terça-feira, janeiro 19, 2016

"Much ado about nothing"

Nos últimos anos, dei aulas sobre prática diplomática a estudantes universitários. Alguns deles eram estrangeiros, o que fez com que, em diversas ocasiões, tivesse de abordar o modo muito diferenciado como cada país leva à prática aquilo que Paulouro das Neves tão bem trata no livro a que, com felicidade, deu o nome de "Rituais de Entendimento".

Um dos temas que sempre verifico que suscita curiosidade nas aulas prende-se com as condecorações que são atribuídas por um país a cidadãos estrangeiros. Se há práticas diplomáticas que é tradicional serem comuns, neste domínio elas divergem de Estado para Estado e cada país é chamado a definir as suas regras próprias, feitas de um historial que lhe é específico. E que, naturalmente, compete aos profissionais de cada diplomacia nacional acatar e respeitar.

Nas últimas horas, vi na internet e na comunicação social uma estranha polémica, aparentemente pelo facto da nossa embaixada em Paris não ter acolhido a entrega de uma condecoração atribuída pelo governo francês a uma determinada personalidade portuguesa.

Atentas as últimas funções diplomáticas que exerci, compreender-se-á que aborde este assunto com extremo cuidado, tanto mais que desconheço, em absoluto, o contexto dos factos. Mas há uma coisa que não posso deixar de afirmar, com a maior clareza: eu teria ficado surpreendido se uma condecoração francesa tivesse sido entregue a um cidadão português, quem quer que ele fosse, nas instalações da nossa embaixada em Paris. Apenas porque não é essa a regra.

Nunca vi - mas admito, modestamente, que possa não ter visto tudo - uma representação diplomática portuguesa acolher a entrega de condecorações oficiais estrangeiras. Posso entender que o agraciado pudesse ter gosto nisso, admito mesmo que o país agraciante pudesse não ver inconveniente em que um território diplomático estrangeiro pudesse ser usado para esse fim. Admito tudo isso, mas um Estado não deve adaptar as suas regras protocolares às vontades pessoais, por mais respeitáveis que sejam, ou a quaisquer práticas estrangeiras. Às representações diplomáticas e consulares portuguesas compete zelar pela observância das regras que são próprias a Portugal. E elas são, nesta matéria, muito claras. Nada disto me parece, sequer, discutível.

Com toda a franqueza, tudo isto me parece "much ado about nothing", como dizia Shakespeare para significar o nosso simples "tanto barulho por nada".

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Italiano

Só tenho um livro em italiano. Comprei-o há muitos anos, era sobre um tema que me interessava bastante e, na minha ingenuidade, pensei que conseguiria lê-lo. Qual quê! O italiano é, para mim, uma língua muito difícil, quase impossível. Por muito que reconheça algumas palavras, não consigo ler longos textos, da mesma maneira que, muitas vezes, vejo-me em palpos de aranha para entender a própria língua falada, ainda que com a ajuda dos gestos que fazem parte da sua coreografia tradicional. 

Hoje, em Roma, entrei numa Feltrinelli, livraria da fantástica editora do mesmo nome. Há muitos anos que me impressiona a variedade e a qualidade da edição italiana! (Para além do próprio país, onde se venderão os livros em italiano? No Ticino suíço ou em alguns bairros de Nova Iorque?). Olhei para tudo aquilo com o ar de um verdadeiro analfabeto. A verdade é que por muito que sempre me agrade espiolhar o cenário das livrarias, em qualquer parte do mundo onde vá, saio sempre um pouco frustrado dos locais onde não consiga comprar qualquer livro. Como me acontece agora, já à saída do voo para Lisboa. 

Trivia

Adoro o conhecimento "inútil". Desde que me conheço que tenho um fascínio, talvez até um pouco adolescente, por um tipo de informação que não tem a menor utilidade, que não seja a satisfação da curiosidade própria. Tenho vários livros sobre "trivia", que tratam de tudo e de mais alguma coisa. Os mais céticos chamam a isto depreciativamente "cultura de almanaque", mas a mim é-me completamente indiferente a sua opinião. Continuo, por exemplo, nesta busca incessante de resposta para essa questão "grave" e polémica que é a origem da expressão "OK", embora já tenha descoberto a razão pela qual os barcos de turistas no Sena se chamam "bateau mouche". Eu sei que o "tio Google" hoje responde (embora às vezes com respostas contraditórias entre si) à maioria das perguntas, mas eu sou de outro (glorioso) tempo, das discussões intermináveis da mesa da Gomes em Vila Real ou da "sala verde" do velho ISCSPU da Junqueira, acabando nas noitadas do Montecarlo ou do Procópio. Nada se equipara a uma boa discussão, por tudo ou por nada, principalmente por nada.

