí durante dez minutos, lá estive a ler o jornal, num engraxador que costuma parar em frente à Bénard. Na altura, lembrei-me - juro! - do poema do O'Neill: "O senhor engenheiro hoje não engraxa? Engraxo na Baixa".

A meio da função, levantei os olhos e reparei que um grupo de turistas estrangeiros fotografava a cena, de vários ângulos, com uma curiosidade quase antropológica. Senti-me uma espécie rara. Quem sabe se, entretanto, não apareci já nalguma publicação nórdica, a ilustrar o tipicismo da vida lisboeta.

Já agora, espero que algum dos fotógrafos tenha tomado um ângulo mais alargado e fixado o nome da casa comercial ao lado da qual estávamos: "Paris em Lisboa"...

quinta-feira, setembro 24, 2009

Irlanda

O meu próximo 5 de Outubro inicia-se com um pequeno-almoço de debate sobre os resultados do referendo irlandês, para o qual fui gentilmente convidado pelo actual Secretário de Estado dos Assuntos Europeus francês, também com a presença de um seu antecessor e meu antigo contraparte, Pierre Moscovici. Devo dizer, aqui entre nós, que considero uma verdadeira tragédia civilizacional o facto desta prática americana dos pequenos-almoços de trabalho ter já "pegado" por aqui. Mas, enfim...

Se lhes contar que, ao final da tarde desse dia, terei ainda, na Embaixada da Suécia, uma mesa-redonda sobre os desafios da Presidência sueca da União Europeia, já perceberão melhor o glorioso destino do meu feriado republicano. O que nós fazemos pela Europa!

Deixo-lhes na foto a imaginativa bandeira do convite para o debate matinal, uma espécie de "wishful thinking" pelo sucesso do Tratado de Lisboa.

Rios

O tema do Festival de Loire, de que Portugal é este ano convidado de honra, foi a comparação de culturas de regiões com rios. Ontem, em Orléans, o rio Loire aproximou-se do Douro, da ria da Aveiro e do Tejo. Algo insólito foi ver o Loire percorrido por barcos rabelos, por moliceiros e por canoas lisboetas, com sons do nosso folclore a encherem as ruas da cidade e a Radio Arc-en-Ciel / Rádio Arco-Íris a espalhar horas de boa música portuguesa.

Cada vez mais, as municipalidades francesas, conscientes da crescente importância da comunidade portuguesa e luso-descendente, têm iniciativas que mobilizam a sua ligação a regiões do nosso país, acordando lentamente para uma realidade que, infelizmente, ainda é por aqui muito desconhecida ou tocada de forma caricatural.

Ontem, no jantar português que o "maire" de Orléans nos ofereceu, pude constatar que a esmagadora maioria dos presentes nunca se tinham deslocado a Portugal, embora mantivessem alguma curiosidade por esse país quase vizinho, de onde lhes chega gente séria e trabalhadora, com que se cruzam nas ruas e no trabalho, mas do qual quase só conhecem o vinho do Porto e onde sabem que se canta uma coisa nostálgica que é o fado.

Portugal está tão perto mas ainda tão longe de França!

Lembrar

Seria importante que os parceiros do G7 aproveitassem para lembrar publicamente a Trump que os palestinos de Gaza e da Cisjordânia não podem...