domingo, 6 de novembro de 2016

"Não problema"

Perguntado sobre quais eram as três questões, tidas como prioritárias, para o seu país, no contexto europeu, aquele deputado estónio foi claro: "Rússia, Rússia e Rússia". Nenhuma surpresa. Se a pergunta tivesse sido formulada a um letão ou a um lituano a resposta seria seguramente a mesma. E imagino que um polaco não reagiria de forma muito diversa. 

O imenso receio da Rússia, a incerteza quanto à sustentação de uma atitude de firmeza da União Europeia face a Moscovo e a ideia de que a NATO (isto é, os Estados Unidos) permanece como o principal fator em que assenta a sua segurança marcam muito do pensamento dos países do Báltico nos dias que correm. A isso acresce um novo sinal de preocupação: os sinais de reforço militar russo em Kalininegrado (antigo Koningsberg), a península russa separada do resto do país, com fronteira com a Lituânia e com a Polónia.

Desde a recuperação da independência, a relação dos bálticos com Moscovo nunca viveu momentos fáceis. E o estatuto das minorias russas nestas três Repúblicas mantém-se com problemas (sendo hoje o caso letão talvez o mais preocupante). A liderança de Putin e o autoritarismo interno na Rússia - com o comportamento de Moscovo na Geórgia e na Ucrânia a funcionarem como elementos de prova - servem hoje de forte desculpa para a firmeza nacionalista nos três países. E para a recolha de apoios de outros parceiros europeus para solidariedade com essa linha política.

Um jovem intelectual estónio de origem russa resumiu bem o seu dilema: "Sou russo mas sou cidadão estónio, tenho uma lealdade total ao meu país mas quero ajudar a garantir que os russos que nele vivem têm um estatuto de cidadania plena e que o facto de o serem não os transforma em vítimas colaterais permanentes da tensão que a Estónia mantém com a Rússia. Os russos da Estónia são estónios, não são uma "quinta coluna" da Rússia."

Esta perspetiva, que parece ter toda a lógica, pressupõe a aceitação, pelos bálticos não russos, de que há um problema com as minorias russas, que é preciso reconhecer e ajudar a resolver. Mas não é exatamente assim: o mesmo deputado estónio que referi no início do texto, perguntado separadamente sobre o tema, respondeu-me, com uma frieza irritada: "esse é um não problema". 

Este tipo de questões, envolvendo origens que conflituam com o estatuto nacional onde as pessoas vivem, é de muito difícil perceção para alguém que vem de um país como o nosso, com fronteiras com quase nove séculos, uma identidade indiscutível e indiscutida, bem como uma um maioria étnica esmagadoramente coincidente com a sociedade nacional. Que percentagem de pessoas de outra origem étnica tem a sociedade portuguesa? - perguntava-me um outro estónio (não russo), que chegou a pertencer ao parlamento soviético. Respondi que eram cerca de 5%. "Os problemas só começam a aparecer depois dos 10%", replicou-me com total segurança.

Nunca conseguiremos entender por completo os problemas - e também os preconceitos - dos outros. Mas tentar refletir sobre eles é meio caminho andado para compreendermos o que é diferente e para ajudar reforçar a nossa cultura de tolerância. 

23 comentários:

Anónimo disse...

"mesmo deputado russo " => não será "estónio" ?

Anónimo disse...

"ajudar reforçar a nossa cultura de tolerância."?

E - porque não -, "Travar a tempo!"

Anónimo disse...

A mãe do Imperador da Áustria , Francisco José , dizia-lhe que ele todos os dias ao acordar devia lembrar- se que era antes de tudo um príncipe alemao. É assim o a referência de nacionalidade desses países que variaram de territórios ao longo da História . Como Portugal há muito poucos. A isso até o Neves chega...ora que está!
Fernando Neves

Francisco Seixas da Costa disse...

O meu agradecimento ao comentador das 13.40

Reaça disse...

Na geografia da 4ªa classe em Portugal (1948) estudava-se num pequeno capítulo que os principais países da Europa eram Alemanha, Inglaterra...e acabava em Estónia, Letónia e Lituania.

O Homem sabia tanto!

Quem lhe teria ensinado se era tão inculto, segundo dizem!

Joaquim de Freitas disse...

