domingo, 20 de abril de 2014

Mário Quartin Graça (1940-2014)

Morreu Mário Quartin Graça. Acabo de o saber pela nota que o Guilherme Oliveira Martins deixou no blogue do Centro Nacional de Cultura.

Conheciamo-nos mal, mas apreciávamo-nos. Vivemos em circuitos diferentes, mas tínhamos amigos comuns que nos fizeram aproximar, em especial nos últimos anos, em que trocámos diversa correspondência, onde emergiram interesses comuns, experiências partilhadas em tempos diversos. Em comentários neste blogue, deixou notas sempre agradáveis, atentas e interessantes.

Mário Quartin Graça era um homem do mundo da cultura, com passagens de muito mérito pelo espaço diplomático. Ler as suas memórias, "Páginas Amarelas", um livro que me enviou com amável dedicatória e a cujo lançamento com pena fui forçado a faltar, ajuda-nos a perceber melhor um homem que gostava muito da vida, das coisas e das pessoas, que teve o grande mérito de não se ter apenas passeado, indiferente ou lúdico, pelos lugares por onde andou e trabalhou. Estudou e interpretou, com argúcia não isenta da graça que lhe estava no nome, esses mundos que frequentou e que tão bem retratou. Comungávamos um interesse agudo pelo Brasil, eu invejava-lhe a experiência espanhola que profissionalmente me ficou a faltar.

Tenho muita pena em não ter tido o privilégio de conhecer melhor Mário Quartin Graça. Na pessoa do seu filho Luís, diplomata que há meses cruzei em Ancara e com quem falei do seu pai, deixo o meu sentido respeito a toda a sua família.

5 comentários:

VMM de Souza disse...

Para a Bi
Saudades do Mário

Escrever sobre a morte é sempre meio assustador e um risco, pois trata-se de algo que desconhecemos, realmente.

Quando o queremos fazer para honrar a memória de alguém a quem admirámos em vida, respeitámos ou até discordámos, podemos cair em banalidades ou exagerarmos nas qualidades e virtudes, que é o costumeiro, pois só sendo-se um malvado se vai elencar os defeitos.

Hoje quero falar sobre o Mário Quartin Graça: homem inteligente, culto, atento e engraçado, com um humor fino e por vezes mordaz.

Mas apetece-me ressaltar esta qualidade previamente mencionada: ser atento. Ao que o rodeava, ao que tinha na mente para descobrir e conhecer, em ouvir quem lhe suscitava interesse para aprender, e talvez uma faceta menos conhecida desta "atenciosidade" - uma enorme humanidade em relação ao sofrimento do outro, um desvelo tímido em proporcionar ajuda, consolo e ir ao encontro.

Muita gente lhe estará grata por tantas coisas e isso é bom. Nunca se deve fazer uma contabilidade "oficial" do amor e da amizade dada com generosidade, mas pode e deve- se fazer batota quando o destinatário da informação não é o Ministério das Finanças, mas sim Nosso Senhor.

O Mário vai dar imenso jeito no Céu: organizar bibliotecas, actualizar a compra de livros que anda desleixada, divertir meio mundo mas sobretudo contamos com ele, para junto de Deus Nosso Senhor interceder por nós e pelas nossas fraquezas.

Saudades tuas, mas vemo-nos quando o Altíssimo entender. Até lá e obrigado por te teres cruzado na minha vida.

Manuel de Noronha e Andrade

Isabel Seixas disse...



Viagem


É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.

É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.

E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga, in 'Diário XII'

patricio branco disse...

tomo nota dessas memórias dum homem bom que se foi mas deixa o seu testemunho da vida

Anónimo disse...

Devo a Mário Quartin Graça a minha vinda para a Fundação Gulbenkian. Antes de me ser oferecido, o lugar de diretor do Serviço Internacional foi-lhe proposto e ele recusou-o porque, tanto quanto na altura me foi explicado, não queria saír de Madrid.

A minha vida teria sido bem diferente se ele tivesse optado de outra forma.

Conheci-o algum tempo depois, em casa de um amigo comum, também ele já desaparecido: O Zoza, antigo Embaixador do Brasil na CPLP.

Logo simpatizámos e os encontros que tivemos mais tarde foram sempre muito cordiais.

Deixo-lhe aqui a minha homenagem.

João Pedro Garcia



Anónimo disse...


Caro Senhor Embaixador,

Muito obrigado pelas suas palavras sobre o meu Pai, que me comoveram e que agradeço em nome de toda a família, de modo especial da minha Mãe, leitora fiel e diária deste seu blogue.

Com todo o respeito e estima,

Luís Quartin Graça