Ontem, no final do almoço (segui o conselho do papa Francisco, o qual, do alto da janela na praça de S. Pedro, nos havia recomendado, minutos antes, "buon pranzo a tutti"), tive uma conversa com o dono de uma "trattoria" romana e, já não sei bem a que propósito, veio à baila a palavra "tedesco", estranho termo com que os italianos se referem aos alemães. Não falo uma linha de italiano (entendo alguma coisa, mas não passo do "arriverderci" ou da "buona notte"), mas andava há anos com a curiosidade de conhecer a origem da expressão. O homem, pessoa culta que falava um francês magnífico, fruto da emigração que lhe permitiu amealhar para comprar a casa, mostrou-se tão intrigado como eu. E lá andámos nós, entre um "lemoncello" que acabou por ter de duplicar-se, à procura da etimologia da palavra. E que descobrimos? Que a palavra tem origem na designação de uma língua medieval alemã, o "theodisce", utilizada popularmente, e que significava precisamente "do povo". É aliás a partir do final dessa palavra que nasce o conhecido "deusch". 

As coisas que se aprendem quando se quer saber! Estava eu a pensar nisto, para fazer a nota para este blogue, quando deparei com uma reportagem com os golos da jornada futebolística italiana na televisão. Fiquei preso ao écran por uns minutos, até que, nesta língua cheia de "is" que é o italiano, ouvi a conhecida expressão "calcio" para designar futebol. E lá vou eu à procura da razão que leva a Itália a usar uma palavra tão diferente da generalidade das línguas conhecidas, para se referir ao mais belo jogo do mundo...

domingo, janeiro 17, 2016

Comunicação social

Não aprecio muito as análises sobre a comunicação social que assentam na presunção mecanicista de que a orientação dos "media" depende quase exclusivamente das pessoas escolhidas para os dirigirem. Uma avaliação deste tipo pressupõe que o corpo redatorial desses jornais, rádios ou televisões não passa de meros "paus mandados", sem coluna vertebral deontológica, que se vergarão às determinantes que lhes vierem a ser impostas, sem um mínimo de resistência se acaso lhes vier a determinada uma inflexão enviesada na linha informativa. Também resisto a pensar que certos profissionais nomeados para lugares de chefia nesse órgãos, conhecidos pelas suas posições mais à esquerda ou à direita, tendem a que essa sua orientação ideológica se sobreponha em absoluto ao seu compromisso profissional com a verdade. 

Penso tudo o que escrevi. Mas a vida e a experiência também me ensinaram a já não ser excessivamente ingénuo neste tipo de questões, "if you know what I mean".

sábado, janeiro 16, 2016

Remunerar o trabalho

Desde que, há cerca de três anos, regressei definitivamente a Portugal, tenho vindo a ser convidado a estar presente em colóquios ou palestras, sobre temas em que, aparentemente, se considera que posso dar alguma contribuição com interesse, normalmente sobre temas de natureza internacional, mas não só. 

Na medida da minha disponibilidade, faço-o sempre com gosto, embora algumas dessas prestações deem, por vezes, bastante trabalho a preparar. Não raramente, esses eventos têm lugar fora de Lisboa, implicando deslocações, por vezes longas e cansativas. Nesses casos, quem convida prevê, muitas vezes, alojamento e, em algumas ocasiões, as refeições e o transporte. Porém, só em situações muito pontuais a presença nessas tarefas inclui o direito a uma qualquer remuneração, ainda que pequena, ou o pagamento de um qualquer per diem

A experiência mostra que, em muitos países, as coisas se passam de forma diferente: quem é convidado a falar recebe, por regra, uma remuneração por esse trabalho, por vezes mesmo uma quantia significativa, outras vezes um valor pouco mais que simbólico. Mas há quase sempre um determinado montante, às vezes umas escassas centenas de euros, como forma de retribuir o trabalho executado. Por vezes, como já me aconteceu nos Estados Unidos, na Polónia, na Coreia do Sul, na Alemanha e em outros lugares, torna-se mesmo obrigatório aceitar esse montante, não podendo os oradores dispensá-lo. 

