terça-feira, 8 de outubro de 2013

Para o Sérgio Moutinho

Olá, Sérgio

Cheguei há pouco ao sul da Anatólia, aqui na Turquia, não muito longe da Síria de que tanto me falavas com entusiasmo. De repente, lembrei-me que terá sido mais ou menos por aqui, no final dos anos 80, que vinte e tal facadas traiçoeiras te calaram a alegria. Foi num dos meus mais tristes Natais, em Vila Real, aquele dia frio em que te fomos deixar para sempre em Santa Iria.

Ainda tenho, entre algumas outras, uma carta tua, enviada meses antes, de Ancara, em que me falavas do teu cansaço com o posto onde te mantinham, para além do razoável, muito contra a tua vontade. Lembro-me de me teres dito que te apetecia concorrer a Marselha e de eu te desaconselhar essa opção, já nem sei bem com que argumentos. E de não ter tido artes para te tirar da Turquia, coisa que nunca me perdoei. Não esqueço também o nosso último almoço, na Laurentina, com a Mi Allegro, a quem tu davas conselhos para a vida afetiva - logo tu, Sérgio!

Já passaram muitos anos, mesmo muitos, desde os tempos em que desembarcaste em Vila Real, vindo dos "States", com o melhor inglês da cidade, sempre agitado e agitador, numa terra pouco dada a acomodar quem não estava "nem aí" para se acomodar. Foram os tempos comuns no liceu de Vila Real, onde só o teu entusiasmo, e a paciência bracarense do professor Ladislau, conseguiu levar-nos a montar o fantástico "Centro de Estudos Geográficos", onde, com o Elísio Neves, o Zé Barreto, o Carlos Leite e alguns outros, soubemos dar a volta à rotina desses dias algo baços, numa cidade que - confessemos! - era então uma grande chatice. Ainda guardo exemplares do "Meridiano", órgão do Centro, com textos que hoje me fazem sorrir.

Para ti, que sempre foste um apressado dos tempos, esse foi apenas o início de um percurso trepidante, que te levou à universidade de Coimbra, a dar aulas, a ser preso pela Pide, a te meteres na aventura da cooperação na jovem Guiné-Bissau. E, finalmente, sob o meu conselho, a entrares para a carreira diplomática, onde foste uma promissora estrela, tão efémera como acabou por ser a tua vida. Tudo isso feito sob o olhar bom, sorridente e deliciado, da tua mãe, a âncora mais fiel de uma existência em que, sem outras baias que não fossem as do usufruto obsessivo do instante, testaste todos os limites e abanaste todas as convenções. Até àquela noite.

Nunca se soube, nem se saberá ao certo, o que aconteceu nessa ocasião trágica, aqui na Anatólia. Como dizem os juristas, "a doutrina divide-se" e eu fiz parte de uns poucos que, contra a vontade de alguns outros - à frente de quem esteve, quem havia de ser?, a nossa amiga Ana Gomes, que tu me havias apresentado um dia - nunca se mostraram excessivamente empenhados em escrutinar o rigor dos factos ocorridos, talvez porque o facto maior foi sempre a tua morte, e essa foi a tristeza definitiva que nenhuma revelação sensacional poderia reverter. E porque, quem sabe se erradamente, sempre fui de opinião de que a verdade oficial que, inevitavelmente, seria vendida e mediatizada, só iria contribuir para agravar a tristeza de quem te estava mais próximo.

É tudo quanto hoje te quero dizer, Sérgio, aqui da Turquia, um país a que sempre te associo. Se acaso há algum lugar por onde possas andar, só tenho uma certeza: estarás a agitar as águas e os espíritos. Recebe um abraço saudoso do

Francisco

ps - não te falo da política caseira porque, conhecendo-te, "passavas-te" se eu te contasse como as coisas andam por lá, por Portugal. Mas, mesmo assim, felicito-te pelos resultados em Setúbal, em Évora, em Loures ou em Beja, entre outros lugares onde os teus (o "partido", como tu dizias) mostraram a sua consabida arte de bem cavalgar todas as crises.

10 comentários:

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Numa noite de insónia e a fazer "ronda" pelos blogs, cheguei a esta sentida homenagem - premonição ou não é impressionante o diplomata Sérgio Moutinho não querer ir para esse posto.

Por curiosidade, fiz pesquisa na net. As causas atribuídas à morte e a, consequente, não investigação só revelam falta de coragem política... mas não é só a política caseira, a mentalidade e o não repeito pelas opções dos outros também mudou tão pouco por aqui!

Isabel BP

Rui C. Marques disse...

Caro Francisco,
um abraço comovido para Constantinopla.

Isabel Seixas disse...

Lindíssima a expressão da Sua recordação, enternecedora e comovente, além da homenagem de saudade muito bem declamada o retrato de uma amizade invejável.

margarida disse...

http://causa-nossa.blogspot.pt/2003/11/srgio.html

ARD disse...

