Posso ser sincero? A CPLP tem duas décadas de existência e,
há que dizê-lo com frontalidade e transparência, estes vinte anos não foram os
mais entusiasmantes.
Houve
países que investiram a sua vontade política na CPLP. Outros fizeram os
mínimos, outros nem isso. A profunda desigualdade entre os Estados integrantes,
as diferentes prioridades em que cada um coloca a organização no quadro das
suas opções externas – tudo isso contribuiu para desenhar uma manta de
retalhos, aqui ou ali nem sempre muito bem servida pelas personalidades a quem
competiu desempenhar o cargo de Secretário-Executivo. Presumo que não seja
politicamente correto dizer isto “alto”, mas eu, que estou de fora, não me coíbo
em afirmá-lo.
A CPLP tem
urgentemente de se repensar. Neste tempo de refluxo global da liberdade de
circulação, ou a organização se consegue relançar como um espaço de cidadania
coletiva, visivelmente útil para todos os seus cidadãos e Estados, ou o seu
destino continuará a ser o estiolar na rotina declaratória das cimeiras. Por
essa razão, criar tensões artificiais, para tentar relançar jogos de poder, é
um gesto gratuito e até irresponsável. Nesse caso, talvez fosse melhor assumir,
com coragem, o desafeto lusófobo ao projeto, em lugar de estimular polémicas que
podem ter efeitos detrimentais nas relações bilaterais. Ou então, se esse é
objetivo, assumi-lo abertamente.
Sei que o
tema não é cómodo para muitos, mas também não vale a pena esconder que a adesão
da Guiné Equatorial – forçada pela generalidade dos restantes membros, contra a
vontade portuguesa – não configurou a “finest hour” de uma organização que se
havia assumido, no seu início, com uma vocação ético-política, e que acabou por
vergar-se à realpolitik. Goste-se ou não, essa adesão deixou feridas,
descredibilizou profundamente a organização e permanece como um ferrete de que
a CPLP se não libertou. O facto dos diferentes países ainda hoje olharem para
esta realidade de forma contrastada é, em si mesmo, prova da fragilidade dos
princípios comuns da organização.
Tenho-o dito
e escrito, desde há muito: enquanto a CPLP não for assumida pelo Brasil como um
instrumento essencial da sua política externa, a organização tem escassas
possibilidades de evoluir e de afirmar-se à escala global. E nunca, até hoje, o
foi. Em 2016, o Brasil assume a presidência rotativa da CPLP. Fá-lo-á passando
a ter como embaixador junto da organização um diplomata que conheço muito bem, com
grande qualidade e prestígio. Esta é uma oportunidade soberana para Brasília
dar mostras de liderança e capacidade para relançar um projeto que, para ter
“pernas para andar”, necessita, apenas e só, de vontade política. Porque acho
que a ideia da CPLP permanece cada vez mais válida, confesso que ando à procura
de razões para alimentar o meu otimismo.
