terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O Congresso começou?

Correu bem o Congresso dos Jornalistas? Dizem-me que por ali ficou dita muita verdade, misturada com a angústia que atravessa muita gente da profissão, sujeita a precariedade laboral e a pressões diversas, a menor das quais não será a do imediatismo das redes sociais, que, dia após dia, competem com a imprensa escrita, de uma forma para a qual esta ainda não encontrou um antídoto eficaz.

Por aquela sala terá passado, muitas vezes, uma preocupação que é central para o utente das notícias e que, por maioria de razão, o deverá ser para os jornalistas: a questão da credibilidade. A classe parece ter já consciência de que, nos dias de hoje, paira uma forte descredibilização sobre a palavra dos jornalistas, vistos, às vezes, como veículos de inverdades ou de verdades enviezadas pelos interesses, pelos preconceitos, pelos alinhamentos doutrinários ou mesmo partidários - da geringonça ou da direita. Há um pouco a sensação de que, entre truques e malabarismos, desde títulos enganosos a notícias subliminarmente cheias de opinião, estamos frequentemente a ser servidos de gato por lebre. E deve ser terrivelmente desestimulante, para os ótimos jornalistas que existem em todos os órgãos de comunicação social, terem de conviver silenciosamente com quem se comporta nos antípodas das regras que eles observam.

Sei que não deveria ser fácil ao Congresso ter outro resultado, porque foi buscada a unanimidade, mas há que admitir que, nas conclusões finais, em especial naquilo que elas calam, continua a haver muita complacência corporativa com a imprensa de faca-na-liga, para quem o crime compensa em tiragens, onde o contraditório não é observado e a absolvição reside na abertura das colunas a alguma opinião contrastante. E tenho pena, francamente, que o chamado "serviço público", pago por todos nós, queiramos ou não, não tenha sido "chamado à pedra", como devido - apenas para nos ser explicado por que razão, não devendo ser as audiências a sua determinante funcional, se comporta como os "concorrentes" e não revela muitas vezes equidade e equilíbrio.

Para além do bom caderno reivindicativo sobre as condições laborais, espero poder testar o que vai sobrar, em matéria de determinantes deontológicas, com efeito prático no dia-a-dia, do muito de bom que foi dito no Congresso. Como utente, e no que me toca, acordei ontem com alguns títulos bombásticos com escasso apoio nos factos, com as "Sónias Cristinas" nos diretos vazios e desnecessários com "corneto" na mão, com os opinadores "jornalistas", que nos não dão factos limpos mas apenas a sua dispensável opinião sobre eles (eu preciso é de factos para formar a minha opinião), com telejornais com uma duração de terceiro mundo. Acordei, aliás, com a surpresa de ver que o Congresso teve uma cobertura noticiosa nesses mesmos órgãos muito inferior à real importância do evento. Para mim - leitor, ouvinte, telespetador - o Congresso verdadeiramente ainda não começou.

4 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Oh Senhor Embaixador : O Senhor sabe bem que o problema dos média, não é só em Portugal que ele existe. Como conhece perfeitamente a França e o que cá se passa nesse campo, permita que lhe deia um exemplo fresquinho desta semana:

Entre os títulos espantosos que o quotidiano de referência “Le Monde “produz a um ritmo mais elevado que os tweets de Donald Trump, eis aqui um publicado em 13 de Janeiro “ Soldados americanos enviados para a Polónia em resposta à actividade russa na região”

Na região? A leitura do artigo em questão (redigido “avec l’AFP, foi indicado) não permite de supor outra coisa que a “região” em questão se chama … a Rússia.

O titulo, traduzido em bom francês (e com uma pequena dose de deontologia) significa por consequência: Soldados americanos desenrolados na Polónia em resposta à actividade militar russa na Rússia”.

Mas constata-se a partir daqui que a formulação é inábil. E se há uma coisa que, creio, se aprende nas escolas de jornalismo, é de aperfeiçoar a forma. Então, porque é que o título foi sobrecarregado de precisões inúteis que tornam pesado um titulo absolutamente claro?
Quero dizer “claro nas suas intenções” .

Não falta muito para que o “Le Monde/Agência France Presse qualifiquem Putine de “Presidente da Região”…

Anónimo disse...

é um conluio senhor embaixador, é um conluio!

veja-la

http://rr.sapo.pt/noticia/73609/tanger_correia_poe_continuidade_de_jesus_em_xeque?utm_source=sapo

Anónimo disse...

Mesmo no 3o mundo não sei se há telejornais tão desesperantes como os nossos.
Quanto à ideia de os jornalistas não irem a conferências de imprensa sem respostas: como tu dizes, o que eles pretendem não é dar-nos a conhecer os factos e as opiniões dos É dar-nos as dispensáveis opiniões deles. Espero que os políticos deixem de ir às conferências de imprensa com jornalistas
Fernando Neves


Anónimo disse...

O Diário de Notícias, no 5º bimestre de 2016, teve circulação de 16.022. O Público teve 30.997. A revista mensal Continente Magazine teve 106.939 e a bi-mensal do Pingo Doce teve 105.282.