quarta-feira, 16 de abril de 2014

Salazar e a emigração

Há cerca de ano e meio, em Paris, chegou ao meu conhecimento que ia ser publicada em francês uma tese universitária que refletia sobre atitude do salazarismo face à emigração. Contactei os editores e propus que o lançamento do livro fosse feito na embaixada de Portugal em Paris. Assim viria a acontecer.

Hoje, tive um grande gosto em estar presente na Fundação Mário Soares no lançamento em Portugal do livro "A ditadura de Salazar e a emigração", da autoria de Victor Pereira, tradução da obra original.

As intervenções de Irene Pimentel, que apresentou a obra, e do autor deram-nos conta de vários aspetos que o trabalho aborda, desde as ações de intimidação levadas a cabo pela polícia política portuguesa na comunidade emigrada à referência à importante questão, ainda muito pouco estudada, dos desertores e refratários da guerra colonial - uma temática que ainda vive abafada por um ambiente de incompreensível "incomodidade", que urge romper.

Uma nota final. O autor fez uma análise às intervenções públicas de Salazar, procurando nelas encontrar referências ao tema da emigração. E fez a impressionante constatação de que o ditador, perante uma realidade incontornável da vida portuguesa de então, manteve sempre um total mas significativo silêncio.

9 comentários:

Anónimo disse...

Em compensação o actual PM incentivou os portugueses a emprestarem o capital humano qualificado em que Portugal investiu a outros países. Um ano depois veio corrigir o tiro e dizer que já podiam regressar como se a emigração fosse um projeto de vida sazonal...Haja saúde!

patricio branco disse...

havia a emigração económica, motivada pela pobreza (igual à espanhola e doutros) e a enigração e exilio politico, dos opositores à ditadura. as duas completam se, mas são movimentações diferentes.
existia uma junta nacional da emigração que conviria estudar, o seu papel, competencias, actividades. ocupava se da emigração económica e muitos emigravam sancionado, jegalizados pelo serviço. os que não passavam por ela eram emigrantes ilegais.
o mne com o seu serviço consular tambem tinha o seu papel e não sei se houve nesses anos uma expansão da rede consular na europa, creio que sim.
a pide ocupava se de vigiar a outra emigração, a dos opositores politicos. haveria conivencia dos serviços dee segurança franceses (ou doutros paises)fechando os olhos?
penso que havia ainda uma pequena emigração artistico-intelectual, pintores, professores universitarios, poetas, escritores.

existe agora um aumento da emigração económica comparavel à dos anos 60, o regime actual, mais de gestão de portugal que do governo, tem se referido a essa emigração de que gosta, é visivel o alvio que dá ao desemprego interno.
um segundo volume com a continuação da emigração depois do 25a seria util.
fomos, somos e seremos um país de emigração e a actual é tambem triste como era a dos anos do salazar.

Defreitas disse...

A grande falência do Estado Novo foi de nada ter feito em meio século para desenvolver o pais, deixando aos grupos industriais e aos bancos toda a liberdade de investir só no que lhes interessava, particularmente nas colónias, onde as riquezas estavam à disposição, perdendo assim a oportunidade de desenvolver ao mesmo tempo essas terras, onde os povos autóctones esperavam progresso e onde as nossas gentes podiam ter tido oportunidades , integrando-se.

Não foi capaz de fazer nem um nem outro. Finalmente foi a guerra que escolheu. A emigração foi a única porta de saída para o nosso povo.
Mas Salazar, orgulhosamente só e com uma moeda forte, não podia admitir o fracasso da sua governação de meio século.

A emigração maciça é a nódoa indelével da ditadura fascista, que a repressão policial, a prisão e a tortura do Tarrafal não puderam deter.

Hoje a situação tem certas analogias: Existe a liberdade de expressão, certo, mas existe também a liberdade de morrer de fome. Hoje, não são só os pedreiros, trolhas, carpinteiros, agricultores, operários fabris, jornaleiros e toda a classe trabalhadora que emigra pelas mesmas razões que antes.

Hoje, os jovens já não fogem para o estrangeiro para escapar a uma morte inglória nos pântanos da Guiné.

Hoje são os melhores da nossa juventude diplomada que emigram em vagas serradas, incitados pelo próprio governo da Nação! Duma certa maneira, esta falência duma politica de austeridade, após anos e anos de desperdício, corrupção e roubo das potencialidades portuguesas pela elite governativa, não é melhor que a outra do século passado. Ela difere em que a emigração é livre e consentida. Mas o prejuízo para o futuro da Nação também é incalculável.

