domingo, 27 de abril de 2014

Carta a um amigo

Pois é, meu caro, não estamos de acordo. E nem o facto de ambos termos andado de cravo ao peito na sexta-feira passada, sob o sol dessa bela festa que foi a comemoração dos 40 anos de abril, nos coloca necessariamente lado-a-lado, acabado que foi esse dia 25.

Percebo a tua revolta, entendo que já não possas mais ver "essa gente", concordo em que eles foram bem mais longe do que a decência democrática deveria permitir, que já deveria ter havido, há muito, eleições legislativas para retificar a legitimidade política que já se pressentiu que perderam. Estou contigo em considerar que este governo foi uma das mais nefastas ocorrências da nossa vida desde o 25 de abril, por todas as razões que ambos bem sabemos e que o povo português continua a pagar na pele. Concedo, com facilidade, que quem tem competência constitucional  para tal, já há muito deveria ter tomado a decisão de "pôr fim a isto", de uma vez por todas.

Mas, vais-me desculpar, "eles" - e quem os sustenta por "lá" - estão no poder porque o povo português assim o quis. E a isso chama-se democracia. Eu sei que vais arguir que isso é "democracia formal", mas esse é também sinónimo de democracia. Mas "eles" também "lá" estão porque tu e os teus amigos - o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda, assim, com todas as letras, para que fique bem sublinhado o que vocês procuram fazer esquecer - votaram, bem ao lado da direita, para derrubar o governo socialista. É verdade, meu caro, tu e Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, estiveram de mão dada com Passos Coelho e com Paulo Portas para afastar José Sócrates. Não gostavam dele? Claro que estavam no pleníssimo direito democrático de derrubar o seu governo. Mas agora, desculpa lá!, gostam mais "destes"? É que convém que o povo português nunca esqueça o que se passou em 2011: foi o voto da "esquerda da esquerda", de que tu fazes parte, quem abriu as portas a esta direita que está no poder. Foi o voto dessa "esquerda da esquerda", ávida pela possibilidade de vir a ter uns deputados mais em S. Bento (não se sabe bem para que efeito útil), que estendeu uma passadeira vermelha (ironicamente, "vermelha") a quem se propunha ir (e foi!) "além da troika". Estão satisfeitos?

Nas últimas semanas, vi-te entusiasmado a ecoar algumas proclamações ameaçadoras de derrube da ordem constitucional, da necessidade de um "outro caminho", para "pôr com dono" este governo, que tem trazido a divisão e a maior incomodidade de sempre à política portuguesa em democracia. Vi-te ao lado dos que pensam que "eles" têm de sair, "a bem ou a mal". Nestas comemorações de abril, por entre cravos, vozes iradas e corações quentes, vislumbrei-te em aplausos aos apelos à revolta, a um "novo 25 de abril".

Tem juízo, pá! Esta ordem constitucional, com todos os muitos defeitos que tem (e que ela própria tem forma de corrigir), foi aquela que resultou da luta pela qual eu e muitos outros arriscámos a nossa liberdade no dia 25 de abril de 1974. Por causa dela, há agora um papelinhos brancos, nos quais podes colocar uma cruz no sítio certo (ia dizer "no sítio seguro", mas temi outras interpretações), que deves dobrar em quatro e meter numa caixa, nuns determinados dias. O primeiro é dentro de cerca de um mês, o segundo, infelizmente, deve ter de esperar mais uns tempos. Queres um conselho: vota bem! Vota em quem tenha uma possibilidade real de mudar a vida aos portugueses, não em quantos apenas servirão para aumentar os decibéis do protesto, mas não irão ter o menor papel na decisão dos caminhos do futuro. És livre, claro, de votar em quem quer fazer sair Portugal do euro e até da União Europeia, o que somaria mais empobrecimento àquele que os portugueses já têm - e que só defendem esta insensatez pela confortável certeza de que nunca ascenderão ao poder para a poder executar.

Até lá, podes e deves, se assim o entenderes, continuar ir para a rua clamar o teu desagrado, ser solidário com quem sofre as políticas oficiais, fazer as greves que bem entenderes, expressar-te livremente como quiseres, em tudo quanto for sítio possível. Mas hoje a Revolução, meu caro, já não está na ponta de uma G3, está no boletim de voto. Ou, como se dizia em 1975, "o voto é a arma do povo". O resto é nostalgia serôdia e falta de espírito democrático. Sei que não deverás ter gostado muito de ler esta carta, mas escrevi-a no usufruto das minhas "mais amplas liberdades", para utilizar uma expressão que talvez seja cara à tua memória de abril. 