Por que será que, entre nós, as coisas se passam quase sempre como se fosse natural que o trabalho pro bono devesse ser a regra? Será que se considera que somos nós que nos devemos sentir honrados com o convite? Nesse caso, "à la limite", talvez devêssemos ser nós a pagar alguma coisa! Ou será porque se entende que quem é convidado a falar tem recursos suficientes para dispensar ser recompensado pelo seu esforço? Conheço pessoas que, entre nós, já só se disponibilizam para falar em público mediante remuneração. E, infelizmente, também já assisti a casos em que oradores não remunerados estavam sentados lado a lado com outros pagos para a mesmíssima tarefa.

Posso perceber que, tratando-se de instituições sem fins lucrativos ou de natureza beneficente, a gratuitidade possa ser solicitada. Mas já compreendo menos bem que, quando há uma "sponsorização" dos eventos, por parte de entidades públicas ou de empresas, neles não esteja prevista uma qualquer remuneração para os oradores, repito, mesmo que não seja muito elevada. E em especial não consigo entender muito bem que, quando os organizadores desses eventos são profissionalmente remunerados para os prepararem e gerirem, possam legitimamente pedir a alguém que convidam para falar que se disponibilize a nada receber.

Lembrei-me disto ontem, aqui em Roma, onde vim falar a convite de uma determinada entidade. Transportes (mesmo em Lisboa, até ao aeroporto e no regresso a casa), alojamento e todas as horas de trabalho que executei foram devidamente compensadas monetariamente. Não foram números muito expressivos, mas representam o respeito devido pelo labor na preparação de uma conferência e em algumas horas de debate especializado.

É assim que as coisas devem ser e espero que, cada vez mais, entre nós também comecem a ser assim.

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Bola ao centro

Recomeça o jogo no CDS. Um novo líder agarra o testemunho de uma formação que o destino condenou a nunca poder ser o maior partido.

Num dia de dezembro de 1974, uma delegação do CDS expôs ao Movimento das Forças Armadas o problema existencial que afetava o partido. O CDS fora estimulado a organizar-se pelo presidente Spínola, Freitas do Amaral integrara o Conselho de Estado, mas o CDS não ingressara nos governos provisórios (não viria a fazer parte de qualquer deles, até 1976). A sua legalidade era indiscutível e o seu programa era compatível com os princípios da Revolução (teria graça relê-lo hoje). No entanto, o CDS defrontava crescentes dificuldades de organização (comícios boicotados, sedes assaltadas, militantes ameaçados), sob a aparente indiferença das forças da ordem.

Recordo bem a intervenção de Vitor Sá Machado: o CDS pretendia acolher quem não se reconhecia à esquerda (na altura, afirmar-se "de direita" era quase tabu), dar a esse setor um espaço democrático de expressão e, por essa via, "servir o 25 de abril”. Porém, para tal, necessitava de saber se as Forças Armadas estavam dispostas a dar garantias para a sua existência, se o partido poderia, ou não, ter condições de se estruturar em liberdade. Deixou subentendido que, se acaso o CDS desaparecesse, haveria o risco de determinados meios mais conservadores poderem optar por se colocarem violentamente fora do sistema

A delegação do MFA era chefiada pelo (então) tenente-coronel Franco Charais (eu estava lá como militar). Assegurou que o CDS tinha todas as condições para continuar a existir, parte das dificuldades do partido deviam-se ao facto de muitos dos seus aderentes serem antigos apoiantes da ditadura. Fixei uma frase: "Um outro partido de direita, como o PPD, também tem esse problema"...

O CDS fez entretanto o seu percurso. Enquadrou o desespero dos "retornados", escapou à "poluição" das derivas bombistas do MDLP e do ELP, conjugou verdadeiros democratas com reacionários assumidos. Integrou governos, esteve em riscos de apagamento parlamentar (fase do "taxi"), vagueou por lideranças contraditórias. Foi do federalismo europeu ao discurso eurocético radical, da democracia cristã ao neo-liberalismo. Defendeu pensionistas e justificou os cortes que os atingiram, diabolizou os impostos e subscreveu a mais violenta carga fiscal. Às vezes, as caras que titularam essas fases políticas foram diferentes, outras vezes, o mesmo figurante fez os dois papéis.

