Teriam imensa graça, não fora a confusão que a publicação pode causar em leitores menos avisados e mais dados às teorias do "complot", os artigos que, na passada semana e hoje, o "Expresso" traz sobre o conhecido "arquivo Mitrokhin". Nele se reeditam notas de espiões soviéticos, ao tempo da Guerra Fria, sobre contactos com figuras portuguesas, nomeadamente diplomatas. Não falo por outras profissões, nem quero absolver ninguém (particularmente quem nunca foi acusado de nada), mas só quem não conhece os meandros da vida internacional pode ficar (aparentemente) surpreendido pela circunstância de ter havido contactos e conversas entre diplomatas e funcionários (também acreditados como diplomatas) dos serviços secretos de países "de Leste" (soviéticos e não só), a cujas notas, curiosamente, é dada uma estranha credibilidade, na tentativa ávida de encontrar algum escândalo. Como se vê pelo que foi publicado, e na esmagadora maioria dos casos, "a montanha pariu um rato"... Porém, infelizmente, na velha lógica medíocre de que "não há fumo sem fogo", alguma insídia se instalará sempre, o que é triste. Desde logo, para a dignidade do "Expresso".
Ora estas coisas são, em geral, bem simples. Também eu, ao longo dos anos, em especial nos primeiros tempos da minha carreira, fui aproximado por "diplomatas" deste jaez, oriundos de países de Leste. Nunca rejeitei esses contactos, até lhes achava graça, tendo, como regra essencial, reportá-los, com toda a naturalidade, aos embaixadores com quem trabalhava. As "conversas" eram sempre as mesmas: a nossa avaliação sobre a situação política do país onde estávamos colocados, tentativa de obter a nossa leitura pessoal sobre a vida internacional, comentários sobre as embaixadas e funcionários das missões dos grandes países ocidentais no país, a nossa visão sobre algumas figuras políticas locais, etc.
Recordo-me bem, um dia, em Oslo, na Noruega, ter conhecido, num evento social, um funcionário da embaixada da URSS, aí por 1981 ou 1982. Trocámos cartões e, uns dias depois, telefonou-me para me convidar para almoçar. O local, se bem me lembro, era sinistro: um mau restaurante chinês (!), perto do estádio de Bislet. A nossa mesa era ao fundo, numa zona escura da sala. A conversa foi normal, para aquele estilo de contactos. A certo ponto, o meu anfitrião, numa tentativa de criação de cumplicidade, perguntou-me: "O que é que diria o seu embaixador se nos encontrasse a almoçar aqui?". A resposta tê-lo-á desiludido: "Teria curiosidade em que eu o apresentasse, porque lhe disse que vinha almoçar consigo...".
Tempos mais tarde, convidei esse diplomata soviético e a mulher para jantar em minha casa. Havia outros convidados, mas não lhe disse. O casal russo foi o primeiro a chegar e, como grande parte da sala em que estávamos era visível da rua, vi-o discretamente tentar fechar um pouco mais uma das cortinas... Mas a maior surpresa - para ele e não só - estava ainda para vir. Minutos depois, foram chegando os dois casais que faltavam. Foi um "espetáculo" digno de se ver, à medida que se cumprimentavam. Todos eles já se conheciam: eram os "espiões" dos Estados Unidos e da França! Nenhum deles se assumia como tal, pelo que, formalmente, não podiam "queixar-se" do inusitado daquele encontro. Eu tinha boa relação com todos, mas tê-los juntado num jantar era uma evidente (embora subliminar...) provocação. O decurso do jantar foi um tanto "estranho", devo confessar, mas eu diverti-me imenso!
Desde esse dia, o russo desapareceu-me de cena. O francês agradeceu, no dia seguinte, com um cartão neutro. O americano, com quem eu tinha a melhor relação, telefonou-me - num tom entre o divertido e o perplexo - a agradecer a ocasião: "Very nice party! And what a group of guests!" Limitei-me a responder: "I knew you would like it!". E acabámos às gargalhadas...