Recebe um abraço, apesar de tudo, solidário. E viva o 25 de abril, sempre!

24 comentários:

Anónimo disse...

Ora bem, eu il a carta e como não sei a quem ela é dirigida li-a como se ela se dirigisse a mim. Recebo pessoalmente o seu conteúdo como uma "lição de moralidade" e poderia estar quase de acordo com tudo. Até seria capaz, modéstia à parte, de escrever a mesma.
Mas como me coloquei na pessoa do "récepteur" quero enfatizar o seguinte:
As nossas democracias levaram-nos a um ponto em que permitimos que uma minoria possa governar com cerca de 20% dos votos duma população e agem em patrões absolutos como se tivessem comprado uma propriedade.
Os 20% a que me refiro são os 20% da popolação adulta com direito de voto.
A sua carta, Sr. Embaixador, é excelente ! Mas como saír desta situação de minorias que que agem como Reis e senhores espezinhando muitas das regras de democracia e que tanto fazem a sofrer a maioria ?
José Barros

Defreitas disse...

Resta esperar que sejam muitos aqueles que compreendam este magnifico balanço da realidade politica portuguesa. E que aprendam a lição! Se não fosse o direito de propriedade do autor, estava com ganas de traduzir estas palavras nos jornais franceses, particularmente " Le Monde", Libération" e "L'Humanité" ! Porque cá em França, são legião aqueles que se preparam a cometer a mesma asneira ! Perdão : o mesmo erro! O populismo prospera por toda a parte!

Felicitações pelo texto e o espírito que ele comporta, Senhor Embaixador.

Portugalredecouvertes disse...


Este ano foi uma festa mais bonita, com numerosos acontecimentos culturais e comentários objetivos e esclarecedores

Anónimo disse...

Aquele voto da "esquerda" em 2011... e, os portugueses de "esquerda" que não votaram "naquela esquerda" para isto? Quando analisarem os resultados "daquela esquerda" no proximo mês -eles - verão quantos portugueses a menos, se reconhecem nestas brincadeiras que a democracia ainda lhes permite... Esperem maus resultados, porque as pessoas ja não são tão analfabetas como dantes. Algumas portuguesas ja trocaram as "novelas televisivas" por programas mais esclarecedores... Nunca lhes vamos perdoar!!!

Anónimo disse...

Caro amigo: é por estas e por outras é que o voto "seguro" (fiquei esclarecido...) é uma cruz de alto a baixo no quadrado grande que contém outros pequenos quadrados. Será?
Saudações democráticas
José Amador

patricio branco disse...

gostei e li a carta uma 2da vez...

Anónimo disse...

Sr. Embaixador, este documento não é "uma carta a um amigo", é uma carta aberta a todos os eleitores democratas, conscientes do "estado a que isto chegou"

José Henrique Soares disse...