“A liderança de Putin e o autoritarismo interno na Rússia - com o comportamento de Moscovo na Geórgia e na Ucrânia “
Cada vez que leio este género de argumento, penso inevitavelmente no caso de Cuba. Por que é que os EUA aplicam um embargo a Cuba desde há meio século, ou mais? Não serão as mesmas razoes geo estratégicas que levam os Russos a manter ou procurar manter um tampão entre l’OTAN e a Rússia? Existe uma diferença qualquer entre os 150 km que separam a Florida de Cuba, e a fronteira russa na Ossétie do Sul ou na Crimeia?


Joaquim de Freitas disse...

« A isso acresce um novo sinal de preocupação: os sinais de reforço militar russo em Kalininegrado (antigo Koningsberg), escreve o Senhor Embaixador.“

Pois, quando os putchistas chilenos derrubaram Allende, a única força militar nas paragens era a esquadra americana que lançou âncora ao largo de Valparaiso e apoiou as comunicações entre as forças putchistas. Não havia ninguém para os incomodar.

Quando Reagan fez minar o porto de Corinto, e apoiou aqueles que incendiaram as recoltas,, no Nicarágua , para fazer cair os sandinistas, a mesma esquadra apoiou os movimentos. Custou 30 000 mortos!

Quando, na praça Maidan de Kiev, desfilaram durante a revolta pré-fabricada, numerosos políticos ocidentais, como o senador Mc Caïn, para apoiar os oponentes ao governo legal, todos acharam que eram bem.

Se amanhã, as minorias russas dos estados baltas se encontram na mesma situação que as minorias russas da Ucrânia, (não esquecer que os fascistas chegaram a proibir a língua russa!) o problema pode apresentar-se da mesma maneira, e a reacção russa não se deve excluir. Talvez Putine envie um deputado desfilar em Riga ou Kaunas, ou Talin… A NATO estando presente como em terras conquistadas, assistiremos ao incêndio…

Anónimo disse...

e que tal dar a quem esta ca ao fim de seis anos a nacionalidade portuguesa?

nao é uma boa ideia? a pessoas que não tel cultura portuguesa e que não se identificam como portugueses?

sei la, que venham de um pais que em a populacao duplicou nos ultimos 40 anos e que uma boa parte deles sejam muçulmanos de pendor rigorista ( e é isto o que me preocupa), como por exemplo o Bangladesh.

6 anos para ser cidadao portugues? para alguém que não tem nada de português

não é um bocadinho de menos?



Antonio Cristovao disse...

Ignorar a lingua russa, na zona leste da Ucrania é um acto "amistoso" a moda da CIA, que devemos denominar de ......

Luís Lavoura disse...

Uma correção: segundo a wikipedia, a Lituânia é etnicamente muito homogénea, praticamente todos os habitantes são lituanos, a minoria russa é insignificante. Os problemas com a minoria étnica russa só se colocam na Estónia e, sobretudo, na Letónia.

Luís Lavoura disse...

Eu acho que esses bálticos são parvos. Para quem está na situação deles, é óbvio que devem tentar ter as melhores relações possíveis com o grande vizinho. Tal e qual como a Finlândia faz com a Rússia. Tal e qual como nós fazemos com Espanha. Os bálticos têm a maior parte do seu comércio externo com a Rùssia, o que é uma excelente razão para terem boas relações com ela. E deveriam encarar a sua minoria étnica russa como uma ajuda nos seus negócios com a Rússia.
Em vez de fazerem o que seria razoável, eles adoptam a postura oposta - de permanente susto e suspeita em relação à Rússia. Em vez de procurarem melhorar a sua relação com ela, fazem todo o possível para a piorar.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

O militante anti-americano e anti-ocidente (Joaquim Freitas) no seu melhor...

Luís Lavoura disse...

Uma correção: Kaliningrad não é uma "península" da Rússia, mas sim um enclave.

Francisco Seixas da Costa disse...

Luis Lavoura: foi o que escrevi

Francisco Seixas da Costa disse...

Luis Lavoura. Tem razão no "enclave".

Anónimo disse...

Joaquim de Freitas tem uma óbvia obsessão anti-americana. É doentio. É triste. É fatigante.
No outro dia fiquei com a impressão de que, em termos laborais, ele teria de reportar a americanos. Talvez tenhamos aí uma possível explicação...

Joaquim de Freitas disse...

Ah, o Senhor Manuel do Edmundo filho parece ter abandonado o gosto do debate. Agora prefere catalogar os comentadores. O que levou outro comentador o anónimo das 14:11, a declarar que sou fatigante e triste, porque “ critico os Americanos”. Vai mesmo até pensar que foi porque foram meus patrões.

