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sábado, março 12, 2016

Seguro e Rushdie

António José Seguro regressou ao espaço público, do qual se tinha afastado por vontade própria, depois de ter perdido as eleições internas no PS contra António Costa. Fê-lo na sua qualidade de académico, apresentando um livro que escreveu sobre o parlamento português. Muitos amigos estiveram por lá, a dar-lhe um abraço.

Infelizmente, razões imperiosas de última hora impediram-me de estar presente nessa sessão de lançamento da obra, que decorreu na sua e minha universidade - a Universidade Autónoma de Lisboa -, onde ambos lecionamos, no mesmo departamento de Relações Internacionais.

António José Seguro é um homem de bem e um amigo pessoal. Enquanto foi secretário-geral do PS, tive imenso gosto em com ele colaborar, em especial no aprofundamento de algumas questões europeias, no quadro da iniciativa "Novo Rumo", de cujo "núcleo duro" faziam também parte Caldeira Cabral, Maria João Rodrigues, Sampaio da Nóvoa e Lídia Sequeira.

Antes, eu estivera com ele num dos governos de António Guterres e acompanhara de perto a sua atividade no Parlamento Europeu. É uma figura seriíssima de cidadão e, por muitos erros que possa ter cometido enquanto líder socialista, ninguém o pode acusar de não ter sempre atuado de um modo empenhado, tentando fazer aquilo que considerou ser o melhor para o seu e nosso país.

Ao escrever isto, lembrei-me de como o conheci.

Um dia, em Londres, aí por 1991, recebi um telefonema de António José Seguro. Eu era "ministro conselheiro" na embaixada, isto é, o substituto legal do embaixador. Só conhecia então Seguro de nome, como líder da Juventude Socialista. Nunca antes tínhamos falado.

Disse-me que estava a organizar a vinda a Portugal de Salmon Rushdie, o escritor que, ao publicar o livro "Versos Satânicos", provocara a ira do fundamentalismo religioso iraniano, que sobre ele decretara uma "fatwa", uma decisão que estimulava os muçulmanos shiitas a ajudarem à sua liquidação. Vivia sob ameaças constantes de morte, sob proteção policial, viajando às vezes sob nome falso.

Seguro disse-me que a JS, creio, decidira convidar Rushdie a vir ao Porto, a uma iniciativa sobre liberdade de informação e criação, já não sei em que âmbito. O assunto estaria totalmente sob controlo em Portugal, em termos de segurança, com a PSP devidamente envolvida, cujo comandante, se necessário, poderia ser contactado sobre o assunto. Em Londres, no entanto, no balcão da TAP, as pessoas que ajudavam Rushdie tinham encontrado inesperadas dificuldades, pelo que o assunto estava num impasse. O que António José Seguro pretendia era que a embaixada arranjasse um interlocutor, na delegação da TAP, que pudesse fazer o tratamento personalizado da questão, a qual não era, visivelmente, "business as usual".

Assim fiz. Expliquei ao diretor da TAP em Londres o problema e pedi-lhe que alguém recebesse uma determinada pessoa de que Seguro me deu o nome. É assim que este tipo de questões, com maior delicadeza, sempre se tratam. Não meti nenhuma "cunha", nem pedi que fizessem nada de especial. Nem eu sabia, nem queria saber, se o que eventualmente os amigos de Rushdie pretendiam era possível ou não. A TAP que ajuizasse, depois da conversa. E esqueci o assunto. Pelos jornais, dias depois, vi que Rushdie tinha ido ao tal encontro no Porto.

Eis senão quanto, sou informado que tinha sido ordenado, contra mim, a pedido do gabinete do primeiro-ministro português, um inquérito por alegada "pressão" minha junto da TAP, num caso que tinha afetado a "segurança nacional". O tom era sério, o MNE, na sua subserviência empanicada face a S. Bento, passara de imediato a bola para o meu embaixador. O qual, claro, deu "dois berros" por escrito que acabaram por anular o assunto, depois de eu relatar aquela que era uma verdade bem simples e verificável. Ah! "For the record": o primeiro-ministro de então chamava-se Cavaco Silva.

Outros tempos