terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Que fazer?


Já lá não ia há um bom par de anos. Começa a fazer parte daquele tipo de restaurantes onde só volto quando verdadeiramente me esqueci da má impressão com que fiquei, da última vez que lá fui.

Há restaurantes maus ou medíocres a que regresso apenas por razões sentimentais - ou porque gosto muito dos donos ou porque vou com amigos a quem não quero dizer que não ou porque me dá jeito, por uma qualquer razão, pousar episodicamente por lá. Nesses, sei, à partida, que a experiência gastronómica vai ser desastrosa e, talvez por essa razão, valorizo ao máximo qualquer menor ponto que saia menos mau: "Olha! As batatas fritas até que nem estavam nada más!" ou "o pão e as azeitonas aproveitavam-se" ou "o café estava bom!" ou coisas residuais assim. Visito esses locais, como disse, por sentimentalismo ou por facilidade ou por oportunidade. Alguns são aquilo a que eu chamo restaurantes "sustentadamente maus": têm um nível de mediocridade à prova de bala ou de melhoria, os donos são já honestamente incapazes de perceber a falta de qualidade daquilo que nos servem e, pelo contrário, dizem com a maior candura que "as pataniscas, hoje, estão excecionais" - para depois nos chegar uma coisa amassarocada, com fiapos de bacalhau, altíssima, frita num óleo reciclado.

Mas este não. Este é um restaurante que já foi bastante bom, que teve nome, onde me desloquei várias vezes, ido de longe, com prazer, pela certeza segura de ir lá comer bem. Depois, as coisas começaram a "descarrilar". Há uns anos, ao tempo em que escrevia uma crónicas gastronómicas para a "Sábado", fiz uma visita "profissional" ao local. Ia com alguma esperança. Frustrada. No final, paguei a conta do meu bolso e acabei por não escrever nada. 

(As revistas e os jornais para os quais escrevo críticas gastronómicas só pagam se eu elaborar um texto para ser publicado. Ora eu só escrevo sobre aquilo que gosto; se não gosto de um restaurante, não digo rigorosamente nada sobre ele. Não quero correr o risco, irresponsável, de poder contribuir, com uma crítica negativa, que às vezes pode ter sido causada apenas por um mau momento da casa, para afetar um investimento e pôr em causa um negócio e postos de trabalho.)

Hoje, voltei ao tal restaurante. Comi mal? Mal não comi. Comi "assim-assim-para-mal", paguei excessivamente e, havendo por aí tantos restaurantes onde se come garantidamente bem, combinei comigo mesmo que nunca mais vou repetir aquela experiência. Ao despedir-me do simpático dono, a quem não fiz o mais leve comentário, tive a estranha sensação de estar a dizer o derradeiro adeus a um velho conhecido, que parte emigrado para a Austrália, a quem, com toda a certeza, nunca mais verei. Mas tem que ser assim.

(Qual é o nome do restaurante? Não digo, claro!)

3 comentários:

Anónimo disse...

"aquilo que gosto", não. "aquilo DE que gosto", sim.

Anónimo disse...

E não tem nada a ver com aplicação do AO.. senhor Embaixador. É só contaminação do Brasil e de França.. Não é grave.

Anónimo disse...

Se existe matéria em que pouco ou rigorosamente nada me importam as opiniões é precisamente sobre restaurantes. Nunca fui a um restaurante por indicação, assim como nunca deixei de ir comer a um sitio porque alguem diz que não presta. ás vezes vinham-me com conversas que aqui e ali se come um bom polvo ou acolá uns bons carapaus, ora que interessa isso a uma pessoa que apenas gosta de carne, como eu? e por ai fora.