Meu Caro Dr. Seixas da Costa
Sou leitor diário deste seu blog e, sem tomar as dores do amigo a quem se dirige, gostaria de discordar de alguns aspectos do seu texto. Sou do que chama a esquerda da esquerda (a que eu chamo apenas a esquerda) e, por várias vezes, já me confrontei com a questão que coloca. Chego, no entanto, a uma conclusão diversa da sua: o Partido Socialista, na versão Sócrates e, pior ainda, na versão Seguro, não tem tido nem tem nada para nos oferecer de substancialmente diferente do que oferece o actual governo e, por isso, não representa uma verdadeira alternativa a este (escuso de salientar o exemplo da situação política em França e de relembrar a presença do SPD no actual governo alemão). O voto da oposição de esquerda contra o PEC IV foi, por isso, lógico, natural e coerente, tanto mais que já havia votado contra todos os PECs anteriores. Alterar em relação ao PEC IV esse sentido de voto é que representaria uma profunda e insanável contradição. E com que objectivo salvaria o governo minoritário de Sócrates? Não é a direcção do PS que sistematicamente exclui estas forças políticas (PCP e Bloco), que representam quase 20% do eleitorado, do chamado "arco da governação"? Por que razão deveriam então os proscritos dedicarem-se a engolir sapos (ou melhor, elefantes) vivos para salvar a governação a que sempre firmemente se opuseram?
Concordo, evidentamente, consigo em todas as considerações que faz em relação à legitimidade democrática e à legitimidade política. Chamo só a atenção para o facto de não ouvir nenhuma voz dos tais partidos malditos a defender rupturas revolucionárias, tanques na rua e armas na mão para derrubar a camarilha neoliberal no poder. Curiosamente, a quem tenho ouvido esse discurso é a militares do 25 de Abril, a maior parte deles oriundos do "grupo dos nove" e ao Dr. Mário Soares - ou seja a personalidades que não estão propriamente identificadas com os tais partidos que passam pelo lado de fora do famigerado "arco da governação".
Não quero que suponha que, para mim, o PS seja a mesma coisa do que o tandem PSD/CDS. É óbvio que não é, mas é igualmente óbvio que, como muito boa gente dentro do PS sente e defende, na actual conjuntura interna e, sobretudo, europeia, o PS tem de dar uma resposta bem diferente daquela que vem dando aos anseios de todos os que se sentem vítimas da calamidade social que atravessamos e dos que não aceitam estas injustiças e este retrocesso civilizacional.
Não se trata de derrubar governos que resultam de eleições livres, mas de propor democraticamente alternativas políticas que representem uma ruptura com a sociedade em que vivemos e não apenas uma gestão mais humanizada da desregulação social imposta pelo capitalismo selvagem.
Na minha perspectiva, é esta a fractura que, hoje como sempre, separa a direita da esquerda.
Aqui lhe deixo a reflexão matinal que a sua prosa nocturna me suscitou.
Um abraço do seu fiel leitor
José Henrique Soares

Anónimo disse...

Senhor Embaixador:

O Senhor Alcipe anda com a mesma conversa e porque isto, e porque aquilo, e também me quer convencer a ir também para o voto seguro, já que não pode ser formoso.

Mas eu, Feliciano da Mata, militante pablista, pergunto-lhe:

Que fez minimamente a social-democracia europeia ( que eu não reduzo os males do mundo ao Sócrates, ao Cavaco e ao Passos Coelho, como muitos, que não o senhor, é claro, fazem por aí), repito, que fez a social-democracia neste mundo para contrariar a tomada do poder económico pelos mecanismos financeiros e o consequente esvaziamento de qualquer alternativa política? Pelo contrário, deu mais guita à alegre roda e ofereceu tudo, tudo, à finança desregulamentada. Lembra-se do Sr. Blair? Do Sr. Brown? Do Sr. Greenspan?

TINA, pois claro. E quem por nós for eleito sê-lo-á tão somente para ir adivinhar a vontade dos mercados (que eu não reduzo, como o senhor também não, à maldade da Sra Merkel nem à pusilanimidade do Sr Hollande), mas que são quem efectivamente manda em nós.

"La joie du cocu", Senhor Embaixador?

a) Feliciano da Mata, militante pablista, votante no que for mais contra ("Hay gobierno? Soy contra!")

Guerra disse...

Viva Sr. Embaixador,

Permita que aqui deixe o que escreveu Rentes de Carvalho no seu blog

sábado, Abril 26
"Em acção de graças

Os capitães do 25 de Abril trouxeram-nos a democracia e a liberdade, devemos agradecer-lhes".
Oiço isso a pessoas sinceramente enternecidas, e de facto assim foi, duma maneira ou doutra os capitães accionaram a mudança de regime.
Ao mesmo tempo toma-me a melancolia, porque o agradecimento assemelha-se muito ao de um favor recebido, não ao de direitos conquistados pela própria acção. Alguém se mexeu, o resto esperou, a sequência conhecemo-la todos.
É assim que, mau grado a liberdade, não me parece que a apatia geral seja diferente da que testemunhei durante o salazarismo. A nação, mais uma vez, como tantas outras ao longo da sua História, parte dela foge, o resto espera que alguém se mexa, a sacuda e tire da sonolência.
Mas os "capitães" estão reformados, e os banqueiros até a própria mãe vendem, quanto mais a pátria alheia. Por isso me pergunto se não haverá por aí um grupo de gente de saber, honra e vontade, que se levante, que diga que Portugal não merece o que lhe aconteceu, nem o que lhe acontece, e que é urgente, muito urgente, mudar?
Com a fé que me resta mandava rezar uma missa em acção de graças."