Uma coisa o CDS nunca fez: assumir causas de extrema-direita, xenófobas, racistas, ultra-securitárias ou discriminatórias, nomeadamente no plano religioso. Só podemos esperar que a nova liderança seja digna deste património.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Boa memória (2)


Há pouco, ao apanhar um táxi para o aeroporto, ainda tive a esperança do carro ser conduzido por este conhecido motorista, que chegou "à praça" lisboeta em 1989. Não era. É que, nos dias que correm, já tudo é possível...

Outros presidentes

Foto de Margarida Lima

Nesta cidade de Lisboa, há umas tertúlias simpáticas, que juntam gente muito diversa, que convida para almoçar ou para jantar uma figura pública que se dispõe a falar sobre a sua atividade ou sobre um tema específico, havendo depois um diálogo alargado com os circunstantes. 

Faço parte de algumas dessas tertúlias. O compromisso dos convidantes é que o que por ali se disser é "sagrado", não vem a público. Até hoje, nunca vi essa regra desrespeitada.

Há semanas, jantei num desses "cenáculos" com o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina. Ontem, tive o gosto de almoçar com o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira.

Ao ouvi-los falar sobre as cidades que gerem, os respetivos problemas, as questões com que se confrontam e os planos que têm para elas, apetece-me utilizar a frase "histórica" do capitão Fernandes, em 1975, no auge do PREC, quando perguntado sobre o destino das armas que tinha desviado de Beirolas: "Estão em boas mãos!"

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Istambul


Há não muito tempo, depois de fazer uma palestra em Antália e de reuniões em Ancara, tomei a decisão, antes do regresso a Lisboa, de passar um dia em Istambul.

Parti de Ancara num voo bem matutino, instalei-me num hotel perto da Aya Sofia e, durante 11 horas (é verdade!), flanei sozinho pela antiga Constantinopla (ser filho único ajudou-me sempre muito a gostar de andar comigo mesmo). Almocei no restaurante da estação tornada famosa pelo Expresso do Oriente (de onde Gulbenkian partiu, em fuga, quando jovem), comprei castanhas pela rua, visitei mesquitas (nunca tinha ido à Suleimaniye), perdi-me no mercado das especiarias, fiz o clássico passeio de barco pelo Bósforo (onde tive uma curiosa conversa com um médico iraniano, que por aqui contei), vi o sol a pôr-se à passagem pelo palácio Dolmabahce, galguei até às alturas de Galata, com pausa para um copo no bar do Pera Palace, calcorreei toda a Istiklal até à praça Taksim (lembrando os confrontos, não muitos meses antes) e não resisti ao cliché de tomar o famoso elétrico de volta. Jantei muito bem, por ali, para o tarde, num restaurante moderno, com uma livraria acoplada (tudo publicado em turco, infelizmente...), com imensa gente, música ao vivo, acompanhado de um tinto búlgaro que me soube pela vida. A noite estava quente, desci no funicular, parei uns minutos na ponte, na travessia para a cidade velha, para observar a sorte dos seus eternos pescadores. Apenas por cansaço, tomei um taxi no percurso que me restava até ao hotel, não sem antes ter bebido um sumo de limão gelado num boteco tradicional. Um dia turístico barato, numa imensa tranquilidade, numa das mais vibrantes e belas cidades do mundo.

Senti-me então em Istambul em completa segurança, como sempre me recordo por lá. A cada vez, desde a primeira visita nos anos 80, a expressão islâmica no vestuário das mulheres acentua-se a olhos vistos - como aliás acontece no Cairo, em Tunis, mas muito pouco em Argel.

Se há cidade que, sempre que posso, recomendo a todos os meus amigos para visitarem é Istambul. Ontem, um terrível atentado vitimou turistas na cidade, na zona de Sultanahmet, junto ao hotel onde fiquei. Sinto raiva ao pensar que o terror começa a retirar ao mundo o usufruto das suas maravilhas.

