Era àquela hora despovoada em que o Procópio tem escassas almas, imediatamente antes do jantar. Às vezes, há por lá uns canastrões a "fazer a folha" a secretárias em busca de ascensão, ou um tête-à-tête de negócios. O Nuno Brederode Santos tinha chegado, depois das seis, fazia horas para ir jantar ao "Mãe de Água". Eu estava por lá por um mero acaso, muito longe do meu turno.
Vimo-lo entrar e sentar-se ao balcão. Trazia a marca indelével dos chatos. Saudou-nos na "mesa dois", à distância. O Nuno sabia quem era. A certo passo, com o resto da sala deserta, copo na mão, o cavalheiro aproximou-se da "dois", perguntou se se podia sentar. Saí um pouco da conversa, com ele a inquirir do Nuno sobre umas coisas que não me diziam o menor respeito. Com generosidade inclusiva, o tipo voltou-se então para mim: "Sabe, eu e o Nuno conhecemo-nos do tempo do Ertilas, aquele café de Campo de Ourique. Grandes noitadas por lá, não era, Nuno?". O Nuno, complacente, dizia que sim. Comentei então que o Luís, o magnífico empregado do Procópio que nos aguenta nas últimas décadas, havia trabalhado nesse café. O "Ah! Sim?" (versão lusa do anglo-saxónico "really?!") foi a única coisa que lhe saiu.
Vimo-lo entrar e sentar-se ao balcão. Trazia a marca indelével dos chatos. Saudou-nos na "mesa dois", à distância. O Nuno sabia quem era. A certo passo, com o resto da sala deserta, copo na mão, o cavalheiro aproximou-se da "dois", perguntou se se podia sentar. Saí um pouco da conversa, com ele a inquirir do Nuno sobre umas coisas que não me diziam o menor respeito. Com generosidade inclusiva, o tipo voltou-se então para mim: "Sabe, eu e o Nuno conhecemo-nos do tempo do Ertilas, aquele café de Campo de Ourique. Grandes noitadas por lá, não era, Nuno?". O Nuno, complacente, dizia que sim. Comentei então que o Luís, o magnífico empregado do Procópio que nos aguenta nas últimas décadas, havia trabalhado nesse café. O "Ah! Sim?" (versão lusa do anglo-saxónico "really?!") foi a única coisa que lhe saiu.
Esgotados os minutos em que nos encharcou de conversa, o cavalheiro preparou-se para sair. Nostálgico, comentou, de novo íntimo, com o Nuno: "Grande Ertilas! Belo café! Grandes tempos! O nome do café é grego, não é?". O Nuno, grave, acenando que sim com a cabeça, confirmou. Era um nome grego, da mitologia, claro.
O tipo saiu. Eu tinha de fazer o mesmo. O Nuno ia para o restaurante. Perguntei: "Conhecias bem o tipo?". "Mais ou menos, mas nunca o vi no Ertilas..." Riamo-nos, já fora, pelas escadas, quando comentei: "Não fazia ideia de que Ertilas era um nome grego!" "Grego?" O Nuno deu uma gargalhada das dele: "Ertilas é Salitre ao contrário"...
Ontem, não pude ir aos Prazeres, despedir-me do Nuno. Lá por Campo de Ourique, como o Ertilas, o bairro onde o Nuno nasceu.