Cumprimentos cá da Bila

Anónimo disse...

Esta é muito boa, o PCP e Bloco votaram com a direita, para derrubar o governo?
Ora, migas, e deviam fazer o quê? Apoiar o PS. na sua política de direita?
Enxergue-se, a culpa é da panela que ferve? Ou de quem põe lenha à fogueira?

A.M.

Anónimo disse...

De acordo !

Alexandre

Teófilo M. disse...

Subscrevo, se mo permitir.

Anónimo disse...

Podia ter sido José Sócrates a escrever isto. Não se percebe é o que se pretende com semelhante relambório!O PS sempre criticou mais os Partidos á sua esquerda do que os à sua direita.
Mas, como digo, isto poderia ter sido escrito por Sócrates (que teve essa "narrativa" à época), mais coisa menos coisa. Ou por um socialista (socrático). Como o autor deste Blogue. Vamos então aguaradar que se faça Democracia, respeitando o tal período de 4 em 4 anos. A Democracia, para muita gente, ainda é, ou limita-se, essencialmente, a votar. De 4 em 4 anos.
Bom Domingo!
João G.

Anónimo disse...

Tão simples como isto, Senhor Embaixador...Mas a política é isso mesmo. O princípio é, normalmente, dizerem e fazerem o contrário dos concorrentes... e, assim, é o resultado do presente!

de Almeida Pinto disse...

Caro amigo, a sua carta é mais do que isso, é uma lição que deve servir de base de reflexão a todos os nossos compatriotas. Aos que não votam, para que o passem a fazer. Os que votam, que pensem nas consequências do que vão fazer. Os que não sabem que o "melhor é o inimigo do bem",os amigos do destinatário da sua magnífica missiva, já podem medir a vastidão desastrosa das suas passadas (e recentes)decisões.
Abraço de Paris.
Aurélio

Defreitas disse...

Ao Senhor José Henrique Soares , que escreveu:


"Não se trata de derrubar governos que resultam de eleições livres, mas de propor democraticamente alternativas políticas que representem uma ruptura com a sociedade em que vivemos e não apenas uma gestão mais humanizada da desregulação social imposta pelo capitalismo selvagem."

Perfeitamente. Mas para chegar a uma alternativa política que represente uma ruptura real, é preciso unidade da esquerda. Em democracia é a maioria dos votos exprimidos que decide quem governa. Se não existir esta unidade, e porque a violência não é democracia, a direita continuará a sua triste e fatal obra de destruição da Nação.

Não creio que existe em Portugal uma personalidade única suficientemente forte capaz de galvanizar todo o povo da esquerda , todas as suas "nuances" . Trata-se portanto de unir todas as tendências para governar. Todas as tendências podem trazer, cada uma, a sua parte de análise e melhorar o resultado final, respondendo mais largamente aos anseios do povo. A influência do SPD no governo de Frau Merkel na Alemanha é já substancial para o povo alemão. Seria muito melhor se tivesse sido num conjunto de partidos de esquerda, claro. E em Portugal, matematicamente, é possível.

Anónimo disse...

Caro Seixas da Costa

Reajo porque esperava mais (melhor) de si.

A propósito do PEC IV, Sócrates foi bem mais honesto.

Para além de referir "a mão atrás do arbusto" de Cavaco Silva (que não ia desistir do seu sonho - um presidente, um governo, uma maioria), assume o seu particular empenho num entendimento com Passos Coelho (como tinha acontecido em casos anteriores) tendo sido traído no último momento.

Aliás Sócrates reconheceu também como um erro o ter constituído um governo minoritário.

Quando se refere ao seu companheiro de festejos, a quem se terá esquecido de dizer pessoalmente aquilo que veio afirmar em público, talvez porque, afinal, ele corporiza (como diz) o PCP e o BE, revela falta de isenção, e até mau gosto, não o considerar entre aqueles (muitos) que assumiram riscos e danos na luta pela Liberdade e por uma Sociedade mais Democrática e Justa.

O seu texto parece pretender atribuir (falsas) culpas à esquerda. Porquê?

Para justificar namoros à direita?

Tenho-o tido na conta de pessoa de boa fé.

