sábado, 11 de abril de 2015

Memorabilia diplomatica (XXIV) - Os comunistas


A decisão ontem anunciada pelas autoridades de Kiev de proibir os símbolos comunistas no país (presumo que com a exceção prática das províncias do Leste) é, com toda a certeza, o primeiro passo para a interdição do próprio Partido Comunista do país. Não me parece que isso seja um bom sinal para a Ucrânia.

Nada, aliás, que seja estranho na antiga União Soviética. Vai para mais de uma década, visitei um determinado país da Ásia Central, integrado numa delegação de cinco embaixadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), idos de Viena. Entre os diversos encontros que nos foram proporcionados na capital do país figurava uma mesa-redonda com representantes dos partidos políticos locais.

Na sua quase generalidade, a classe política desses novos Estados era oriunda das anteriores estruturas comunistas locais, isto é, comunistas reconvertidos em novos e "rápidos" democratas. Com o fim da URSS e a independência dessas antigas repúblicas soviéticas (em alguns caso, a independência foi assumida de forma algo relutante), foram instituídos regimes cuja democraticidade era mais do que duvidosa. As novas formações políticas criadas tinham, na esmagadora maioria dos casos, um caráter pouco genuíno e eram, por assim dizer, atores de um "teatro" que pretendia convencer o mundo exterior de que as novas instituições respeitavam as normas e "standards", em matéria de observância das regras do Estado de direito, respeito pelas liberdades fundamentais e pelos direitos de cidadania. A verdadeira oposição a esses regimes autoritários fazia-se fora dos partidos autorizados, através de ONG fortemente reprimidas e de ativistas políticos e defensores de Direitos humanos, isolados ou em pequenos grupos, que mantinham uma admirável resistência e tentavam, com muita dificuldade, fazer chegar sua voz de revolta ao exterior. As missões locais OSCE porfiavam, muitas vezes sem sucesso, em manter uma ligação a essas figuras fora do sistema, como forma de as proteger.

Mas voltemos à nossa reunião. À volta da mesa, estavam representados aí uns seis ou sete partidos. Cada um deles apresentou-se e definiu o respetivo perfil, ficando claro que estávamos perante um imenso "trompe l'oeil", como o delegado da OSCE já nos tinha alertado. Todas essas formações estavam representadas no parlamento, mas nenhuma delas fez a menor observação crítica ao governo em funções, relativamente ao qual não tinham qualquer objeção visível. Deixámo-los fazer o seu "número" e foram-lhes depois colocadas algumas perguntas por cada um dos visitantes, todos oriundos de democracia ocidentais. Quando chegou a minha vez, não hesitei:

- O representante do Partido Comunista não pôde vir?

Os locais olharam perplexos entre si. Então aquela República tinha-se "libertado" do comunismo e os embaixadores ocidentais, todos de países NATO, onde o comunismo estava bem longe do poder, perguntavam pelos comunistas locais? Imagino se não se perguntavam por que diabo queriam ali comunistas quando o sentido da Guerra Fria fora precisamente derrotá-los.

O "controleiro" da delegação, representante do governo que dirigia a "peça", quebrou o embaraço coletivo e, fixando-me, respondeu com evidente surpresa e não menor firmeza:

- O comunismo acabou neste país. O Partido Comunista foi proibido.
  
O artificialismo da cena era reforçado pelo facto de nós sabermos, de fonte segura, que muitos daqueles "figurantes" haviam sido membros do Partido Comunista local, ao tempo da União Soviética, não muitos anos antes.

- Peço desculpa, mas tem-nos vindo a ser dito que este país vive hoje em democracia. Como é que podem afirmar isso se não autorizam que uma corrente de opinião como os comunistas se pode organizar e afirmar no vosso sistema constitucional? Os comunistas desapareceram aqui de um dia para o outro? Onde estão? A democracia faz-se precisamente para que todos possam ter o direito à representação política, por muito que não concordemos com eles. Pela minha parte - mas não posso falar pelos meus colegas, naturalmente - tenho de concluir que o vosso regime tem uma falha democrática grave. Tomo nota disso e não deixarei de ter isso em conta no meu regresso a Viena.

Os restantes embaixadores ocidentais que integravam o meu grupo não me pareceram ter ficado muito agradados com a frontalidade da minha tomada de posição. Mas o incómodo foi bem maior entre as figuras locais. No resto da nossa estada nessa "democracia" da Ásia Central fui olhado sempre de soslaio pelos nossos anfitriões. E, regressado a Viena, notei que o respetivo embaixador junto da OSCE tinha esfriado as suas relações comigo.

