quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Nacionalismo económico

O nacionalismo económico é um reflexo normal em tempos de crise. A tendência para o argumentário protecionista, para o estímulo a consumir preferencialmente o que é "nacional" e, à la limite, a busca tendencial da autosuficiência (ouve-se muito isso, sob o conceito de "segurança alimentar", no debate sobre política agrícola), tudo isso faz parte de uma reação natural num tempo de medos e de incertezas.

Sem negar a importância de tentar reduzir, por todos os meios possíveis, o défice da nossa balança comercial externa, alguma prudência e racionalidade devem ser mantidas neste tipo de discurso: basta lembrar que, se todos os outros procedessem da mesma forma, ninguém consumiria um único produto português no estrangeiro. Ora é unânime o reconhecimento de que é na exportação que reside grande parte da chave para o nosso crescimento. Mas convenhamos que é um pouco irónico estar a apelar ao "patriotismo" dos consumidores quando - como se viu  nos últimos dias - há operadores económicos com uma noção de Pátria bem mais ligada à folha de lucros.

O debate sobre esta temática está muito aceso aqui em França, em tempos de campanha presidencial, com os vários candidatos a falarem nela, em tons diferenciados. Há dias, o presidente Sarkozy fazia uma importante distinção entre o conceito de "comprar produtos franceses" e o de "comprar produtos produzidos em França", dizendo ser favorável a que se privilegie a compra destes últimos (mesmo por empresas estrangeiras que aqui investiram e atuam - criando postos de trabalho, pagando impostos) ainda que em detrimento de que de produtos fabricados no estrangeiro por empresas francesas (fruto de deslocalizações, por virtude de regimes salariais e fiscais mais favoráveis e, eventualmente, de algum "dumping" social). Percebe-se a racionalidade desta tese mas, também ela, se confronta com uma realidade inescapável: muito daquilo que, na área industrial, é atualmente produzido, em França como em outras partes do mundo, nomeadamente nas áreas com maior valor acrescentado, obriga à utilização de componentes importados de países com custos de produção mais baixos, sendo de todo impossível garantir a sua substituição por produtos idênticos gerados em território francês.

A globalização (a que, em França, se chama "mundialização") criou uma lógica de funcionamento coletivo dos mercados que, na prática, limita hoje muito o recurso a medidas de "preferência nacional" através de decisões administrativas ou outras de sentido normativo. E a plena interiorização disso na filosofia da política externa da UE reduziu, também bastante, as possibilidades de recuo para a retoma da antiga "preferência comunitária", tanto mais que a justiça comunitária é de um irreversível rigor. O único espaço que hoje ainda existe, para os países que não queiram violar abertamente as regras a que se comprometeram na Organização Mundial de Comércio, é trabalhar nas margens de recuo que o fracasso do "ciclo de Doha" da organização acaba por dar. Basta ver as medidas que o Brasil tomou nos últimos dias para se perceber o que pode representar uma assumida agenda protecionista nos tempos modernos.

Mas é importante que cada um seja chamado a assumir as suas responsabilidades. Muitos dos que agora protestam contra as consequências negativas deste estado de coisas estiveram, com todo o entusiasmo, ao lado dos promotores das aberturas dos mercados nas liberalizações dos anos 80 e 90, quando isso lhes dava jeito para adubar as loas que faziam ao "internacionalismo dos mercado". Isso era então o salvatério para um mirífico bem-estar coletivo, um espécie de "amanhãs que cantam" do liberalismo, aprendido em MBA anglo-saxónicos ou que em Portugal se esforçam por passar por isso. São os mesmos, aliás, que endeusaram a desregulação "criativa" dos mercados financeiros internacionais, com as consequências que agora se viu. E gostaria de lembrar que quando, por essa altura, alguém se atrevia a falar das condições sociais de produção em certos espaços geográficos (trabalho infantil, regras laborais, limitações sindicais, "dumpings" diversos), era um "aqui d'el rei!" de que se estava a tocar na liberdade de comércio. Agora queixem-se...

13 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Há, como sempre, milhões de toneladas de hipocrisias neste contexto - e noutros. "aqui d'el rei!" de que se estava a tocar na liberdade de comércio. Agora queixem-se... E se calhar, batendo com a mão no peito, queixam-se... Muitos fariseus andam por aí.

Somente uma pequena ADENDA: O mesmo senhor (hoje em Belém, dos pasteis) que quando primeiro-ministro pagou, como executor (testamentário?) da então CEE, aos pescadores para afundarem os barcos e aos agricultores para arrancarem as videiras, hoje apela à produção nacional sobretudo na agricultura e nas pescas. Depois, queixe-se...

XXXXXXXXX

Noutro comprimento de onda: oxalá continue a melhorar e a recuperar. Faz-nos falta e faz falta a Portugal. É que são cada vez mais menos...

Fada do bosque disse...

Como disse Carl Marx, a divisão do trabalho e o comércio Mundial, iriam colocar o Homem numa armadilha mortífera... ele lá sabia.

Fada do bosque disse...

Amigo Henrique essa sua adenda foi de se lhe tirar o chapéu!

"Há, como sempre, milhões de toneladas de hipocrisias neste contexto"
Ora Belém, bate o record! :)

As melhoras rápidas Sr. Embaixador!... que não sabia que está doente.

Anónimo disse...

"autosuficiência" ou "autossuficiência" ?

Anónimo disse...

As exportações, às vezes, são mesmo o mal pior de alguns países! Basta ver como Portugal tem empobrecido, e os atuais governos parece quererem continuar nesta senda, com a exportação de mão de obra que vai frutificar riquezas noutra qualquer economia...
Desculpem-me a comparação mas a exportação de mão de obra em Portugal poderá vir a igualar a "curva" das exportações dos sapatos e das rolhas de cortiça.
José Barros

Anónimo disse...