Educação


Em matéria de modelos educativos ou de sistemas de aferição de conhecimentos, tudo o que sei resume-se à minha experiência, letiva ou consultiva, no ensino superior. Não tenho opinião nenhuma sobre os restantes graus de ensino, até porque, familiarmente, não sofro "na pele" os efeitos das decisões que são tomadas neste âmbito.

Uma coisa sei, porém, de ciência segura: não pode estar bem um setor que anda permanentemente para a frente e para trás, onde há décadas se não estabilizam os métodos, onde o que era bom ontem passa a ser mau amanhã e vice-versa. Com os diabos: será que não é mesmo possível, pelo respeito devidos à formação das novas gerações, haver uma espécie de um "pacto" entre a(lguma)s forças políticas que estabilize o tratamento deste tipo de questões, dando à opinião pública a certeza de que as coisas permanecem "quietas" por algum tempo?

Pedro Coelho (1941-2016)


Este blogue não tem vocação para se tornar num registo obituário, mas há nomes cuja desaparição é tão marcante que se torna impossível deixar de registar.

Pedro Coelho é uma figura cuja postura me habituei a admirar, desde há décadas. Militante clandestino da Acção Socialista Portuguesa e, mais tarde, do Partido Socialista, de que foi fundador, era um democrata e um homem que faz parte da história dos socialistas portugueses. Constituinte em 1975, passou por experiência governativa e parlamentar, mas optou por manter-se ativo na vida económica privada, a que nunca deixou de ser dedicar. Era uma figura de extrema simpatia, educado, sociável e, curiosamente, aparentava ser bastante mais novo do que na realidade era. Mantínhamos uma relação pessoal de extrema cordialidade, reforçada por amigos comuns que ambos prezávamos.

Deixo aqui uma fotografia de Carlos Gil, que, seguramente, lhe dizia muito: no dia 25 de abril de 1974, falando por um megafone em frente ao quartel do Carmo, tendo a seu lado João Soares e Francisco de Sousa Tavares.

terça-feira, janeiro 12, 2016

Ana Lourenço


Ana Lourenço anunciou que vai sair da SIC Notícias.

Qualquer que venha a ser o seu futuro, apenas desejo que possa continuar a praticar o jornalismo rigoroso, sem concessões, a que há muito nos habituou. É uma jornalista por quem fui entrevistado diversas vezes e por quem tenho um grande respeito e admiração. Prepara muito bem os temas, lida com elegância e sobriedade com os seus interlocutores, não é gratuitamente agressiva ou "excitada", controla bem os debates e não permite o "enviesamento" das discussões, sem, no entanto, deixar de colocar sempre as questões essenciais. 

Tenho pena pela SIC Notícias, uma grande estação de televisão, que recentemente também perdeu António José Teixeira como diretor de informação, igualmente um profissional "de mão cheia". O que se passará em Carnaxide?

O crava do Chiado


Há quase dois anos que deixei de o ver. Lembrei-me dele há minutos, junto ao seu ponto geográfico favorito "de ataque", um pouco acima da Bertrand do Chiado. Andava na casa dos cinquenta, tinha óculos, era alto, magro, sorridente, muito bem falante, claramente culto e tinha uma técnica magnífica: não nos interrompia o passo, colava-se a nós e começava a debitar, numa voz bem audível à volta, uma nossa breve síntese curricular, bem construída e sempre exata, que durava cerca de quinze segundos (sei isto bem porque caí na esparrela, aliás consentida, aí umas cinco vezes): "Boa tarde, Francisco Seixas da Costa, antigo secretário de Estado dos Assuntos europeus, que está embaixador de Portugal em (dizia o posto certo) e escreveu há dias um artigo sobre (...)" e adiantava mais duas ou três informações, seguramente tiradas de um qualquer jornal (nem me atrevo a imaginar que tivesse acesso ao Anuário do MNE!). A maior surpresa, mais do que saber o meu nome, era ele ter dados informativos atualizados sobre mim, tanto mais que, no meu caso, que vivia então no estrangeiro, passavam-se meses em que não subia a rua Garrett. E dizia tudo aquilo em voz bem alta, o que me embaraçava um pouco perante quem nos cruzava, pelo que sempre me apressava a deitar a mão à carteira, para corresponder à frase final com que complementava o sonoro CV: "Pode deixar uma notinha para ajudar aqui este seu amigo?".

