sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O elefante na sala


E se escrevesse sobre Pedro Dias, que a mediocridade mediática promoveu no dia errado? E por que não sobre a Caixa e as suas trapalhadas? Ou, então, a "cultura de balneário" em Alvalade, depois do último jogo? Por fim, fui tentado a adiantar alguma coisa sobre aquilo que, ontem, disse em Berlim, sobre segurança europeia. Mas escrevesse eu fosse sobre o que fosse, o "elefante na sala" ia impor-se: lá está ele a fugir às coisas incómodas!

Falemos então do "elefante", símbolo do Partido Republicano, cujo inesperado representante acaba de ganhar a liderança, por quatro anos, da principal potência mundial. 

Donald Trump ganhou com toda a legitimidade, por muito que isso custe a ouvir. É claro que a sua campanha assentou em propostas e ideias marcadas por um imenso primarismo, por muitas mentiras e meias verdades, pelo apelo a sentimentos básicos, a preconceitos e mensagens perigosas e divisivas. Mas a América é um país livre, onde tudo se pode dizer. Trump teve contra si imensos setores da comunicação social, que, embora em alguns casos sem grande entusiasmo, favoreceram a sua competidora.

E, no entanto, Trump venceu. Venceu porque soube representar, à sua maneira, essa imensa, e pelos vistos maioritária, massa de descontentes, os deserdados da globalização, os temerosos da imigração, os incomodados com o novo curso do “melting pot” que fez o seu país e, principalmente, os enraivecidos com a máquina federal que Trump diabolizou e a que, agora, ironicamente, vai presidir. Trump é a vitória da democracia, no seu lado mais sombrio.

A vitória de Trump tem, para além de tudo o resto, que é muito, um “side effect” perverso, na minha perspetiva. É que ele, e aquilo que ele representa, são a condenação explícita de tudo quanto a presidência Obama trouxe para a América -  a tolerância, o equilíbrio, a atenção às dimensões sociais e étnicas que a “selva” tinha condenado. É o regresso de uma outra América, feita de uma agenda negativa de medos, disposta à clivagem e ao confronto. Mas – repito, para que se não esqueça – essa América é hoje maioritária e, pelas mesmas razões por que nos desagradava a ideia de Trump de que não aceitaria um resultado que lhe fosse desfavorável, as regras da democracia obrigam todos a respeitar esta escolha.

Agora, há que viver com Trump, ou melhor, há que saber desenhar o modo como nos relacionaremos com a América de Trump. Desde logo, na Europa, onde o exemplo do que se passou nos EUA deve ser bem refletido, no caminho para sufrágios que aí vêm. Vai ser um tempo estranho, inédito. Mas o mundo é assim, embora, com Trump, seguramente vá ser um mundo muito mais difícil.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

8 comentários:

Isabel Seixas disse...

oh, decerto convidará a Teresa Guilherme para a sua principal assessora por analogia com a família Obama que adotou um cão de origem portuguesa,e esses factos povoarão a nossa imprensa para aumentar a nossa autoestima patriótica da patetice nacionalizada, alimentará os sonhos agora já tudo ainda é mais possível, trará vantagens imediatas para a legislação e os decretos lei sobre as frivolidades já em cumprimento só faltava mesmo pô-las oficiosamente em diário da republica...

E uau, aquela garota que a televisão colocou a andar de branco imaculado num andar de senhora dos passos, eventualmente virgem, coitada,com um MACACÂO mas assim com clonagens de saia vestido com membranas alares de morcego com um ar promissor de subserviência inata e fidelidade enquanto o oxigenado mantiver a carteira e a conta bancária cheia de dólares...

Aquele slogan explicito na expressão de vencedor bem TARADA e pervertida olhem como sou macho e por inerência mereço o poder, nada que não conheçamos a gestão top down geradora de arquétipos para explorarem os diferentes, por falta de decência...

Morreu-me esperança???????? Naaaaaaaa que ideia...

Enquanto a geringonça funcionar...

Rui C. Marques disse...

Francisco,vamos esperar que o espírito de fronteira ,tão determinante na construção dos EUA,possa,agora também e de modo positivo,estar presente.

Luís Lavoura disse...

embora, com Trump, seguramente vá ser um mundo muito mais difícil

Não vejo por quê.

Se Trump tiver, como dizem que tem, relações privilegiadas com Putin, então isso é bom, porque significará menos conflito.

Com Obama o mundo foi péssimo. Em grande parte por culpa da sua secretária de Estado, foram fabricadas guerras na Ucrânia, na Líbia e na Síria, guerras que nos prejudicaram muitíssimo. Com Trump será pior? Duvido. Tenho esperanças, pelo contrário, de que vá ser melhor.

Carlos disse...

Quando é que a classe política irá assumir as suas responsabilidades pelo momento que estamos a viver?

Os sinais já eram evidentes e não sei que mais será necessário para que percebam que as acções políticas actuais (e desde há algumas décadas) são prejudiciais.

Não podemos lamentar as crescentes abstenções nas eleições e a ignorância demonstrada na escolha dos candidatos a ocupar cargos de liderança. Em Democracia é a maioria que ganha e, como tal, é necessário dar condições para que o maior número de pessoas possível tenha acesso ao conhecimento e à cultura. Hoje, isto não está a acontecer e a classe política actual foi derrotada pelo seu próprio sistema de informação/formação de cidadãos. O candidato que ganhou as eleições nos EUA representa tudo aquilo que vem sendo ensinado à população através da televisão, imprensa, literatura, música e tudo o que de medíocre vem sendo dado como alimento intelectual.

Ganhou o candidato que passou a mensagem que as pessoas melhor compreendem. São ocas, vagas, simplistas? Sim, é verdade. Mas o resultado indica que a maioria não consegue compreender conceitos mais elaborados que isso. Querem que sejamos capazes de entender ideais mais completos e complexos? Então temos de ter as condições necessárias para isso e os políticos não estão a facilitá-las.

Anónimo disse...


Por que razão a esquerda "inteligente" e respeitadora de democracia gostava tanto de Hugo Chavez , e anda agora aflita porque,como diz que é democrata, não compreende a vitória de Trump que não é de esquerda ?


Francisco Seixas da Costa disse...

O Anónimo das 23.17 evitava dizer inverdades se colocasse a palavra "Chavez" no quadrado superior esquerdo deste blogue e lesse os posts antes escritos sobre o tema

Anónimo disse...

Eu, que não sou o anonimo das 23h17, segui a sua sugestão

e depois ter lido uns quantos posts fiquei cheio de vontade foi de ouvir mais picardias das cibeiras ibero-americanas
aquela do "juanito quando te presentares a una eleccion..." é muito boa

cumprimentos

Anónimo disse...

Escusa de defender a sua esquerda, compreendo, mas é aborrecido ver os "pobres" a votar à direita e os "ricos" votar à "esquerda, "linearmente" foi o que aconteceu.