No meio do seu segundo mandato como presidente do Brasil, Lula
da Silva recusou dar alento à hipótese, por muitos sugerida, de tentar uma
mudança constitucional que lhe permitisse um terceiro tempo na chefia do
Estado. Recordo-me de ter então dito que não queria proceder como Fernando
Henrique Cardoso, que havia aceite uma reforma da constituição para fazer um segundo
mandato.
O gesto de respeito pela letra da lei, por parte de Lula,
foi apreciado em todo o mundo, por romper com o vício latino-americano de
privilegiar as escolhas de continuidade político-pessoal em detrimento do
estrito cumprimento dos normativos constitucionais.
A decisão de Lula de integrar o governo de Dilma Rousseff,
com o único objetivo de escapar à instância judicial em que está a ser
investigado, colocando-se sob o “foro privilegiado” do Supremo Tribunal
Federal, não vai passar a ser uma linha prestigiante no currículo de um homem
que, no passado, havia ganho a admiração de muitos milhões de pessoas, pela
profunda transformação que protagonizou no Brasil.
É verdade que o modo como setores do Ministério Público
brasileiro estavam a destratar o antigo presidente estava longe de ser aceitável,
como foi flagrante na forma desrespeitosa como foi levado a prestar declarações,
bem como em comentários, politicamente enviesados, feitos sobre o processo.
Porém, ao decidir entrar para o governo do país,
instrumentalizando-o abertamente por um interesse pessoal, Lula terá ido longe
demais. Terá assim disparado a sua última bala, aquilo a que alguns chamam a
“bala de prata”. Que também passa a pertencer a Dilma Rousseff, cujo futuro
fica agora, mais do que nunca, ligado ao destino de Lula. Pressente-se em tudo
isto um grande desespero. E o desespero, na vida como na política, nunca é bom
conselheiro.
