terça-feira, 28 de abril de 2015

Memorabilia diplomatica (XXIX) - "Godfather-in-law"


97,7% dos votos é um resultado interessante. Foi quanto o presidente Nazarbayev obteve nas eleições presidenciais no Casaquistão neste domingo, permitindo-lhe prolongar-se até 2020 na chefia do Estado, que detém desde 1989. De assinalar a humildade que demonstrou, ao dizer que seria "antidemocrático" estar a apresentar um resultado menos esmagador, apenas para agradar às democracias ocidentais. Tem razão: seria um insulto à vontade popular tão inequívoca que o elegeu autorizar uma "retocagem" naquela cifra. E até me interrogo: como seria possível fazê-lo, num país que aplica (creio que é o único, mas não estou seguro) um original sistema de voto eletrónico criado pela Bielorrússia, outro bastião da democracia, quantas vezes também tão injustiçado pela comunidade internacional?

Há já algum tempo, estive uns dias no Casaquistão. Essa deslocação foi acompanhada pelo embaixador casaque Rakhat Aliyev, o qual, curiosamente, era nem mais nem menos do que o genro do presidente (neste tipo de países, o acesso à carreira diplomática tem caminhos sobre os quais é ocioso elaborar). Recordo que, entre a capital tradicional, Almati, e a nova capital, a "Brasília" local, Astana, viajámos no luxuosíssimo avião privado da família presidencial do Casaquistão, onde a (então) mulher do meu colega, filha de Nazarbayev, era uma das pessoas mais ricas - o que também é uma coincidência que pode sempre ocorrer, em particular num país tão ricamente marcado pela cultura mercantil da Rota da Seda que por lá passou. Hoje, não obstante as suas flutuações negativas, é o petróleo que continua a encher os cofres locais, públicos e privados. Aqui entre nós, devo dizer que, nunca como naqueles dias no Casaquistão, se me aplicou melhor o rótulo de "esquerda caviar" com que alguns amigos às vezes me mimoseiam, neste caso acompanhando com o magnífico "Snow Queen", um vodka local que, no meu modesto parecer, é um dos melhores do mundo.

Nunca esquecerei a experiência da subida à imensa torre no centro de Astana e a música do hino do país que soava quando, na sala do topo do edifício, colocávamos a nossa mão numa metálica "mão de Nazarbayev". Imagino que, num outro sentido, o meu colega casaque, genro do presidente, terá, alguns meses mais tarde, pressentido também a longa "mão" de Nazarbayev quando teve de se refugiar e entrar na clandestinidade no estrangeiro. É que as relações com o sogro ter-se-ão deteriorado ao ponto do genro correr perigo de vida - seguramente uma preocupação exagerada, embora não tivesse sido entendida como tal pelos serviços secretos ocidentais. A verdade é que para tal zanga não deve ter ajudado nada o facto do meu colega ter decidido publicar um livro que, embora travestido de novela, denunciava, com abundância de pormenores, as atrabiliariedades políticas do sogro. E este, coitado!, é capaz de ter ficado ofendido com o malandro (mas fantástico) título: "Godfather-in-law"*...

*para quem não for muito familiarizado com o inglês diga-se que "godfather" significa "padrinho", remetendo para a mafia, e que o título do livro consegue um trocadilho com "father-in-law", que significa "sogro". Mas, igualmente, a palavra "law" - "lei" - não deixa de poder também surgir propositada.

4 comentários:

Anónimo disse...

Seria importante o Embaixador Seixas da Costa pronunciar-se se faz sentido abrir agora Embaixadas no Cazaquistão e na Guiné Equatorial.

Anónimo disse...

Godfather-in-law é genial! O homem ainda será vivo. Vi que o livro se vende na Amazon

Alcipe disse...

Ah, Senhor Embaixador, que inveja! Aqui no Sudão o nosso bom Presidente só conseguiu 94%!... Quando ele souber desses resultados, vai ter uma fúria!

a) Feliciano da Mata, political advisor of His Excellency the President Omar El Bechir of Sudan

Eduardo Costa disse...

Não tivesse ele sido morto em Fevereiro deste ano...