Aquilo que escreveu mais me afasta, das expectativas que se esfumam, em relação a qualquer projecto liderado por Seguro.

E porque preferiu Seguro estar longe das manifestações populares do 40 anos do 25 de Abril? Se o tivesse aí encontrado, ter-lhe-ia escrito uma carta pública no dia seguinte?

Miguel Alexandre

Carlos Gomes disse...

Sou leitor habitual do seu blogue e permita-me que discorde quando reduz a democracia ao exercício do voto. Também em 1932, o partido nazi ganhou democraticamente as eleições na Alemanha pelo que, seguindo esse raciocínio, todas as suas ações posteriores estariam legitimadas e, consequentemente, jamais deveria ser apeado do poder pela força. Se a democracia é isto em que nos encontramos, então será melhor escolher outro género de regime.

Defreitas disse...

O Senhor Carlos Gomes escreve: " Se a democracia é isto em que nos encontramos, então será melhor escolher outro género de regime."


Hum ....

De que falamos realmente quando falamos de democracia?
Existem aqueles que a explicam servindo generalidades sobre o direito de liberdade de expressão e sobre o da livre escolha dos dirigentes. Quanto às condições que permitiriam de exercer tais direitos, plenamente, não figuram nos discursos. Nem de uns e de outros.

E é neste contexto que a democracia é cantada e figura no primeiro plano dos argumentos de uns e de outros, num mundo onde os problemas sociais se amontoam e cujas causas são conhecidas. Sem que a democracia existente, incluindo nos países onde não sofre nenhuma contestação, seja posta em causa na sua capacidade de servir como alavanca ao desenvolvimento social.

Os que têm os meios de comunicação, e portanto o direito de se exprimir e aqueles que têm os meios de fazer politica portanto o direito de pesar na escolha dos dirigentes, são aqueles que aparecem e que falam em nome do povo. Podem estar no poder, como podem estar no que chamamos uma "oposição".

Esta dualidade, contraditória em aparência, assegura uma imagem dita democrática às sociedades onde ela se manifesta. E é ela que fará o espectáculo aquando das eleições. O povo, massa indiferenciada, veria todos os seus membros, chamados cidadãos, participar com armas iguais à decisão final, através do suposto livre exercício do direito de voto.
Ficam de fora as desigualdades económicas e as disparidades das preocupações.

No saco, não há lugar para as contradições entre categorias de eleitores,e mesmo se acontece que, em certos países, os candidatos mostram divergências do ponto de vista da governança económica, neste plano, em definitivo só raramente é que se faz uma modificação das orientações publicas.

Modificações que, quando existem provocam invariavelmente uma crise politica maior.

A história recente demonstra-o. O exemplo do Chile ilustra isso precisamente, quando em Setembro de 1973, o governo eleito sobre bases de ruptura com o establishment das multinacionais do cobre em particular foi varrido na sequência do golpe de estado. A democracia chilena foi julgada incompatível com a democracia "com estampilha ocidental " .

Ela "infringia" as regras estabelecidas pelo Império, e devia portanto ser "corrigida". Um golpe de Estado sangrento e uma feroz ditadura foi instaurada par limpar o sindroma popular.

Um outro caso é o da Venezuela onde se faz uma guerra sem fim contra o poder, várias vezes reeleito pelo voto democrático. Lá também, a escolha popular "manchou" a democracia "estampilhada ocidente" e cria, por conseguinte, um imenso problema económico. E a Venezuela teria podido ter a mesma punição que o Chile, sem a mobilização dos seus cidadãos e a vontade da maioria, face aos interesses duma minoria.

Mas , paradoxalmente, e para o momento, a democracia continua a ser brandida como solução idealizada para os males da sociedade.

E entre nos, sabemos como se entra na ditadura mas nunca sabemos quando e como de lá se sai !

Anónimo disse...