Escreve-se "autossuficientes" (para não se ler autoZuficientes).

Pela mesma ideia, escreve-se "autorrádio" e não "autorádio".

Anónimo disse...

NAcionalismo Económico ou Economia Nacionalista ?

Eu não tenho tempo de ler o post agora , mas vou apostar que o Sr Embaixador escreveu muito para falar sobre a NOVA ORDEM MUNDIAL que avança sobre nós a passos largos e com violência !

OGman

Anónimo disse...

"Aqui d'el rei!"
Quanto às pessoas que passaram um mau bocado por terem lembrado a dirigentes responsáveis, que se deveria negociar com a China, por ex. as reformas para as mulheres que tantas vezes saiam das fábricas aos quarenta anos... direitinhas para as ruas dos 'Tim-Tins' cozinharem para os moradores mais próximos, para sobreviverem; ou para que os novos grupos de chineses que chegavam ao Sul começassem a gozar férias semelhantes às nossas, com um dinheirinho extra para viajarem até Paris ou Lisboa... Aqui d'el rei! Os chineses só gostam de trabalhar, era o que me respondiam, enquanto iam advertindo que a Madre Teresa de Calcutá, nunca se ocupara com esses problemas... Pois, pois deitámo-nos à sombra... numa Europa que nem bananas produz. Levei tareia até dizer: Aqui dél rei, senhor Embaixador. Mais uma vez agradecida por este espaço de reflexão, cultura e memórias que será no futuro sítio obrigatório de consulta para os que gostarem de se libertar da nossa tacanhez costumeira. Venham os Reis Magos, que hoje é dia de Reis. Venham com votos de boa saúde para o Ano do Dragão do Senhor Embaixador!

Anónimo disse...

De acordo no essencial. Juntaria apenas que o que surpreende é a ingenuidade de certos discursos sobre "patriotismo" e ética empresarial...

Já no que toca a patriotismo sem aspas, do velho e do bom, onde esteve ele quando o governo eleito vendeu à China uma empresa pública essencial à independência energética do país e que actua em regime de quase monopólio? Não deveria o governo eleito ser o garante do patriotismo?

E se examinarmos a questão a fundo, não se torna claro que a forma que foi encontrada pelo governo para legitimamente reembolsar os credores da República põe em causa a independência e viabilidade do país no longo prazo?

Além disso, será possível que o governo desconheça as posições de Nicolas Sarkozy sobre a globalização, e o esforço que este está a fazer para mudar a situação de inferioridade da Europa face à China e aos outros países do dumping social, e que a venda da EDP, qualquer que tenha sido o preço, fragiliza a posição de toda a UE?

A propósito, o presidente francês visita hoje Domrémy-la-Pucelle, a aldeia natal de Jeanne d'Arc, 600 anos passados sobre o nascimento desta figura fundamental dos franceses. Saberá ele que a China já entrou na Europa, e logo pela mão dos seus "amis portugais"?

DL

Fada do bosque disse...

Caro DL,

Desculpe meter-me na conversa, mas não resito...
O Sarkozy pode não saber, mas Kissinger sabe de certeza absoluta.

Julia Macias-Valet disse...

Caro DL,
Entre nacionalismo económico, lei Tobin e visitas à terra da Mademoiselle d'Arc...Sarko ainda se queima ; )

Catinga disse...

Eu acho sempre engraçado como é que ainda há gente que acredita piamente no "jogo limpo" nestas questões...

A falta de ética dos nossos adversários é tal que até tivemos um Presidente da República a pedir, em Espanha, "por favor, 'deixem-nos' ganhar ao menos um concurso". Isto porque nós, na nossa tradicional bonomia, escancarámos o nosso mercado enquanto que os nossos vizinhos fingiram que o faziam. Mas nós somos "puros" e "bons alunos". E o mundo dá-nos a recompensa pela nossa lealdade às regras, não dá?

A preocupação de um português é conseguir o melhor para o seu país. Os outros que se preocupem com o deles. O mundo é uma selva mas há quem ainda não tenha percebido que, na selva, há predadores e presas!!!

Quanto à China: deixaram-na crescer para cima de nós (para gáudio dos acionistas das grandes empresas) e cada vez é mais difícil evitar que ela nos engula. Se um dia nos empertigarmos, talvez tenhamos a Armada chinesa na foz do Tamisa...

Anónimo disse...

Por acaso enganei-me !! O post não era sobre a Economia Nacionalista . A vietnamita na foto induziu-me no erro!

No entanto acho que o apelo ao consumo de produtos nacionais é um apelo ridiculo quando o Nacionalismo está acabado pelas politicas das Uniões ( Europeia, Asiatica, Arabe , African , Americana , etc )
Um politico que assina o Tratado de Lisboa num dia, não pode no dia seguinte ir apelar ao Nacionalismo seja ele qual for. Se esse for o caso , então é porque ele considera os seus eleitores e concidadãos uma cambada de parvos e estupidos e considera ainda que o seu trabalho principal é enganá-los, o que também não é dificil face à generalizada estupidez colectiva , ainda para mais exacerbada ao extremo pela comunicação social .

Concluindo e no caso português, promoveu-se através de subsideos a desindustrialização e o abandono da agricultura em prol dos serviços e agora passados uns anitos, vemos os mesmos protagonistas a mandarem-nos voltar para as terras e semear batatas ! Parece mesmo que os nossos politicos consideram-nos mesmo parvinhos e coitados !


OGman