No plano económico, o único que poderia suscitar da minha parte alguma contenção em sede de cinismo de "realpolitik", Portugal não tinha o menor interesse nesse distante Estado. E, como costumo dizer, a grande vantagem de um país como o nosso é que, quando não tem grandes interesses pode dar-se ao luxo de ter grandes princípios....

7 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Nao sei se o Senhor Embaixador leu o discurso da presidente do partido de oposiçao "Die" Link" , Madame Sahra Wagenknecht , no Bundestag há dias, do qual transcrevi uma parte no "post" precedente.

Mas ela também disse isto :


Madame Merkel

Em tempos melhores, a política estrangeira alemã tinha duas prioridades: integração europeia e política de boa vizinhança com a Rússia.
Dez anos após a vossa nominação como chanceleira, os nacionalismos e os conflitos na Europa prosperam mais que nunca e as dissensões com a Rússia criam uma situação de nova Guerra Fria.

O grupo de reflexão Stratfor estabeleceu recentemente a lista dos interesses específicos dos EUA na Europa: evitar uma aliança entre a Alemanha e a Rússia, porque juntos seriam a única potência capaz de ameaçar os interesses dos EUA.

A criação da UE afastou esta ameaça para os EUA.

Você forçou a Ucrânia a escolher. Resultado ; este país perdeu uma parte da sua industria, está hoje na falência, as pessoas morrem de fome e de frio, e os salários são inferiores aos do Gana.
A confrontação com a Rússia destruiu a Ucrânia e prejudicou a Europa. Sabemos que os interesses americanos na Ucrânia são os jazigos energéticos.

Claro que não é normal que os rebeldes continuem a disparar, mas sobre os batalhões nazis ucranianos, você não disse nada.

Os EUA e o RU querem fornecer armas aos ucranianos, contrário ao espírito da paz. Alguém vai impor sanções aos dois países citados?

Não há necessidade dos carros de assalto e 3 000 soldados da NATO na Europa de Leste, que não servem para nada e ameaçam ainda mais a paz na Europa.

Helmut Schmidt tinha razão quando dizia que o risco para a paz no mundo vem mais dos EUA e da NATO que da Rússia.

Juncker também diz agora que é preciso um exército europeu, para defender os nossos valores! Mas isto é contràrio ao espírito da fundação da UE., que previa a paz, a democracia, a solidariedade na Europa . Os nossos povos não devem ser separados pelo ódio e os nacionalismos.

Joaquim de Freitas disse...

Nada de bom para a Ucrânia, tem razão, Senhor Embaixador. Sobretudo quando se sabe que a formação dos soldados ucranianos com armamento recebido da UE (com o dinheiro dos contribuintes europeus !) e dos EUA, começou no dia 20 de Abril (aniversário de Hitler).

O exército ucraniano nomeou Dimitri Jarosch conselheiro oficial . As suas milícias nazis fazem agora parte oficialmente das forças ucranianas.

jorge ryder disse...

Corrigir "menor interesse nesse Estado" por "menor interesse a defender nesse Estado". Pode seguir para a Cifra.

:)

JRyder

CORREIA DA SILVA disse...

È preciso ter calma !!



.

Anónimo disse...

Bem, cabe recordar que Portugal, também em função da sua história, tem uma proibição constitucional impedindo a criação de "organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista".

7ze disse...

Caro Senhor Embaixador:

Passando a liberdade concedida pela pouca obrigação, considero que o facto transcende o fait divers. Faz lembrar as razões pelas quais o PCP não saiu para a rua como resposta aos acontecimentos do dia 25 de Novembro: porque o Dr. Álvaro Cunhal recebeu um oportuno telefonema garantindo-lhe que não seria proscrito. Tendo o Senhor Embaixador transitado pelo PREC, julgo que a atitude excedeu a subtil e refinada ironia, traduzindo antes perfeitamente uma marca do ADN político do seu país, de forma assaz distinta, assertiva e consistente. Mesmo passados todos estes anos, endereço-lhe os meus parabéns, confessando-lhe o quanto lamento que o meu orgulho no país se reduza ultimamente a pequenos pormenores como estes.

Muito agradecido

patricio branco disse...

mas se foi para isso que fizemos a transição com a perestroika/glasnost, que derrubámos o muro de berlim, foi mesmo para acabar com o comunismo, e o o ocidente muito nos aplaudiu, e agora vêm e pedem-nos contas por não haver pcs? que querem afinal? urss ou russia e novos países independentes? diriam eles...