segunda-feira, 20 de julho de 2015

Pousada


Há uns meses, fui convidado por um amigo estrangeiro a jantar na sua casa na rua António Maria Cardoso, em Lisboa. Sabia que era um apartamento novo e, durante alguns dias, andei um pouco angustiado, não fosse dar-se o caso de ser no edifício onde estivera instalada a PIDE. Não era, era em frente.

Não faço parte dos muitos cidadãos que foram perseguidos pela polícia política da ditadura, pelo que a minha relação com aquele sinistro edifício é apenas emocional. Só por uma vez lá entrei, como já aqui contei. Nem por isso, porém, um jantar por ali deixaria de ser incómodo para mim.

Hoje, estive na nova Pousada que o grupo Pestana instalou no edifício que, até há anos, foi o Ministério da Administração Interna, na rua do Arsenal, esquina com a rua do Ouro. Mesmo em frente, em 1908, o rei dom Carlos e o príncipe Luís Filipe morreram sob as balas de Alfredo Costa e Manuel Buíça, que também dali saíriam cadáveres. 

O edifício, antes de ser do MAI, foi do Ministério do Interior da ditadura, por onde passou, durante décadas, a tutela da repressão e do arbítrio. Ao passear no seu interior, não tive a mesma sensação que as salas do que foi da PIDE me provocariam. Mas nem por isso deixei de pensar que por ali circularam, em busca de instruções para as suas patifarias, Silva Pais ou Barbieri Cardoso, recebidos por Santos Júnior ou Gonçalves Rapazote. 

Ter muita memória, o que é diferente de ter boa memória, não deixa de ser um peso.

10 comentários:

Anónimo disse...

Contra a corrente, não gosto de ver o Terreiro do Paço transformado em albergue/cervejaria e outros que tais; o que não faltam são zonas de Lisboa a reabilitar onde se poderiam instalar esses comércios.
Não por necessidade de exibição de poder ou centralismo; por uma questão de dignidade das instituições e do país, pela História e simbolismo que comportam, existem lugares que deviam ser preservados.

David Caldeira

Anónimo disse...

Já imaginou o que irão dizer daqui a muitos anos milhões de Portugueses se um dia os convidarem para algum jantar no Largo do rato ou na são caetano á Lapa, sabendo que ali eram as sedes de duas organizações sinistras que tem desgraçado Portugal e milhões de Portugueses, muitos deles que tem sido obrigados a emigrar para não viverem no insulto e humilhação que essas duas organizações sinistras lhes tem querido proporcionar. Já pensou nisso? Atenção que não sou "facho" sou da Esquerda(mas não da neoliberal e pateta).

Aldema Menini Mckinney disse...



"Ter muita memória, o que é diferente de ter boa memória, não deixa de ser um peso."

Gostei da afirmação acima. Descrição exata do que me ocorre.
Boa semana.Saúde ,paz e muitos textos para seus letores.

Aldema ( www.correndomundo.blogspot.com )

Anónimo disse...

Boas lembranças do tempo em que o Marcelo Caetano tinha um Rapazote no Interior...
eheheheh

Reaça disse...

Tempos de Marcelo, já não era bem uma dita-dura, era antes uma dita-mole.

Mas que ainda foram tempos com alguma dignidade não restam dúvvidas.

Marcelo já tinha aberto as pernas, já deu reforma aos velhos agrários.

Anónimo disse...

Ele são os traumas sérios.Uns teem uns, outros teem outros. Enfim tem de se aprender a fazer os lutos da vida. Mas...nem sempre é fácil. O que se não quer são lutos patológicos.

Anónimo disse...

A maçonaria......respeitinho !!!!!!!

Anónimo disse...

O Anónimo das 12.55 achava-se melhor instalado num hotel da Av. da Liberdade...
À esquerda, quem desce...

Anónimo disse...

O Sr. Embaixador é um complexado! Vai morrer assim? Os americanos, em democracia, fizeram bem mais atrocidades para com os comunistas naquela época. E estes, se tivessem tomado o poder por cá, desconfio que as coisas não teriam sido melhores. Mesmo assim, custa-me a acreditar que um Bernardino Soares tivesse atitudes medíocres, mas ele não é daquele tempo!
(nota: quando estive em Dachau não me senti nada bem!)
O Duriense

Anónimo disse...

De visita está claro!
O Duriense