Não, engana-se redondamente. Trabalhei umas dezenas de anos com os Americanos, e apreciei as grandes qualidades do povo americano: trabalhador, eficaz, gosto do trabalho bem feito, e., inovador, dedicado à sua empresa, sem dúvida patriota ao extremo.

Mas porque são um grande povo, uma grande Nação, critico a qualidade dos seus dirigentes políticos. Este povo merecia melhor.
Conheço muito bem os EUA.

Sei bem porque é que os dirigentes procuram aterrorizar os seus cidadãos: é a melhor maneira de os dominar e levar para aventuras perigosas desde o fim da última guerra : Vietname, Nicarágua, Chile, Salvador, Cuba, Grenada, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Iémen, Somália, etc,etc.

Aos Europeus também fizeram crer que os tanks russos vão invadir Varsóvia, Atenas, Roma ou Lisboa. Em 2014 Obama prometeu 1 000 milhões de dólares para proteger a Europa, e fazer reflectir o urso russo.
Há uma expressão americana que diz que “quando um homem tem um martelo na mão, vê pregos por todo o lado”. Querem um exemplo? Para Obama, a EU e a Ucrânia são certamente dois pregos porque o único instrumento que os EUA utilizam desde há dezenas de anos na sua politica estrangeira é um martelo composto de dólares e de armas.

A política estrangeira americana na Europa é um fiasco total. Não somente o golpe de estado orquestrado na Ucrânia virou ao desastre, mas as últimas eleições na Europa provam claramente que os Europeus são cada vez mais anti EU e anti USA. Ah, não esqueço a “ajudazinha” de Obama a Cameron na véspera do voto no RU para o Brexit: Nunca se viu uma tal interferência tão vergonhosa. Como se os povos não tivessem o direito de escolher. Bem ou mal, aliás.

Na realidade, como a EU não é nada mais que o instrumento da dominação colonial dos EUA sobre a Europa, é talvez anti EU de escrever isto.
Mas o verdadeiro problema não é a Europa ou a Ucrânia, são os EUA. Esqueceram a divisa de Bismark: - A política é a arte do possível” Querem sim uma Europa controlada por eles, através da NATO, na fronteira da Rússia

Por estas e muitas outras razoes, detesto os políticos americanos. E a indecência das eleições de Florida, em 2000, privando o vencedor , Al Gore, da vitoria, e a indecência das de amanhã, em tudo o que elas comportam de golpes baixos, injurias, sexo, corrupção, falcatruas, vigarices e tudo o mais que infligem um golpe na essência mesmo da democracia, enoja-me tanto como aos 82% de americanos que se pronunciaram estes dias. Eles, eles têm vergonha da América. Se os Senhores comentadores deste respeitável blogue pensam o contrário, têm todo o direito.

A América vale muito mais que isto.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Sabe o Joaquim Freitas qual é o principal garante da segurança da Europa, ou seja da nossa segurança enquanto cidadãos europeus? A resposta é óbvia: EUA via NATO e o seu tão "amado" Israel. Alguma, ainda que pequena, gratidão devíamos ter por quem nos guarda as costas (embora por vezes nos meta a todos em sarilhos) e por quem nos ajudou a salvar do Nazismo. Isto não quer dizer que não se critique os EUA e Israel. Muitas vezes merecem as nossa críticas. Mas, ao contrário do que diz, não é isso que você faz. Como muito bem, e sinteticamente, observou o anónimo da 14:11 você "tem uma óbvia obsessão anti-americana. É doentio. É triste. É fatigante.".

O anónimo das 14:11 se não acertou na origem do seu manifesto anti-americanismo andou lá perto...

Só uma coisa me intriga: como é que o Joaquim Freitas, pessoa manifestamente radicalizada, anti-americano, anti-europeista, anti-ocidental, nutre uma evidente veneração pelo embaixador Seixas da Costa que é, ao contrário, uma personalidade ideologicamente moderada e equilibrada (que tem a preocupação de medir, com grande precisão, os prós e contras de cada situação ou de cada protagonista)? Só a psicologia mo poderia explicar.

Anónimo disse...

Ora, Mauel do Edmundo-Filho, porque o "Embaixador" permite ao Freitas sentir-se "alguém". O homem acha que, por ter campo livre para aqui disparatar, é uma espécie de "amigo" do diplomata, alguém a quem ele poderia dar um abraço caso a vítima tivesse o azar de se cruzar com ele na rua. O Freitas sente necessidade disto (do blog) para encher o ego. É triste, de facto.

