terça-feira, 13 de julho de 2010

Rui Knopfli

Conheci o Rui Knopfli em Londres, em 1990. Conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal desde 1975, era uma figura prematuramente frágil, nos seus 58 anos de então. Vergado e cansado, pendurado num eterno cigarro, tinha o mais caótico gabinete de que tenho memória. Homem de vícios que o foram debilitando, mantinha uma ironia cáustica e, sendo de trato fácil, era de condução diária difícil, pelos corredores da rotina diplomática a que nunca se acomodara verdadeiramente. 

Eternizado em posto em Londres, aposto que olhava para nós, companheiros episódicos, saídos da "carreira", com o olho arguto do artista, estudando-nos para nos sobreviver, até que fôssemos substituídos. Várias vezes "me passei" com os seus descuidos, das tropelias do eterno cão às suas frequentes ausências, para além de algumas teimosas presenças ainda mais complicadas. Mas nunca me zanguei com ele. Ficámos amigos, creio. 

O Rui era um fotógrafo magnífico - vale a pena ver o seu livro sobre a  ilha de Moçambique - e tinha um ouvido apurado e atento ao jazz, área onde me deu a conhecer algumas excelentes novidades. Da sua terra moçambicana, contava histórias interessantes e divertidas, tributárias desse mundo que sempre lhe ficou nos genes e na escrita.  Como ele próprio dizia: "Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo".

Rui Knopfli foi um grande poeta, português e moçambicano. A sua "Obra Poética" está publicada pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, com um prefácio magistral do Luis de Sousa Rebelo, há meses desaparecido. Para abrir o apetite à sua leitura, nestes tempos de férias, deixo aqui o seu delicioso (e trágico) "Justerini & Brooks":

Este punhal de veludo,
esta fria estalactite,
esta cicuta tão lenta
e que tão profundamente 
fere. Esta lâmina

líquida, doirada,
este filtro parecido ao sol,
este rarefeito odor simultâneo
ao fumo, à água, à pedra.
Este adormecer antes do sono,

só preâmbulo da vigília,
que é o gélido acordar
da imaginação para
as fronteiras dormentes
do horizonte protelado.

Este trajecto subterrâneo e húmido
pelos túneis do infortúnio,
que é o adiar moroso
da morte, no prolongar
silencioso da vida,

lágrimas da noite tornadas
pranto da madrigada,
rumor débil e distante
brandindo já no sangue
o endurecer das artérias.

Rui Kopfli morreu em Lisboa, em 1997.

10 comentários:

Julia Macias-Valet disse...

E porque se lembrou hoje dele ?

Anónimo disse...

E eu a pensar q iria ler algo sobre o 14 de julho!

Anónimo disse...

O meu bom senso acorda na presença dos Grandes...

Rendo-me em abandono displicente e saciado à evidência do oportuno do meu silêncio...

Há retiros
Que denunciam claramente encontros intra pessoais...Que quando extravasam estabelecem um interacionismo simbólico de descoberta mútua...

Gostei mais do seu poema dissimulado de prosa, rendo-me á criatividade e rigor da linguagem oriunda de observador atento auditor de profissional de saúde(o Senhor não andou a estudar!...Hum medicina)

Isabel Seixas
Bem Rui Knopfli

"Morte, no prolongar
silencioso da vida,"

Sublime

Helena Sacadura Cabral disse...

O Senhor Embaixador tem o condão de trazer à minha memória tudo aquilo a que chamo de meu "arquivo morto".
Conheci Rui Knopfli e confesso que me emocionei com a descrição do homem e, sobretudo, dessa dupla lusitaneidade que trazem consigo todos aqueles que, um dia, a vida fez nascer numa terra e viver numa outra.
África e em particular Moçambique, onde nasceu o meu irmão mais novo e onde tenho parte do meu coração, têm essa sublime magia de jamais saírem do sangue que nos corre nas veias!

Anónimo disse...

Para quem não saiba, Justerini and Brook é o nome completo do whisky JB

Anónimo disse...

Justerini & Brooks é mais do que o nome completo do whisky. É a empresa que o fabrica mas que fabrica e/ou distrubui também outros "spirit", incluindo vinho.

patricio branco disse...

não será que nesse poema RK, consciente ou inconscientemente, se referia ao seu trabalho diplomático e a algum tédio que sentiria? Tedio que lhe daria sono antes do sono!
O que mostraria que não estava vocacionado para as funções.
Mas as interpretações, para alem da evidente negrura do estado de animo, podem ser outras.

Por outro lado, muito interessante o testemunho/evocação de SC sobre RK e os seus hábitos.

Fernando Martins disse...

Rui Knopfli nasceu faz hoje 78 anos - o Blog Geopedrados celebrou a data e, num comentário de um anónimo, foi alertado para a existência deste post...

Se o Senhor Embaixador não se importar, iremos reproduzir, citando local e autor, este seu excelente post!

Rui P. Bebiano disse...

Cheguei procurando na net sobre o Rui, um amor antigo que ando a redescobrir. E é triste ver como existe tão pouco sobre a sua poesia. Valha-me ao menos a edição de 82 da Imprensa Nacional!

patricio branco disse...

boa a pergunta de JMV!

RPB. há obras dificeis de encontrar, creio que o poeta editou tb uns livros na ática