Já encontrei várias pessoas que foram objeto desta tática de abordagem pela mesma personagem. Um dia creio que alguém chegou a dizer-me quem ele era. Que será feito do homem? Não que me apeteça minimamente ser cravado de novo, mas - é da idade, com certeza! - começo a cultivar com algum carinho a memória destas figuras bizarras da fantástica cidade onde tenho o privilégio de viver. E o Chiado estava hoje com uma luz imbatível... 

António Monteiro Cardoso (1950-2016)

Um dia, numa entrevista, dei-me conta de que o António tinha, como "lugares de sonho" cidades que me eram, em absoluto, comuns: Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e Sabará. Seria por sermos ambos transmontanos? Talvez, mas nunca falámos sobre isso. Aliás, longamente, falámos muito poucas vezes, embora comungássemos muitas outras coisas, como era o caso do futebol.

Já não sei como nos conhecemos. Terá sido nos anos 80, creio. Seguramente, através da Ana e, depois, também da Joana. Recordo que lhe escrevi um dia, a felicitá-lo pelo excelente (e surpreendente) "Boas fadas que te fadem". Guardo uma troca de notas sobre isto.

Ontem, regressado a Lisboa, a meio de um jantar, fui surpreendido pela notícia da morte de António Monteiro Cardoso. Sabia-o doente. Não nos víamos há bastante tempo, porque as nossas vidas são o que são e, às vezes, só as mortes nos juntam.

Recordo o António como um homem caloroso, de sorriso aberto, por onde perpassava sempre alguma ironia. Saído dessa escola agitada que foi Direito de Lisboa em 1975, ex-MRPP, depois de se deter no Direito da Informação, ao tempo em que trabalhou com o Alberto Arons de Carvalho, o António passou posteriormente a dedicar-se à Historia, onde fez uma obra diversa mas muito interessante, chegando mesmo a colaborar com o António Pinto da França, no tratamento da reedição das suas "Cartas Baianas".

Era um homem de uma grande cultura, de palavra fácil e sólida, escrevia muito bem e tinha uma visão algo "renascentista", que a sua e minha geração (o António, contudo, era mais novo do que eu) foi a última, entre nós, a cultivar.

O António desaparece agora. É hoje enterrado em Freixo de Espada-à-Cinta. Tenho pena de nunca ter discutido com ele o seu conterrâneo Guerra Junqueiro. Tenho a certeza de que iria aprender bastante e, tenho para mim, ele estaria seguramente de acordo com o meu pai, que sempre se recusou a considerá-lo um "poeta menor".

Neste dia triste, deixo um beijo sentido para ti, Joana.  

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Memórias


Numa livraria do aeroporto de Madrid, acabo de deparar com as memórias de Jorge Dezcallar, um diplomata espanhol que conheço pessoalmente e que teve um percurso profissional muito interessante, com uma passagem pelos serviços de "intelligence" do seu país. 

Comprei o livro, claro, e vou lê-lo logo que possa. Para colegas de profissão, é sempre curioso tentar perceber o que cada um retirou da sua experiência, o modo como "leu" o seu papel na execução das políticas dos seus governos e, muito em especial, as "learned lessons" dos contactos e das histórias vividas, nos diversos países onde operou. 

Pela minha experiência de leitor compulsivo deste tipo de obras, o saldo destes exercícios é muito variado. Já li memórias fascinantes de diplomatas que ficaram longe de atingir o topo das respetivas carreiras, mas que foram capazes de produzir relatos interessantes e instrutivos. E também já tive grandes deceções em face de escritos de colegas, que embora altamente qualificados, não conseguiram "decantar" nada de especial daquilo que testemunharam ou vivenciaram. 

Há dois defeitos tradicionais neste tipo de memórias. 

O primeiro prende-se com a qualidade da escrita: em todo o mundo, nem sempre os melhores embaixadores são os que melhor escrevem e até se suspeita que alguns grandes diplomatas não arriscam escrever relatos da sua experiência profissional por não terem a certeza de conseguir produzir um trabalho que se situe à altura do prestígio que conseguiram. Muitos diplomatas não têm uma escrita apelativa para um público fora do "métier", por se terem entretanto aculturado a um "oficiês" pouco interessante. E isso pode inibi-los de meterem mãos à escrita.

