sábado, 22 de setembro de 2012

Manifestação


A manifestação patriótica corria a preceito, naquele entusiasmo encenado com que o Estado Novo conseguia, numa sustentada coreografia, colocar o povo nas praças, para as fotografias que, no dia seguinte, "A Voz", o "Novidades", o "Diário da Manhã" (que a oposição citava sempre sem o til) e o inefável "Diário de Notícias" trariam na primeira página, a testemunhar o "inquebrantável apoio de Portugal à política de Salazar". O qual, diga-se, raramente se dignava estar presente nesses exercícios, deixando ao "venerando Chefe de Estado", Américo Tomaz, a função de pobre catalisador das emoções orquestradas. "Paletes" de autocarros, pagas pelo erário, arrebanhavam patriotas ocasionais, de fato e gravata, através das cidades, vilas e aldeias, que eram dispensados dos empregos e tinham ração garantida para o dia, empunhando faixas que espelhavam a imensa diversidade dos "sindicatos" do regime.

Não fosse tudo isso ter, por detrás, uma longa ditadura e uma sangrenta guerra colonial e até poderia ter alguma graça, dando origem a comédias a preto-e-branco. Não sendo as coisas assim, não podendo Peponne discutir com don Camillo, o humor político disponível tinha de ser procurado nos ridículos do regime.

Nesse dia, naquela Braga de onde o efémero Gomes da Costa arrancara num famigerado Maio, concelebrava a mobilização das hostes António Santos da Cunha, uma avantajada figura da "situação", homem de voz tonitruante, que, durante anos, desempenhou as funções com que o regime controlava as coisas por lá: foi presidente da União Nacional, presidente da Câmara municipal e Governador civil. Já não recordo em qual destas duas últimas funções atuava na ocasião em que, como era hábito, ressoavam, nos discursos, saídos da velha varanda bracarense onde aquelas cenas sempre se oficiavam, as imaginativas referências ao Portugal "pluricontinental e pluriracial" ou "do Minho a Timor" (o que vinha geograficamente a jeito), as loas à sabedoria histórica do "senhor presidente do Conselho", no meio do gongorismo retórico com que o regime organizava a turbamulta tresmalhada, sob o olhar fardado dos polícias e os ouvidos, atentos e dispersos, dos "pides".

António Santos da Cunha atiçava, nessas horas, o patriotismo oficioso, com intervenções entre os vários discursos, feitas de menções às figuras presentes ou a quantos fosse importante lembrar na ocasião, apelando às hostes para, individual e nominalmente, os saudarem. O ausente Salazar e o chefe de Estado recolhiam, como era natural, o grosso da coluna dos aplausos e dos "vivas", mas os ministros e outros dignitários presentes recebiam também, à escala da sua importância, uma quota-parte dessas conclamações. Tudo era feito com conta e peso, medido o nível das personagens. Santos da Cunha, que era um hábil profissional desses instantes, sabia bem o que fazia, organizando sempre em pormenor essa estudada improvisação.

Um qualquer obscuro subsecretário de Estado (o Estado Novo só criou a figura de "secretário de Estado" bastante tarde), vindo de Lisboa na comitiva do "venerando chefe de Estado", ter-lhe-á, a certo momento da manifestação, lançado um olhar inquisitivo, como que a demandar que o seu nome também fosse sufragado pelo vozeirão do edil e pelo subsequente eco da multidão. Santos da Cunha olhou-o, e não conseguindo atenuar o seu tom habitual, sossegou-o, à distância, com os "bês" do Norte, numa frase que ficou no anedotário da "situação":

- O "bibinha" de Vocência, senhor subsecretário de Estado, sai já a seguir, esteja descansado!

Desse povo e desse tempo de "bibinhas", deixo uma bela e clássica fotografia de Gérard Castello-Lopes.

6 comentários:

Anónimo disse...

Pois é.... não sei se hoje o método de arregimentar pessoas para uma "manif" seja tão diferente do "antigamente". O que pode ser diferente são os objectivos das mesmas mas... o regime de ontem e o regime de hoje fazem uso delas da mesma forma. Mas... eu não sei

patricio branco disse...

história saborosa a do bibinha, divertida, e havia cenas divertidas então, sendo que as intervenções de americo tomás eram de antologia e a censura tinha de deixar passar...
mas note-se, antes as manifestações de protesto eram proibidas, reprimidas, hoje não são proibidas mas são muito desprezadas pelo poder.
outras coisas interessantes da entrada: d camilo e peppone, a voz, o novidades, do minho a timor

Isabel Seixas disse...

A foto é o máximo parece uma manifestação de pasmaceira protagonizada por um grupo de pasmados vá-se lá saber porquê ou por quem...

Anónimo disse...

De Lisboa só vêm coisas obscuras. Como agora tão intensamente, já nessa época havia destas coisas...
É cada vez mais evidente que o problema do país é Lisboa. (até pareço o Jota Jota).
Mas o entretém da diplomata "catwalk" continua?
Já agora onde se terá "agachado" uma vez que o hotel estava cheio? Imagino muita gente salivando...

Helena Oneto disse...

Este retrato fiel do que foi o Estado Novo merece figurar na Historia do fascismo em Portugal.
Este texto é uma verdadeira joia! Ri com prazer a lê-lo:).
Pena que haja quem não lhe ache graça...

Bien à vous, Senhor Embaixador!

domingos disse...

Esse episódio é, de facto, verídico. Valeu a pena, ao subsecretário, esperar pelo seu "bibinha": o dito ainda exerceu funções de algum relevo político depois do 25A. A fotografia dos mirones do Gérard creio que foi tirada durante uma faina de pesca.