Caro Francisco,
O comentador Miguel Alexandre tem toda a razão. Até no “pormenor” de Seguro não ter estado nas comemorações de rua, relativas ao 25 de Abril. Não esteve em nenhuma. As genuínas. Podendo ter estado até em ambas, abdicou daquelas, em favor de outra. Preferiu a postura institucional. O PS de Seguro, onde você se revê, é mais coisa menos coisa, a outra face deste governo e da sua política anti-social. Seguro não mudará nada, mas nada, do essencial quanto ás políticas deste governo. O mesmo PS que não vê razões para, junto com esta maioria, obrigar à exclusividade nas funções de Deputado, com vista a, de algum modo, combater, ou minimizar, o tal tráfico de influências - e de interesses. O mesmo PS que vetou que as negociações com a dita Troika não tivessem a presença da imprensa. Posso, em abstracto, compreender. Mas, dá uma ideia daquilo que o PS é, hoje em dia, o PSeguro: como atrás disse, nem mais, nem menos, do que a outra face da mesma moeda, desta política de “austeridade” (convinha que lessem Alexandre Herculano para perceberem o real significado da palavra Austeridade, que nada tem a ver com esta, do PSD/CDS+PS) sem transparência. Embora se possa questionar a ausência quer do PCP, quer do BE, nas negociações com a Troika, não são comparáveis as críticas que cada um daqueles Partidos, PSC+BE, faz do seu resultado, ou seja, no que consistiram e no que implicaram na maioria da população, que eles já previam e pelos vistos com justificada razão, com a que o PS de Seguro tem feito desde que este governo tomou posse, há 3 anos. Seguro, o que propõe, e você sabe isso tão bem como eu, é a continuidade “amenizada” desta destruição economico-social (e política) levada a cabo pelo duo PSD/CDS. Mas, atenção, só depois de 2015. Até lá, que o governo PSD/CDS deixe a casa “arrumada” (ou desagredada socialmente, fazendo o trabalho sujo que o PS de Seguro não quer fazer). É por estas e outras similares razões que Seguro não descola da maioria e vai ter menos votos do que seria desejável (para o PS), deste modo não obtendo a tal, necessária, maioria para governar, a partir de meados de 2015. É por estas razões, um voto a menos aqui e ali, que se deixa de ganhar (com maioria) as eleições. Seguro e você, Francisco, você com este tipo de posturas escritas, que, bem vistas as coisas, reflectem aquilo que é o PS de hoje e aquilo que esse mesmo PS defende, acabam por fazer com que, quem tradicionalmente votava PS (como eu e muitos outros/), vote ou PCP, BE, ou vote em branco. É com tristeza que o digo, mas quando se lê este seu texto, ou quando se ouve Seguro, Zorrinho e Cª, fica-nos um vazio enorme. E, ou me engano muito, ou, com uma votação modesta, sem maioria, teremos o PS a aceitar a chantagem de Belém e a ir buscar o PSD e mesmo o CDS, quem sabe, para o colo do Poder, com vista à tal coligação do “Arco da Governação” (provavelemente até com Portas como 2º Vice-PM, sendo o 1º Vice do PSD) , Ou seja, pouca esperança existe para este desgraçado País. É lamentável, mas é é a realidade.
Um abraço de quem tem pena de ver um amigo a deslizar, gradualmente, para uma postura que cauciona os Seguros, Passos, Portas, etc deste País.
PS: será que existem 2 (dois) FSC, o que viveu – há já uns distantes 40 anos – por dentro, o 25 de Abril, como gosta de nos recordar, e de hoje, totalmente institucionalizado e politicamente acomodado? Sem chama visionária? Temo bem que sim.


Bernardo Castelo Branco disse...

Sr. Embaixador:

Nesta ânsia de romancear o 25 de abril, convem não esquecer o lado negativo deste acontecimento:

. A penosa descolonização. O modo como milhares de portugueses foram abandonados à sua sorte. Iniciativas em Portugal de promover campanhas de "nem mais um soldado para Àfrica", desmantelaram o dispositivo militar que nos poderia ter permitido negociar em pé de igualdade.
. As selváticas nacionalizações com as pesadas consequências para a nosa economia,
. A desastrosa reforma agrária que só serviu para que alguns fizessem verdadeiras fortunas em esquemas combinados com as Cooperativas que lesaram o Estado.
. O pseudo-heroi da revolução, o Otelo, que para bem de todos nós atingiu o seu principio de peter esó fez asneiras a seguir. Não esquecendo que liderou uma organização terrorista que matou várias pessoas, incluindo um bebe. Como compreender que ainda tenha lata de aparecer.

Cumprimentos

Bernardo Castelo Branco

Defreitas disse...