E, depois, aquele ar marialva da fotografia... Minha nossa senhora!

Anónimo disse...

E a queda do governo?Foi pena os seus interlocutores não o terem avisado.Desconfie dessa gente!...

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Manuel do Edmundo-Filho : O seu comentário merece uma resposta completa. Antes de mais, comento neste “blogue” porque tenho tempo livre e me apetece. Só o Senhor Embaixador pode impedir-me de o fazer. Aprecio imenso o que ele escreve, mesmo se não estou sempre de acordo com certas das suas “nuances”. “Nuances” que utiliza perfeitamente. Um Embaixador tem sempre uma linguagem “afinada” para todas as circunstâncias… Eu não tenho as mesmas preocupações. Mas do grande respeito que tenho pelo Embaixador, à “veneração” há uma distância intransponível. Posso admirar quem me ultrapassa mas nunca venerar.

O Senhor Embaixador é um homem de esquerda. Eu também. Na minha juventude portuguesa (até aos vinte e dois anos, após o serviço militar) talvez tivesse estado mais à esquerda que ele. Eu fui aquilo que por aqui se chama um “compagnon de route” do único partido político português que combatia o fascismo de Salazar: O partido comunista. Nunca fui filiado em nenhum partido, nem na época em que este era o único que pagava em vidas humanas e grandes sacrifícios a coragem posta na luta.

Em França, continuei a ser um “compagnon de route”. Cheguei cá quando a França era dirigida por um grande homem da direita, que incluiu os comunistas no seu governo: De Gaulle. Foi neste governo que adquiri o direito de votar, que no meu país nunca tive. Foi graças a este governo que os franceses obtiveram as principais vantagens sociais que, ainda hoje fazem a diferença entre a França e os outros países do sistema capitalista. Vantagens que a direita e mesmo o partido socialista hoje procura reduzir, em nome da competitividade. Só faltando saber até onde se deve reduzir o Estado Providência ganho no fim da última guerra, para ser competitivo com o Bangladesh ou a China!

Tive um grande sucesso profissional que me levou à cabeça duma empresa de 300 colaboradores no “high tech”. Lidei com os sindicatos todos os meses como manda a Constituição e nunca tive dificuldades no diálogo, mesmo quando havia greves nacionais. Faz parte do país que escolhi para viver. Quando diz que sou radical, creio que o Senhor não sabe o que esse termo significa na vida de todos os dias numa empresa dum país livre.

Agora a “obsessão” …como escreve! Acontece que conheço muito bem os EUA. Passei meses e meses nas suas fábricas, ao contacto do povo trabalhador e da classe média. Observei e comparei. Tenho uma grande admiração por este povo trabalhador. Qualidades imensas de trabalho e dedicação à empresa. E patriotas acima de tudo.
Mas também podem ser radicais…

Não tenho a mesma admiração por aqueles que os governam. Mas os Americanos também. Que melhor lição podiam eles dar ao “establishment” e à classe politica enlameada no dinheiro, a corrupção e nos escândalos sexuais, que votar pelo mais populista dos candidatos ontem. Os jovens e uma grande parte da classe média estava cheia destes políticos que de guerra em guerra passeiam a América desde o fim da última guerra mundial numa guerra sem fim…
E na realidade, estas classes sociais esquecidas pelo sistema, constataram que a boa saúde aparente da economia americana, onde o desemprego quase desapareceu sob Obama, beneficiou só o 1% que detém mais de metade da riqueza nacional. Problema de redistribuição da riqueza, que Sanders, o “socialista” tentou explicar e convencer, e que de certo modo é igualmente a doença que apoquenta o nosso Ocidente europeu: distribuição injusta da riqueza.

Mas o que me sidera, Senhor Manuel do Edmundo, é que eles elegeram o candidato multimilionário, racista e xenófobo, que anunciou a intenção de expulsar os emigrantes clandestinos, ele, chefe duma empresa que emprega milhares destes mesmos emigrantes sem documentos, nas suas empresas da construção civil…

Joaquim de Freitas disse...

Resposta ao Senhor Manuel do Edmundo-Filho




Trump vai pouco a pouco entrar no sistema. As suas posições extremistas vão ser endireitadas pelas oligarquias financeiras e militares. O tema será sempre: América first”. Ele será talvez mais radical nesta procura da grande América que prometeu.

Quanto à protecção dos EUA à Europa, ela será o que os interesses dos EUA ditarão. Como foi sempre. O resto é puro sentimentalismo. Porque se consideramos que a França defende os valores do Ocidente no Sahel, no Mali e no Tchad, porque é que a NATO não vem ajudar? E o resto da Europa, aliás? Mas para destruir a Líbia, os EUA (a NATO) veio rapidamente.

