quinta-feira, 16 de abril de 2015

Memorabilia diplomatica (XXVI) - A pá


Naquela Luanda dos anos 80, o Grill do Hotel Trópico era "o" local para almoçar ou jantar em Luanda. Com poucos lugares, as disputadas reservas eram difíceis e a comida pretendia-se ligeiramente sofisticada. Uns andares acima, no restaurante normal do hotel, a realidade era um pouco diferente: dias havia em que, ao almoço, era Arroz com peixe frito e, para variar, ao jantar, era Peixe frito com arroz. Claro que podia ir-se ao Hotel Presidente, mas era muito pior e muitíssimo mais caro. No Hotel Panorama, a oferta era ainda mais triste e errática. Com conhecimentos, podia reservar-se uma mesa para almoço na Escola Hoteleira ou, nos fins-de-semana, no "Pezinhos na Água", onde desisti de ir depois de uma carne de porco a saber a peixe - os porcos da Ilha de Luanda era alimentados com os restos da pesca... Às vezes, sabe-lá por que sortes, surgia um local para comer aberto em sítios improváveis, quase sempre de existência episódica, por mor da incontrolável instabilidade dos fornecimentos. Estava longe de ser fácil a vida da escassíssima restauração luandense, nesses dias de guerra civil, recolher obrigatório e fortes privações para a generalidade da população.

Como disse, o Grill do Trópico era o lugar "trendy" da cidade. Como hóspede do hotel (onde vivi mais de quatro meses), eu tivera a sorte de conseguir por lá uma "reserva permanente", circunstância invejada por meia Luanda. Verdade seja que repetir, cada dois dias, o "émincé de vitela", regado a "Corredoura", seguido inevitavelmente pelo "Bolo Trópico", não configurava o melhor dos cenários culinários. Mas, sendo as opções o que eram, não podia queixar-me.

Pelo Grill passava o "tout Luanda", embora fosse evidente que a classe político-militar dominante não era muito dada a misturar-se com a "fauna" do Trópico, feita de empresários de passagem, dos escassos diplomatas ocidentais em posto, dos tripulantes da TAP (que, pouco depois, mudaram de pouso) e alguns privilegiados com boas "cunhas" junto da Angotel, a estrutura estatal hoteleira dirigida pelo Zé Mário, um simpático jovem quadro angolano, casado com a louríssima "Boneca" (que será feito deles?). Olhando retrospetivamente, só posso agradecer a simpatia de quem, por esse Grill do Trópico - a começar pelo chefe Smith e a acabar no magnífico Sambo - nos ajudou a atravessar esses tempos complicados de uma cidade em penúria de recursos e em guerra.

Um dia, cruzei-me entre as mesas do Grill com uma figura que nos entrava em casa todas as noites, um locutor da única estação de televisão, a TPA - Televisão Popular de Angola. Era um homem novo, mulato, uma daquelas vozes da rádio que mantinham os tiques de uma certa locução "à antiga", que em Portugal tinha praticamente desaparecido com o 25 de abril. Sem sotaque local, tinha uma pronúncia magnífica e até posso imaginar que, num ambiente marcado por uma certa "angolanização", a sua vida não devesse ser fácil. Através de um amigo comum, tínhamos criado uma relação superficial mas simpática, que renovávamos sempre que nos encontrávamos, quase sempre em jantares em casa de amigos.

Naquele dia, à sua entrada e à passagem pela mesa do Grill em que eu almoçava, deixou cair um "Temos de falar!". Quase tinha esquecido a frase quando, ao final da nossa refeição, o vi levantar-se para vir ter comigo. Em voz baixa, por razões óbvias, numa Luanda de grandes carências, ouvi-o dizer: "Tenho lá em casa uma excelente pá de vitela! Quando é que lhe dá jeito?"

Várias vezes tínhamos combinado almoçar ou jantar, mas tal nunca se tinha proporcionado. Os dias de Luanda, para quem, como eu, estava "solteiro" na cidade, eram feitos de um permanente saltitar entre jantaradas e sessões de petiscos, nessa vida diplomática nos trópicos que me fez "dar o fígado pela pátria". Por isso, mentalmente, libertei uma data ou duas na minha agenda e disse-lhas, como alternativas para o ágape. Por isso, estranhei muito a reação: "Prefere de manhã ou de tarde?"

"De manhã ou de tarde?" Que raio de coisa! A minha cara deve ter traduzido essa perplexidade, mas a vedeta televisiva não deve ter notado, pelo que acrescentou: "Como é para si, faço-lhe um preço muito bom: duas garrafas de whisky. Novo, claro".

Como dizem os brasileiros, nesse instante "caí na real". O homem não me estava a convidar para jantar em sua casa, estava a oferecer-se para me vender uma peça de carne, numa Luanda onde, à época, era praticamente impossível, por meios legais, conseguir tal produto. Como não tinha ainda a minha casa montada, e para grande desilusão do homem, não aceitei o "deal". Que tal seria a carne?

7 comentários:

Anónimo disse...

quem dera ainda hoje a muitos portugueses falar o portugues que falam alguns jornalistas angolanos...
(e quem dera tambem quem a alguns politicos portugueses conseguir as noticias enviesadas da TPA...)

cumprimentos

Anónimo disse...

"Bons tempos" em que a pá contra os portugueses de Angola era utilizada pelo almirante vermelho !

Anónimo disse...

As suas memórias diplomáticas são deliciosas. Não quererá escrever um livro com elas?

Paulo Santos

Retornado disse...

Ai aquele Amazonas, Baleizão, Bar América, Hotel Universo, Polo Norte, Petisqueira, Suiças (2), Vilela, Tongo, Portugália, Académica, Docélia, Restinga, Nogueira da Ilha, Versalhes, Paris...em Luanda.

Portugalredecouvertes disse...


Boa noite

Gostei do post mas também gosto muito do

"Programa Leite de Vacas Felizes"
dos Açores!

Angela

Bartolomeu disse...

Nos "80's" não faço ideia, mas ao câmbio atual, 2 garrafas de whisk e ainda por cima novo, não deixam prever que essa "carne" tivesse ponta de qualidade. Vai ver que o tipo era um inimigo da diplomacia e a oferta não era mais que uma tentativa de homicidio... por envenenamento...
Será que ao menos a "carne" era fornecida com banhinho tomado?

Anónimo disse...

A carne é fraca, Senhor Embaixador. Sempre foi. Sempre será.
a) Porfirio Rubirosa