Tinha estado, uns meses antes, comigo, em Paris.
Um dia, pediu-me que o levasse, de carro, à sede do PKK, o Partido Comunista Kurdo, que mantinha uma rebelião armada na Turquia.
Depositei-o a alguma distância da morada, uma vez que a matícula diplomática tornaria a boleia um pouco conspícua para a polícia (e não só) francesa que, certamente, vigiava os locais. Fartou-se de rir com o que considerou cuidados excessivos.
Guardo dele um postal enviado de Baghdad, onde me substituiu numa curta comissão de serviço. Ele conseguia sentir com naturalidade o que eu só discernia por puro exercício intelectual: a Baghdade de Harun al-Rashid éden Scherazad.

Carlos Fonseca disse...

Comovente este seu texto, bem como o da sua colega Ana Gomes.

Acho que vocês não têm o direito de escrever assim tão bem, que até me enchem de inveja,

E, ainda por cima, conseguem uma coisa que não é fácil e de que não gosto muito: emocionaram-me a ponto de ficar com os olhos marejados.

Anónimo disse...

Fui colega de concurso do Sérgio. Logo no decorrer das provas houve uma empatia pessoal e depois passámo-nos a dar bem e a termos uma boa relação profissional. Até pelo facto de termos uma proximidade política, embora não fosse idêntica (talvez eu me situasse, à época, mais à esquerda, o que o divertia, ou melhor, nos divertia). De resto, respeitei sempre as “preferências” pessoais do Sérgio, que gostava, por vezes, de provocar determinados colegas. Saíamos algumas vezes, juntamente com alguns colegas, para jantar ou “beber um copo”. E, como sucede nesta nossa carreira, um dia cada um de nós foi colocado em Posto. Ele para Ankara, eu para outro. Falávamo-nos por vezes, entre Postos. Um dia, já a terminar cada um de nós o nosso tempo naqueles Postos (em comum, tivemos a mesma situação, o de ter estado, talvez, demasiado tempo neles colocados), ele propõe-me eu ir para Ankara, onde ele me disse, “ficas com os meus amigos, tipos excelentes, etc e tal”. Pediu-me depois para “caracterizar” o meu Posto – quer no plano profissional, quer do resto, ou seja, a cidade (enorme e vibrante) as suas gentes, costumes, etc. Davamo-nos muito bem. Talvez, por haver afinidades políticas e de carácter – e ambos do Norte. Falou-me então do regime do país que servia (a Turquia) em tom muito crítico, da minoria curda, etc, etc. Até de ter estado algures na Síria, onde se teria, supostamente, encontrado com alguns representantes da minoria curda. Tinha uma azar danado ao regime turco. Alguém disse um dia, numa visita oficial ao Posto que eu estava deixar, que haveria um pequeno busto dele algures no território “curdo-turco”. Alguém que era a Tutela de então. A mesma Tutela que depois foi para Comissário em Bruxelas – cujos resultados preguiçosos, foram o que sabemos. Alguém que disse, denegrindo a imagem do Sérgio, que “ele tinha extravasado as suas funções e nesse sentido ao manter contactos com opositores separatistas do regime turco, não poderia esperar outra coisa”. Alguém que – repugnantemente – acabava, ali, de aceitar o seu assassinato, como uma espécie de lição para outros (diplomatas) “se fossem além das suas funções”, concluindo, dizendo, “e o inquérito que nós solicitámos ao governo turco, que é secreto, acabou apenas por revelar que a razão do seu assassinato se deveu a questões de ordem pessoal – embora o regime o andasse a vigiar desde há muito, dado os contactos que mantinha com a minoria curda/turca”. Não sei se esse relatório efectivamente existe e se assim é, o que lá está escrito. Mas se foi redigido pelo regime turco de então, fácil será adivinhar o que lá foi referido. Sempre respeitei a vida pessoal do Sérgio. Tinhamos opções, nesse capítulo, diferentes, mas era um coração bom, um excelente amigo, um tipo de esquerda, como já não há no MNE de hoje, totalmente formatado.
(Se este comentário não for publicado não tem importância. Fica o registo.)






patricio branco disse...

uma sentida e amiga evocação

margarida disse...

“(…) Sempre respeitei a vida pessoal do Sérgio. Tínhamos opções, nesse capítulo, diferentes (…)”

Com todo o respeito, ‘opção’ terá sido o idealismo político, a simpatia pelo PKK e a tentação pelos encontros interditos com os contestatários curdos, no âmbito particularmente susceptível da sua profissão.
O que nos foi aqui aludido, sugere ter sido este nosso conterrâneo um arrebatado aventuroso, cujas viagens e enredos dariam um estupendo romance, houvesse quem o redigisse, para seu tributo e nosso conhecimento.
Quanto à sua vida pessoal, não creio que se tratasse de ‘opção’. Sermos o que somos estará essencialmente no ADN; nascemos e vamos sendo burilados pelo mundo, os outros e as nossas circunstâncias. A educação e a cultura aprimoram-se, o íntimo habita-nos. Não se opta, assume-se. Foi o que terá feito, com o destemor que guiou a sua vida, até ao suspiro final.

vasco riobom disse...

Parabéns.Não conheço o Sérgio Moutinho,mas depois de o ler,tenho a sensação de o ter conhecido.Obrigado