O segundo liga-se ao bom-senso. Como se diz na minha terra, alguns diplomatas, aliás como ocorre com muitos outros profissionais, "não se enxergam", isto é, não conseguem relativizar o seu papel e tendem a colocar-se "em bicos de pés", não percebendo que, na esmagadora maioria dos casos, são apenas atores secundários, quando não meros figurantes, por melhores profissionais que sejam, de uma "peça" em cujo cartaz figuram em letra necessariamente pequena. O equilíbrio é uma arte difícil, não sendo fácil ter o sentido da medida. Uma coisa é clara: nunca seremos os melhores juízes de nós próprios.

Diplomata ... de carreira!


Nem sempre as viagens regulares que, por décadas, fiz entre Lisboa e a minha terra, Vila Real, se passavam placidamente em belas autoestradas, como hoje acontece. Nos dias que correm, quaisquer três horas e pouco são suficientes para o percurso. Nos anos 60, cinco horas era já um verdadeiro "record" do Guiness.

Um dia do início dos anos 80, ao tempo em que vivia na Noruega, li num jornal que a companhia de transportes coletivos nortenhos sedeada em Vila Real, a nossa clássica "Cabanelas", inaugurara uma nova carreira "expresso", anunciada como podendo fazer o percurso a partir de Lisboa em bastante menos de quatro horas. Tratava-se de uma viagem sem paragens e, como imensa novidade para a época, a viatura tinha televisão (é uma força de expressão: só se viam fugazes e difusas imagens, logo entrecortadas por imensos riscos) e uma casa de banho, sendo que esta última era inovação era rara em transportes coletivos do Portugal de então. Numa das minhas deslocações a Portugal, decidi experimentar este "expresso".

Em Lisboa, ao entrar no autocarro, deparei com um motorista conhecido, junto de quem procurei inteirar-me da verosimilhança da informação sobre o "fabuloso" tempo de decurso da viagem. Perguntei então ao homem se sempre era verdade" que faríamos aquele horário ambicioso. O motorista, em voz baixa, foi muito claro: "nem o Sidoninho, se estivesse aqui sentado, conseguiria fazer esse horário". O "Sidoninho" era o Sidónio Cabanelas, conhecido corredor de automóveis, filho do proprietário da empresa, pessoa de quem eu era amigo e que viria a falecer, pouco tempo depois, num cobarde atentado à bomba.

A viagem confirmou-se, realmente, tão rápida quanto a qualidade das estradas de então o permitia. O condutor fez mesmo algumas verdadeiras "loucuras", tentando não se distanciar demasiado do impossível "target" horário que a publicidade da "Cabanelas" promovia. Já a viagem ia adiantada, decidi ir à tal casa de banho  um cubículo ínfimo, que implicava una coreografia complexa, para os motivos que ali nos conduziam. Não atentei, porém, em que parte do percurso estávamos. Ora nós tínhamos entrado, precisamente, numa zona hipercurvosa, à saída do Buçaco. Assim, de pé, naquele estreito espaço, vi-me de repente atirado contra uma das paredes. Mal acabara de conseguir equilibrar-me, logo me senti projetado em sentido precisamente contrário. Fiquei meio zonzo! Não entro em mais pormenores, para que o meu embaraço de então não fique por aqui mais sublinhado...

À chegada a Vila Real, uma hora e tal depois, vinha enjoado, nervoso e cansado, pelo incómodo da viagem e pela angústia que que constantemente sentira, pela pouco razoável velocidade utilizada.

Na cidade, ao sair do autocarro, aguardava-me o meu pai. Viu o meu estado destroçado, sorriu e saiu-se com esta "tirada" que guardei para sempre: "ora aqui está um verdadeiro "diplomata... de carreira"!