Uma analise mais larga da situação pode levar a esta constatação: Se ontem em Portugal, um regime ditatorial orgulhoso, amuralhado por trás dos Pirenéus, não foi capaz de aproveitar o tremendo surto de desenvolvimento da Europa do pós guerra, para içar Portugal ao nível dos outros países, hoje, um regime medíocre, sem orgulho nenhum, submisso ao estrangeiro, e presa dos apetites capitalistas e da corrupção dos seus dirigentes que representam os seus interesses, leva , mais uma vez, Portugal para a cauda da Europa.

O momento é grave . E é tanto mais grave que no nosso continente se ouve cada vez mais os sinos dobrar. Dobrar pela moeda única, que é simplesmente inadequada para resolver os problemas bem precisos do sistema financeiro; dobrar pelo futuro da Europa porque ninguém sabe como trazer a economia para o bom caminho.

A teoria do gato que subiu à árvore explica bem a confusão reinante: Um diz que o gato subiu à árvore mas não sabe como descer; um segundo diz que após seis anos de confusão chegou a hora de ir buscar o gato à árvore e o ultimo que diz que não existe nenhuma teoria financeira que explique porque é que o gato ainda está em cima da árvore!

Finalmente, creio que se tanta gente inteligente e esperta não sabe explicar a crise mais profunda dos últimos 75 anos, é porque o sistema socioeconómico que defendem é hostil a todo e qualquer progresso histórico. Não ?

Defreitas disse...

(Suite)
E , ao ler recentemente a "explosão" de novos bilionários no mundo, apetece-me dizer que finalmente o velho homem de barbas brancas , Marx, que elaborou a teoria que "o sistema capitalista iria inevitavelmente empobrecer as massas do mundo", enquanto que a "riqueza mundial se concentraria entre as mãos duma minoria cúpida, causando as crises económicas", tenderia a dar-lhe razão.

A desintegração intelectual dos defensores da ordem burguesa (em França, ontem, Guettaz, Chefe dos Patrões Franceses - Medef- preconiza a criação dum salário mínimo de segunda classe para os jovens , mais baixo que o SMIC nacional, esquecendo que dois primeiros ministros , no passado, se quebraram os dentes em tais projectos), ) demonstra que se desenvolve neste momento uma situação potencial de deflagração social , que, para muitos, será a única via possível para parar a espiral descendente de decomposição social que é a derrocada do sistema do lucro .

Para os media burgueses, seus comentadores e especialistas, a queda contínua da posição social das massas, não é nada mais que uma outra expressão da "nova norma". Passos Coelho diz a mesma coisa, com outras palavras.

Mas nenhum destes espertos não se digna explicar porque é que apesar dos maiores progressos científicos e tecnológicos da história, camadas cada vez mais largas da população, sem esquecer as classes médias, são empobrecidas.

Peço desculpa pelo espaço do meu texto, Senhor Embaixador.

Anónimo disse...

Excelentes textos do sr. DFreitas !

Alexandre

Anónimo disse...

E chegamos à conclusão que a democracia não é melhor...

Aliás, os "actores" políticos de hoje são seguramente piores, a economia está pior, há menos esperança, mais descontentamente, enfim...

Obviamente que a habituées do costume querem-nos fazer acreditar do contrário, naturalmente, porque para eles está muito melhor!

Isabel Seixas disse...

Às vezes pergunto-me porque damos tanta importância a ditadores... Deveríamos deixá-los morrer à mingua no mais intenso e cruel esquecimento, fazendo-os beber do próprio veneno. Insistiram em fazer protagonistas principais das suas odes religiosas de geração pobreza e crucificação masoquista os seres humanos mais vulneráveis como se fosse karma....

Daí que não vou ler... Embora ache que a história deve ser contada e decerto a pesquisa do autor é meritória.

Mas o protagonismo aos heróis, a quem, mesmo na adversidade, conseguiram sobreviver, arrancando dos baldes de cimento e calos nas mãos e pés além das frieiras a qualidade de vida que deram aos filhos ... Enquanto minorias de Bestas humanas vêem impávidos e serenos a fome de maiorias a passar ao lado das suas farturas e desperdícios...

Influência da emigração na queda da ditadura...




Victor disse...

Para desenvolver a última frase da Isabel Seixas, deixo o link duma entrevista onde se defende que a emigração participou na queda da ditadura (não sendo obviamente a única ou principal causa).

https://www.academia.edu/6795954/O_milhao_que_votou_com_os_pes

Isabel Seixas disse...

Ó "Victor" muito obrigada(Juro que não quis ser indelicada)mas tenho alguma aversão a ler Salazar, cá por coisas...

Gostei muito do artigo e concordo na integra.

Boa Páscoa para Si