quarta-feira, 22 de julho de 2015

O núcleo

Há na Europa um erro muito comum de leitura: pensar que o projeto comunitário tem uma determinada matriz e que a sua evolução mais não é do que uma simples derivada no tempo dessa estrutura original. Quem assim perspetiva a Europa não entende que todos os alargamentos mudaram qualitativa e diferenciadamente a União, que o fim dos desafios da Guerra Fria alterou os termos de referência do projeto, que a própria densidade progressiva das políticas comunitárias introduziu uma dinâmica que hoje só recorre ao Tratado de Roma por mera afetividade histórica.
 
Não é a primeira vez, nem será a última, que surge no seio da União um tropismo nostálgico de regresso aos “fundadores”. Recordo dessa “ameaça” ter sido colocada nos anos 90, no auge de negociações institucionais. É uma confissão de desespero perante o curso de um projeto que escapa ao controlo de quem se habituou a não ver contestado o seu poder, de quem vive convencido de que a legitimidade do nome “Europa” pertence a uns predestinados da História, que benevolamente se dispuseram a abrir o seu modelo a outros, numa generosidade a que todos devemos estar gratos.
 
O “núcleo duro” da Europa, por muito que alguns não gostem, pertence hoje a todos quantos, com voluntarismo e sacrifício, jogaram o seu destino e vontade no projeto comum. Não devemos rigorosamente a ninguém a nossa posição europeia, “pagamos” os fundos comunitários com a abertura económica das nossas fronteiras e com a presença de empresas de outros Estados que deles livremente beneficiam e os repatriam, com a estabilidade política e social que induzimos no continente e que ajudamos a projetar num mundo que conhecemos como outros não conhecem, contribuimos hoje com a mão-de-obra qualificada que “cedemos” à Europa desenvolvida, sem que ela tivesse de custear a sua formação.
 
Estamos hoje na União Europeia e no euro por mérito próprio e importa recordar que nunca estivemos, nem estamos, sós no incumprimento dos objetivos macroeconómicos dos tratados que assinamos, mesmo antes da crise. A autoridade dos “fundadores” seria mais evidente se todos eles cumprissem rigorosamente esses mesmos tratados – e nenhum o faz, sabiam? As verdadeiras lideranças afirmam-se pelo exemplo, pela prática da solidariedade, pela generosidade perante as grandes dificuldades, não pela arrogância e jactância de deslocados discursos de “grandeur”.

(Texto que hoje publiquei a convite da Acção Socialista on-line)

7 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


bem me parecia que quando havia fundos, muitas empresas de fora se colocavam "a jeito",

e que faz lembrar aquela imagem do entusiasmo das raparigas solteiras na tradição de apanhar o bouquet da noiva na festa do casamento
(isto é o meu lado romântico!)

Anónimo disse...

O projeto Europeu, como o de qualquer país, terá sucesso se a solidariedade e a generosidade forem acompanhadas com o comprometimento na exigência e no rigor por todos. Seja qual for o “catálogo” ideológico!
Ora, pela credibilidade dos dirigentes e o alastramento da corrupção, estamos muito afastados destas condições.
Isto já foi inventado (ou sempre existiu) há muito e não muda! É semelhante ao que era costume dizer, que não há melhor processo educativo do que ter pão numa mão e pau na outra!

Anónimo disse...

Senhor Embaixador e caro conterrâneo hoje gostei desta sua visão face a Europa. Efetivamente alguns Pensam ser donos do destino de tudo e de todos.

Carlos Botelho

Anónimo disse...

Sr. Embaixador, estas ideias parecem estupidas.

Mas não estará Hollande a antecipar o que ai vem?

Se esta politica europeia continuar, a desintegração é cada vais mais provável. Isto não é sustentável durante muito mais tempo. Ou muda a politica europeia ou vai mudar a europa. O pior dos caminhos já começou a ser percorrido.

Abraços

Anónimo disse...

Post de elevadíssima qualidade e a merecer unicamente um reparo: o de que a Europa nào custeou a mão de obra qualificada que lhe cedemos. Esta perda de capital humano é hoje dificilmente controlável num quadro de globalizaçào, de abertura de fronteiras e de apelos, depois despudoradamente desmentidos pelo Primeiro-Ministro a que os portugueses vão lá p'ra fora lutar per'a vida. Mas o Fundo Social Europeu contribuiu e bem para a elevação do nível de qualificaçào dos portugueses.

Anónimo disse...

Leitura recomendada:

"O Ministério Público está a ver, um a um, os contratos ganhos em Portugal pelas brasileiras Odebrecht e Andrade Gutierrez, durante a governação de José Sócrates, diz o Correio da Manhã."

patricio branco disse...

sem duvida que há um núcleo duro, hoje nostálgico das origens fundadoras. para que começaram então a expandir o grupo? agora aguentem!
talvez uma europa com 2 ou 3 grupos não fosse má ideia, cee, efta, comecon.