segunda-feira, 20 de abril de 2015

Memorabilia diplomatica (XXVII) - Um charuto e um cognac


Era um diplomata bastante atípico, como algo atípica tinha sido a sua carreira. Solteiro e "loner" por opção, o 25 de abril apanhou-o no estrangeiro e o facto de se ter mantido sempre em postos distantes da Europa, bem como a circunstância de viver desligado da escassa família que tinha em Portugal, não ajudava a que conhecesse bem a especificidade dos conflitos políticos que marcaram os nossos agitados anos 70 e se refletiam sobre o ambiente nacional.

Um dia, Mário Soares chegou ao país em que ele estava estava colocado como embaixador. Ia na sua qualidade de líder do PS, que estava então na oposição, para uma reunião da Internacional Socialista, acompanhado de Maria Barroso.

O embaixador tinha ido buscá-lo ao aeroporto. No carro, a caminho do hotel, para fazer conversa, Soares disse algumas generalidades sobre a situação política em Portugal. Corria o ano de 1980. Sá Carneiro era primeiro-ministro do governo da Aliança Democrática (PSD/CDS), Ramalho Eanes presidente da República. O embaixador, contudo, não parecia muito interessado na situação interna de Portugal, mas lá foi deixando uns comentários esparsos, sempre vagos e de circunstância. Preenchia, com esse comportamento, o "cliché" e a caricatura de uma certa carreira que então havia.

A certo passo da conversa, Soares, tendo-se dado conta de que o representante diplomático português estava muito distante da complexa situação interna, deixou uma nota de tonalidade pedagógica.

- Sabe, senhor embaixador? Vivemos em Portugal tempos muito difíceis. As relações entre o presidente da República e o primeiro-ministro são hoje muito tensas. Eu próprio, como saberá, tenho uma relação complexa com o general Ramalho Eanes. E, com o dr. Sá Carneiro, as coisas também não estão brilhantes.

É então que o embaixador, parecendo sair de outra galáxia, avançou com esta:

- Bom, nós sabemos que as coisas, na prática, não serão exatamente assim. Mas percebe-se que a ideia de que esses conflitos existem é essencial para animar a vida democrática, para alimentar os jornais e os comentadores. Mas estou em crer que os senhores, não obstante as divergências que os possam separar pontualmente aqui ou ali, mantêm, como em muitas democracias modernas, um espaço para um entendimento de fundo e para um bom relacionamento pessoal. Por isso, não me admiraria nada se, por vezes, ao final do dia, o dr. Mário Soares, o dr. Sá Carneiro e o general Eanes, se encontrassem para um charuto, à volta de um cognac e de uma boa conversa. E também entendo que o não queiram revelar. Estão no seu pleno direito.

Mário Soares deu um salto no banco do carro!

- Um charuto e um cognac?! Ó senhor embaixador. Eu nunca me encontraria com o dr. Sá Carneiro às escondidas! E muito menos com o general Eanes. Mas o senhor embaixador faz ideia do que é Portugal nos dias de hoje?

O embaixador balbuciou alguma coisa, Soares bufava, Maria Barroso abafava uma elegante e discreta risada  e um silêncio pesado caiu sobre o carro. A despedida entre Mário Soares e o embaixador, à porta do hotel, não foi das mais calorosas, "to say the least".

7 comentários:

Luis Galvao disse...

"Loner" em vex de "looner", apenas para corrigir gralha

Bartolomeu disse...

No entanto, uma generalidade que no fundo possuia alguma verdade. No caso de Soares que conheci perfeitamente, não se aplicava, e como também conheço Eanes pessoalmente, acredito que não partilhasse com estes três personagens a mesa do cognac. Sá Carneiro, por suposição também não. No entanto, as modernas democracias, como muito bem assinalou o embaixador, funcionam não só assim, como muito pior, quando se axam à volta do cognac e com o xaruto nos beiços...

Luís Lavoura disse...

Quer dizer: Mário Soares deslocou-se ao estrangeiro ao serviço estritamente do seu partido e o embaixador foi buscá-lo, no seu carro de serviço, pago pelo Estado?

Isto nãp é uma violação grosseira do princípio da igualdade? Então Mário Soares faz parte de uma "lista VIP" de portugueses que têm direito a que os embaixadores de Portugal os transportem nos seus carros de Estado?

Joaquim de Freitas disse...

Não tem nada a ver, mas talvez que se ainda existissem lideres políticos em Portugal como os desse tempo, encontrariam entre o charuto e o cognac alguns momentos para reflectir no problema de todos nós, europeus, das centenas de pobres humanos afogados no Mediterrâneo sem que a primeira potência económica do mundo pudesse fazer algo para evitar o drama ou controlar o drama. E talvez o embaixador da época, refractário ou "ausente" da actualidade , até estivesse ao corrente do drama .

Os tempos mudaram, os lideres estão provavelmente em férias em Boliqueime, os políticos não falam de nada sem a autorização de Berlim, e mesmo Berlim vai dizer-se escandalizada mas não fará nada para que a situação mude.

A não ser que, a Europa , tenha definido nos bastidores secretos de Bruxelas que 1 000 mortos numa semana não é suficiente para desencorajar, uma vez para sempre, as vitimas dos antigos países colonizadores e dos membros da NATO que destruíram os seus Estados (penso na Líbia, sobretudo), a recorrer aos passadores criminosos e aos seus barcos homicidas, para atingir as costas do Eldorado.

Se eu fosse Embaixador num país qualquer do planeta, teria vergonha de apresentar as minhas credenciais . A Europa , capaz de destruir um Estado nalgumas semanas, demonstra-se incapaz de socorrer as suas vitimas .

Anónimo disse...

Bartolomeu, aquele embaixador parecia ser, precisamente, especialista em generalidades que no fundo possuem alguma verdade.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Luis Lavoura. Tal como em todos os países democráticos, os líderes e os representantes eleitos dos vários partidos são objeto da atenção e acompanhamento possível por parte das embaixadas e consulados, dependendo apenas das disponibilidades existentes. As estruturas diplomáticas representam o Estado e não apenas os governos de turno, pelo que lhes compete procurar apoiar todas as dimensões desse mesmo Estado, nomeadamente as oposições. E, tratando-se de antigos primeiros-ministros ou presidentes da República(ou presidentes de outros órgãos, nomeadamente judiciais, militares ou regionais), naturalmente que os próprios embaixadores são muitas vezes envolvidos. Repito: é assim que funciona a diplomacia democrática. Em ditadura, deve ser diferente, imagino.

Anónimo disse...

O embaixador era um visionário!
(senão veja-se o que M. Pinho pede, hoje, ao NB)