Bernardo Castelo Branco disse...
"Nesta ânsia de romancear o 25 de Abril, convêm não esquecer o lado negativo deste acontecimento":

" A penosa descolonização".

O Senhor Castelo Branco esquece:

a) que se os USA não conseguiram "negociar em pé de igualdade " com o Vitcong ,( como os Franceses antes do desastre de Dien Ben Phu com o Vietminh), abandonando montanhas de material bélico e a população do Vietname Sul aos Viecong .
b) Se os Franceses não conseguiram "negociar em pé de igualdade" com os Argelinos (ou antes negociaram mas sem resultado prático), deixando aos colonos Franceses a escolha entre o caixão ou a bagagem ( le cercueil ou la valise) , como é que Portugal, exangue humanamente e economicamente, abandonado pela comunidade internacional, condenado pela ONU, poderia fazer melhor que as duas grandes potências indicadas.

Vejamos o caso da Guiné:

Spínola, governador do território, ciente da grave crise militar vivida
pelos soldados portugueses e do amplo respaldo da guerrilha nacionalista, pretendeu
adoptar uma estratégia de integração que visava, até, a incorporação de alguns
elementos do PAIGC na administração colonial. Como estratégia de fundo, uma transição negociada para a independência. Como se os povos uma vez lançados na batalha e nos sofrimentos para a independência, fossem abandonar a luta para obter tão pouco e ao tarde ....

Em Abril de 1970 três majores enviados por Spínola para as terras ocupadas pelo PAIGC a fim de serem iniciadas as negociações foram, entretanto, sumariamente mortos.

A oportunidade que teria permitido "negociar" em "pé de igualdade" , Portugal perdeu-a, quando Spínola invadiu a Guiné-Conacry , visando derrubar o governo de Sékou Touré e destruir ao máximo as
estruturas do PAIGC montadas naquele país. A operação “Mar Verde”, como ficou
conhecida foi um desastre total, tanto do ponto de vista militar como também político e diplomático. O Conselho de Segurança apresentou uma denúncia contra Portugal, o que prova o desgaste português nas relações internacionais.

Houve ainda a famosa proposta do presidente do Senegal. Leopold Senghor procurou
Spínola a fim de estabelecer um diálogo com vistas ao encerramento do conflito na
Guiné. Sua proposta consistia na celebração de um acordo baseado em uma
administração conjunta entre portugueses e nacionalistas ao longo de um período de
dez anos ao fim do qual seria estabelecido um referendo popular que determinaria o
futuro das relações entre Guiné e Portugal. Spínola levou a proposta a Caetano e
recebeu como resposta uma radical negativa. Estarrecido, ouviu ainda de Caetano a
afirmativa de que para uma melhor defesa do ultramar, particularmente para a defesa
de Angola e de Moçambique, era preferível uma derrota militar na Guiné ao invés de
uma saída negociada !!!!

Senhor Castelo Branco : Em um quadro de absoluta recusa a qualquer
alternativa que não fosse a derrota dos movimentos nacionalistas, diversas resoluções
da ONU e de seu Conselho de Segurança, como reconhecimento unilateral da
independência da Guiné aprofundaram o isolamento português entre o início da década
de 1970 e a Revolução dos Cravos em 1974.

O que se seguiu depois em Angola e Moçambique foi o corolário da desastrosa gestão das guerras coloniais do Estado Novo. Como seria possível obter uma negociação em" pé de igualdade", retomando a sua frase, quando se conhece o estado de espírito dos movimentos militares após as manobras de baixo quilate gerado pelo regime autoritário português?

Atribuir a culpa aos homens de Abril é uma falta de conhecimentos históricos e mesmo de má fé evidente.

Anónimo disse...

Dr. Seixas da Costa. Digo-lhe, com toda a sinceridade que esta sua carta me encheu completamente todas as medidas. Como pode ver, há gente para tudo, como o provam, alguns comentários. O Senhor acertou a mouche!Foi ao osso e isso doi. Penso de igual modo. O PC, atuou sempre assim com o PS. Sempre e Objectivamente pela política do quanto pior, melhor. Acho que não tem emenda.
Parabéns pela carta, pois é, também o que penso, há muito, sobre esta sistemática prática. Quem os pôs lá e, ou ajudou a por, que os tire!. Para sí e por dizer o que lhe vai na alma. Parabéns.