É uma evidência que a União Europeia e a zona euro estão
hoje, no tocante aos seus mecanismos de regulação, muito melhor equipadas do
que estavam nos tempos conturbados da crise financeira. Os diversos
instrumentos de ajuda postos em funcionamento, associados aos passos que já foi
possível dar na União Bancária, foram importantes para uma certa acalmia que
regressou aos mercados. E, pense-se o que se pensar do Tratado Orçamental, é
óbvio que ele teve um papel não despiciendo no ambiente que hoje se vive,
porque reforçou a confiança num Pacto de Estabilidade e Crescimento que parecia
ferido de morte. Dito isto, falta dizer o essencial: sem a política indutora de
estabilidade posta em prática por Mário Draghi no Banco Central Europeu, as
coisas não estariam tão sólidas como hoje parecem estar. Esses gestos começaram
por uma determinação política e prolongam-se hoje no quantitative easing que era impensável para alguns há não muito
tempo.
A Europa acorda sempre tarde para as crises e só na
iminência dos desastres reage, o que lhe dá um eterno ar de andar a correr
atrás dos acontecimentos, tendo depois de pagar um preço muito superior ao que lhe
teria custado uma intervenção atempada. Mas há uma razão simples para esse
procedimento, por muito que ele pareça irracional. Os dirigentes dos Estados
membros da UE e da zona euro não têm mandato político para colocarem no terreno
medidas que não sejam pressentidas pelos seus parlamentos e eleitorados como
essenciais à defesa dos seus interesses e à sobrevivência do projeto comum. Só
perante ameaças “existenciais”, a Europa pode ser conduzida a reagir. A “saúde
pública” do projeto europeu não contempla, em regra, o estabelecimento de
medidas de “profilaxia” que possam prevenir “doenças” ainda não disseminadas.
Esta política de “casa roubada…” tem um forte custo, mas é a única que se tem
mostrado compatível com o processo democrático.
Na história recente da União, as coisas têm sido sempre
assim. Por isso, não devemos estranhar que, por Bruxelas, a verdade seja por
vezes aquela que um dirigente desportivo por cá lapidou um dia: “o que é
verdade hoje pode não o ser amanhã”. É evidente que o sismo que a Grécia
provocou na Europa tem uma natureza diferente de tudo aquilo a que as suas instituições
estão habituadas a reagir. A Grécia deu ares de estar a funcionar “fora da
caixa”, porque colocou questões numa matriz diversa da que está nos “manuais”.
Mas a Europa tem uma sabedoria maior do que vulgarmente se
pensa. Nas horas que correm, interroga-se sobre o limiar de intransigência da
Grécia, tentando perceber como lhe será possível negociar algo que seja um face saving para ambas as partes. Se
Atenas der algum espaço de manobra, a Europa encontrará uma solução. Foi sempre
assim, recordem-se.
(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")
