terça-feira, 14 de abril de 2015

Quatro anos


Expliquei ao “Les Echos” que a embaixada não fazia qualquer declaração. Não obstante a insistência da “BFM-TV”, reforçada com uma “cunha” de um jornalista português, disse estar indisponível para entrar em direto na sua edição da noite, como fizera, por duas vezes, em semanas anteriores. Repeti o mesmo à “France 24”, que me queria na sua emissão em inglês. Não sabia (ainda) o que dizer. Era o dia seguinte ao pedido de ajuda de Portugal. Foi há quatro anos.

É talvez cedo para se saber como os vários embaixadores portugueses, nas principais capitais europeias, viveram esses meses. Cada um falará por si. No meu caso, em Paris, acompanhava, dia após dia, as diligências que as nossas autoridades desenvolviam para tentar escapar ao pedido de ajuda externa e as mensagens que, nesse âmbito, eram por nós passadas às congéneres francesas, com o objetivo de garantir um apoio europeu (e, essencialmente, alemão) para a nossa posição oficial. Parte substancial dos contactos passava-se entre os gabinetes dos chefes de governo. A nós, cabia-nos explicar a racionalidade das nossas posições e enquadrar, sob a matriz da (real) normalidade democrática nacional, a fortíssima tensão política que se vivia em Lisboa, do PEC IV aos dissídios partidários em crescendo.

Com o passar dos dias, sentia, cada vez mais, que as coisas se aceleravam. (Tenho pena de não ter guardado quaisquer notas). Era o tempo das movimentações das agências de notação, o crescente “downgrading” português, o disparar do “spread” dos nossos “bonds” a 10 anos, que eu acompanhava, todas as manhãs, ao abrir o “Financial Times”. Passei então a ser chamado a falar nas rádios e, um pouco menos, em televisões. Nunca antes, como embaixador em Paris, me fora dada tanta “atenção”. Só que não era pelas melhores razões. Sem a menor dificuldade, publiquei alguns artigos na imprensa. A minha “narrativa” era quase sempre a mesma: defesa dos índices favoráveis conhecidos, denúncia do exagero das agências de “rating”, afirmação de que era possível dispensar a ajuda externa. Como dizem os americanos, “my country, right or wrong”. 
  
A partir de certa altura, Lisboa, como fonte de instruções, foi desaparecendo. Falava com colegas portugueses noutros postos, mas todos comungavam do mesmo desconhecimento. Para além das declarações públicas, nada mais transpirava. Os escassos responsáveis políticos portugueses com quem consegui contactar também já não ajudavam. Por aqueles dias do fim, senti uma inédita solidão e, essencialmente, a angústia de não saber o que fazer (ou se devia fazer algo) como representante de Portugal junto de um dos mais importantes países do mundo. Recordarei para sempre uma conversa telefónica com um alto responsável do Eliseu, que teve a sensibilidade de não me inquirir para além daquilo que ele sabia que eu podia dizer (e saber) e que me deixou palavras de discreto conforto, sem, contudo, as fazer soar de forma paternalista.

Depois, a toalha caiu no ring. O discurso mudou. A vida de um diplomata é assim.

(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")

4 comentários:

patricio branco disse...

assim é a vida, situações difíceis e embaraçosas, nada sei directamente...

Anónimo disse...

O caminho para a pré-bancarrota começou a desenhar-se em 2002, mas o governo da altura "chutou para o lado", ou melhor " para a frente", agravado no consulado do Sr.Pinto de Sousa, como sabe.
Nunca a esquerda tradicionalista nunca seguirá a máxima que qualquer cidadão normal faz em sua casa, simples contas domésticas de deve / haver .

No money no clowns!


Anónimo disse...

"a fortíssima tensão política que se vivia em Lisboa" - será que aqui, por parte dos políticos, haveria em algum caso, fosse de que quadrante fosse, alguma preocupação real com o bem estar das populações que representam?

Duvido...tanto, tanto, tanto.

Anónimo disse...

Aplique-se a Carrilho o princípio da reciprocidade e, mesmo presumida a sua inocência, no caso de vir a ser condenado, promova-se a sua expulsão do PS, já que o bom senso não é p'ráqui chamado.