Quando escreve “anti-americano, anti-europeista, anti-ocidental,”, sorri longamente! Porque acha que espionar os dirigentes europeus é pró-europa? Procurar impor um tratado à Europa, que ninguém quer, é pró-europa? Interferir no voto dos britânicos aquando do Brexit, era pró-europa?
Apoiar a candidatura da Arábia Saudita, os cortadores de cabeças, para o Conselho dos Direitos do Homem, contra um país europeu, é pró-Ocidente? Em nome de quais valores?
*
E enfim, como perdoar aos dirigentes americanos a imensa tragédia dos migrantes que assolam a Europa? Que fazem eles para nos ajudar a reparar o caos que criaram no Médio Oriente?

Ajudaram, com os Russos, os Europeus a combater o nazismo. Muito verdade. Mas sabe qual era a preocupação imensa dos Americanos no fim da guerra? Era esta: Como é que vamos evitar de voltar aos tempos da recessão de 1929, agora que a guerra acabou?

Pensar e reflectir no porquê desta preocupação.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Joaquim de Freitas, lamento só hoje ter lido o seu comentário. Provavelmente já não lerá esta minha resposta.

Em primeiro lugar, congratulo-me pelo tom moderado com que me obsequiou. Pergunto-me por que não usa sempre esta moderação nos seus comentários mesmo quando ataca os EUA? Algumas vezes, não é tanto a justeza ou não das suas críticas que "irritam" muitos dos leitores deste blogue. É a utilização sistemática de slogans que hoje em dia já não fazem muito sentido, fazendo lembrar a linguagem dos grupúsculos "ml(s)", marxistas-leninistas, que pululavam por Portugal logo a seguir ao 25 de Abril

Eu, meu caro, fui mais que "um “compagnon de route” do único partido político português que combatia o fascismo de Salazar". Eu fui, durante, creio, 4 anos, seu militante (já após o 25 de Abril). Talvez, por isso, eu seja hoje anti-comunista. Depressa percebi (não tão depressa quanto eu hoje desejva) que esse partido lutara, inegavelmente, contra a ditadura salazarista, mas nunca lutara pela democracia da qual se aproveita e à qual se opõe chamando-lhe burguesa. Se oportunidade tivesse, substituiria-a pela ditadura do centralismo "democrático". Talvez por isso, tenha engolido como se fosse um sapo actual "geringonça". E começo a estar um pouco cansado dela...

Se os EUA em toda a sua estratégia colocam em primeiro lugar os seus interesses, fazem-no bem. É assim que fazem a França (quer seja a do seu General De Gaulle ou a do Chirac), a Alemanha (quer seja a Kohl ou a de Merckel), a Gra-Bretanha (quer seja a de Blair ou a de Tacher), a China, o Irão, etc. É assim que fazem os Estados. Repete muitas vezes o nosso Embaixador que os Estados "não têm amigos, têm interesses". Os Estados sérios, acrescento eu, que não é o caso do nosso. Contra os seus interesses votou a favor do alargamento desenfreado da União Europeia. Está a nossa economia a pagar, bem caro, por isso. Sendo um Estado pouco liberal, vota sempre a favor de qualquer liberaliação (se for de costumes e dos animais é a correr, tem um receio provinciano de parecer retrógrado...), de qualquer inclusão... e de toda e qualquer exclusão de fronteiras. Agora, pelos vistos, quer acabar com as fronteiras entre os estados da CPLP!!!

Mas o Joaquim de Freitas estava a pensar no Plano Marshall quando se referia aos interesses dos EUA em ajudar a Europa na Segunda Guerra Mundial. Com certeza que esses interesses estavam presentes. Mas deixe-me dizer-lhe o seguinte:
1) Esses interesses custaram aos EUA 418.500 mortos (sabe quanto é que custaram à França, libertada pelos Americanos? - 600.000)
2) Teria a Europa logrado libertar-se do nazismo, se os EUA não têm intervindo na prossecução dos seus meros "interesses"?
3) Teria a Europa recuperado tão rapidamente, 10/15 anos, não fosse o "interesseiro" Plano Marshall?
4) Que seria hoje desta nossa Europa não fora os EUA guiarem-se, nas suas palavras, apenas pelos seus próprios interesses)?

"Pensar e reflectir" não faz mal a ninguém.