segunda-feira, 18 de março de 2013

Claque

Não era muito dada a "futebóis", embora fosse uma discreta adepta do Futebol Clube do Porto. O marido pedira-lhe para o acompanhar a Lyon, onde os portistas disputavam um jogo com o Olympique local. Acedeu, com a condição de não ir para a tribuna, à qual o marido tinha direito de acesso, mas onde, no passado, ela nunca se sentira excessivamente bem. Assim, concordaram em utilizar bilhetes na bancada.

À chegada ao estádio, o casal foi surpreendido, contudo, pelos lugares que lhes haviam sido atribuídos: a zona da claque portista, dominada pelos "Superdragões". Depois de algum receio inicial pelo inusitado da companhia, ela acabara por achar a experiência algo divertida, naquele ambiente marcado por uma imensa tensão entusiástica, com uma sonoridade agressiva tingida pelo léxico nortenho, dessa vez algo atenuada pelo facto da partida ter sempre corrido de feição para o clube. 

No final do jogo, a bancada dos "Superdragões" mostrava-se exultante e desejosa de abandonar o estádio. Porém, como sempre acontece neste tipo de eventos, e por razões de segurança, fora pedido aos adeptos do FCP para permanecerem nos seus lugares por uns minutos mais, a fim de proceder à sua saída organizada em direção aos autocarros, já depois de estar garantido o afastamento dos adeptos lioneses. Não era fácil para a claque portista aceitar aquela forçada clausura, entre gradeamentos fortes. As "bocas" dirigidas aos responsáveis pela segurança local eram, felizmente, intraduzíveis.

Sossegada em definitivo pelo animado curso dos acontecimentos, a episódica integrante da claque anotava discretamente os comentários, nessa noite feliz para as hostes azuis - talvez imaginando o que eles seriam se acaso o Porto tivesse perdido! Foi então que ouviu, de um adepto mais impaciente, desejoso de sair rapidamente daquela espécie de jaula, num sotaque inconfundível: "Bámus lá! Abride isso, carago! Atáum num fuâram bociês que inbentárum o "passe-vite" "? 

A "boca" perdeu-se no barulho coletivo, mas a sua divertida recordação ficou a marcar essa rara visita conjunta do casal a um estádio de futebol. 

No dia subsequente àquele em que o Porto pode ter perdido na Madeira a revalidação do título, aqui fica esta historieta, que me foi contada, há dias, pelo marido da protagonista, numa conversa divertida por cima do Atlântico. 

6 comentários:

Anónimo disse...

falar dos empates do porto...
isso é mesmo a sportinguista sr. embaixador

Anónimo disse...

Talvez seja o meu coração "azul e branco" a falar, é cedo para tantos foguetes....

N371111


Santiago Macias disse...

Mergulhar numa claque é uma verdadeira experiência de antropólogo. Já me aconteceu, inadvertidamente. Em Lyon.

http://avenidadasaluquia34.blogspot.pt/2008/12/no-meio-da-claque.html

Anónimo disse...

Pelos vistos, com Jesus, o estádio da luz passou a ser a universidade “luzidia”, já que os treinos são autênticas aulas universitárias! Só falta os jogadores vestirem capa e batina. Tinha era que ser vermelha, o que até nem é novidade, porque já se tinha proposto isso logo após o 25 de Abril.
Realmente havia qualquer coisa de inexplicável! Mas agora está tudo esclarecido! O “prof.” diz as coisas certas com as palavras erradas!

Defreitas disse...

Vou ser fuzilado, mas para mim as claques fazem parte duma subcultura , semelhantes a certos grupos de choque anarquistas, dedicados à violência, tanto nos slogans que nos cantos guerreiros, exacerbados por vezes pelos próprios dirigentes dos clubes, alimentando incidentes entre clubes e mesmo antagonismos azedos, quando a arbitragem é desfavoràvel!

Alguns dirigentes são os primeiros a dizer que "o futebol não pode ser menos violento que a sociedade"!

Claro, que sendo organizado numa lógica de afrontamento e de competição, a violência acaba por ser um espelho da sociedade. Nos estádios, mesmo se o simbolismo da guerra não está presente, a guerra está presente. E quando não exacerba as tensões nacionalistas e suscita emoções patrióticas duma vulgaridade e dum absurdo estridentes...

Jogar este espetáculo por atores milionários, perante gente que ganha o SMIG é também uma forma de violência. Aliás, não compreendo como é possível que dum lado atuem desportivos que ganham somas loucas em relação ao nada produzido e que do outro lado, numa sede de identificação ligada à própria miséria, os outros possam sonhar perante esta mercadoria viva que demonstra que se pode içar ao cume da pirâmide.

Sim, eu sei que os pobres famélicos das favelas e do mundo inteiro, vão acompanhar o Mundial do Brasil e vão ser felizes durante uns dias, durante os quais não pensarão à dureza da vida. E também é verdade que o desporto é indiscutivelmente político e gera valores políticos. Nao vale a pena procurar saber se estes valores são de esquerda ou de direita .

J. de Freitas

Anónimo disse...

Rrrrt