Ontem, numa viagem bastante rápida num pequeno autocarro por montanhas da Colômbia, lembrei-me, por qualquer razão, daquele ambicioso "expresso" da saudosa "Cabanelas", a empresa de transportes que, por muitos e bons anos, nos abria as portas de Vila Real para o mundo. Aproveito para enviar um abraço à Márcia, acabado que foi o ano em que perdeu o seu pai e fundador da "Cabanelas" e quando se aproxima a data em que, há 27 anos, perdeu também o seu irmão Sidónio.

domingo, janeiro 10, 2016

América Latina


Dentro de menos de uma semana, a convite do Colégio de Defesa da NATO, vou a Roma proferir uma palestra sobre as questões de segurança na América Latina. Por uma curiosa coincidência, passei estes últimos quatro dias em outras tantas cidades deste subcontinente. Por mais curtas que sejam estas experiências, mas se estivermos bem atentos, conseguimos sempre extrair destes contactos, em especial das conversas que aqui ou ali vamos tendo, elementos úteis que nos ajudam a refletir sobre as perceções que já temos sobre esta muito complexa realidade.

Há quatro temas que, em permanência, vêm ao de cima neste tipo de contactos. 

Desde logo, as perspetivas sobre os diferentes modelos democráticos da região, o modo como se comportam no enquadramento de realidades históricas, económicas e sociais mutantes e muito diferentes entre si. É curioso observar, nos dias que correm, o modo como estão na agenda das preocupações as disfuncionalidades do modelo político brasileiro, a quase exaustão do formato venezuelano e a grande curiosidade que rodeia o modo como no sistema argentino se vão enquadrar as novas tendências emergentes na Casa Rosada de Buenos Aires.

Um segundo tema é, como não podia deixar de ser, o "parceiro" permanente de todo o subcontinente: os EUA. O "amigo americano", por muito "amigo da onça" que seja para alguns, é um dado incontornável neste complexo puzzle. Por essa razão, não é por aqui indiferente se Trump se afirma como candidato republicano e são naturalmente lidos com muita atenção todos os sinais que permitam antecipar atitudes de uma possível administração Clinton.

A segurança, por estas áreas, tem menos a ver com o papel (sempre relativo) da América Latina nos grandes equilíbrios mundiais - não há por aqui armas nucleares ou de destruição maciça, nem graves conflitos potenciais à vista - e muito mais nos riscos em matéria de "segurança humana" decorrentes das grandes desigualdades, da pobreza e das tensões sociais. Mesmo o tráfico de droga terá já descido uns furos nessa agenda de preocupações.

Finalmente, a crise económica mundial, o papel dos emergentes na ordem institucional que a enquadra no plano multilateral está muito presente nas conversas. Por onde vamos? Que futuro para os intercâmbios comerciais com a Europa? Que efeitos colaterais trará a parceira transatlântica, se vier a ter "pernas para andar", para uma América Latina que já vive polarizada, em termos comerciais, por uma promissora Aliança do Pacífico e um Mercosul que parece imitar, em termos de resultados, o triste destino do "ciclo de Doha" da OMC?

sábado, janeiro 09, 2016

"Reformar a Administração Pública"


O "Público" de hoje insere uma reflexão sobre o tema em epígrafe, para a qual gostaria de chamar a atenção dos leitores deste blogue. São autores do texto Fernando Bello, João Ferreira do Amaral, João Costa Pinto, João Salgueiro, José Manuel Felix Ribeiro, Miguel Lobo Antunes e eu próprio.

Este documento é resultado do aprofundamento daquela tema, feito com a audição de diversas personalidades altamente qualificadas no setor, sendo que o texto apenas vincula os seus subscritores.

Desde há mais de três anos que o grupo que deu origem a este documento tem vindo a organizar, com o apoio da Culturgest, um conjunto de iniciativas, algumas das quais com expressão pública, em torno de grandes questões que atravessam a sociedade portuguesa e o papel do Estado no seu seio.

Leia o texto aqui

Dos apoios

Durante o debate de ontem com Maria de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa, a propósito das negociações europeias, mencionou o meu nome, referindo a minha suposta qualidade de apoiante de Maria de Belém.

A verdade dos factos é muito importante. E a verdade é que, até hoje, eu nunca assumi apoio a qualquer um dos candidatos a estas eleições presidenciais, entre os quais se inclui a minha amiga Maria de Belém.

Os anglo-saxónicos chamam a isto "to set the record straight". É o que agora aqui faço.

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Presidência?


A Holanda assume a presidência semestral da UE. Alguém vai notar? Berlim saberá? 

Mota

O grupo Mota-Engil comemora este ano os seus 80 anos.  Na sua história de sucesso empresarial, à figura pioneira de Manuel António da Mota v...