sexta-feira, 10 de abril de 2015

E a Europa?


O espetáculo diário do governo grego na sua luta, cada vez mais inglória, com as instituições europeias nada tem de dignificante para a própria Europa. A humilhação de um poder político, que tem atrás de si um mandato de desespero, por mais irracional que ele possa ser, é uma imensa bofetada na democracia e um insulto à própria ideia de União Europeia.

Fruto de imensos erros próprios, somados à irracionalidade da política austeritária imposta pelos credores, a Grécia gerou uma situação que colocou no poder um governo portador da mirífica agenda de pôr termo à tutela estrangeira e recuperar, de um dia para o outro, o poder decisório nacional.

Muitos foram os que olharam com simpatia essa revolta, que prometia uma apetecida luta de um David contra o Golias da “troika”. E não foram poucos os que acreditaram que a atitude grega trazia um saudável abanão no “pensamento único” dominante.

Olhando em perspetiva, somos forçados a concluir que o modo radical como a Grécia carreou para o debate a questão do combate à austeridade acabou por enfraquecer fortemente uma linha menos confrontacional, que estava a começar a fazer o seu caminho, nomeadamente no Parlamento europeu, em algumas forças políticas no governo ou na oposição, bem como no próprio discurso da Comissão e do BCE. O sucesso dessa estratégia reformista estava longe de garantido, mas o facto do combate à austeridade ser hoje bastante identificado, até na comunicação social, com o suicidário “tudo ou nada” grego não facilita as coisas.

Ninguém faz ideia de como este braço de ferro entre a Grécia e as instituições europeias irá terminar. Mas ninguém já espera que Atenas vá cantar vitória ao fim do dia. Para uns, isso significará apenas a prevalência do bom senso. Para outros, traduzirá a humilhação de uma nação, sujeita a um diktat externo.

Vou por outra leitura. Até há uns anos, a União Europeia era a imagem da solidariedade, uma ealiança para o desenvolvimento, o bem-estar e a paz. Com o caso grego a reforçar bem essa nota, a Europa tende, cada vez mais, a ser olhada como um “big brother” disciplinador, zelador de uma matriz comportamental, regida pela lógica obsessiva do mercado, numa hierarquização interna de poderes que relega para as calendas (que, aliás, são  gregas) a ideia da “igualdade dos Estados”, que ainda surge na letra dos tratados. Confesso que tenho cada vez mais dúvidas de que, a prazo, seja possível compatibilizar este modelo de Europa com a salvaguarda das ordens constitucionais nacionais.  

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

12 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

A Europa ! Um dia, será necessário mudar-lhe o nome, para nos fazer esquecer este conglomerado de nações que se esfarraparam duas ou mesmo três vezes em guerras fratricidas que abalaram o mundo, e causaram milhões de mortos e que agora se obstinam a condenar à morte lenta o berço da democracia.

A Grécia legou à Europa, uma filosofia, uma ideia, uma cultura profundamente mediterrânea que lhe permitiu de desenvolver as ciências, a literatura, as artes.

Agora pedem-lhe de mudar a sociedade, o que é um imperativo porque o sistema ultraliberal imobilizou a humanidade ao nível económico e degradou-a sobre o plano moral, enquanto que para sobreviver ela deve adaptar-se e progredir, necessitando uma profunda reflexão particularmente sobre os mecanismos de exploração dos povos e do ser humano.

Exasperados de pagar pelos ricos exonerados de impostos, asfixiados financeiramente, os Gregos voltaram-se para aquele que lhes prometia de acabar com os cinco anos de sofrimento e humilhações. Mas a Europa preferia o outro que tinha como projecto de continuar o sofrimento até à exaustão.

O grande erro do PM grego foi de crer que podia contar com a solidariedade dos países amigos que também sofrem dos mesmos males, particularmente a França, afim de os ajudar no combate contra a Alemanha, guardião rígido dum sistema ultraliberal agora inscrito nas instituições europeias.

Mas os responsáveis políticos destes países capitularam perante o sistema. Hoje estamos sob o jugo dum capitalismo financeiro que se encontra para lá dos países, incluindo o RU e os EUA que abrigam as duas mais importantes praças financeiras, e que se estão marimbando para a cultura ... Uma espécie de poder superior oculto.

Quanto à solidariedade da França e do seu governo socialista, penso nas palavras de Martin Schulz : " Os socialistas franceses, são como os pombos da catedral. Quando estão lá no alto
cagam-nos em cima. Quando estão em baixo vêm comer na nossa mão.


A França obteve uma nova extensão de dois anos do prazo para respeitar o pacto de estabilidade e de crescimento , que prevê um défice público de 3% do PIB. O novo comissário dos assuntos económicos é francês: Moscovici.

JS disse...

Lúcido e, no seu caso, corajoso.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

“A humilhação de um poder político, que tem atrás de si um mandato de desespero...”

Toda a gente que, de uma forma ou de outra, como foi, também, o meu caso, olhou com simpatia a ascensão do Syriza ao poder, bate nesta tecla: a do mandato. Aqui divirjo. Por uma simples razão: todos os outros governos, incluindo o da Alemanha, claro, têm, igualmente, um mandato. Tão legítimo quanto o do Syriza. Nem mais, nem menos. Ponto.

Quanto à humilhação, não sei, também, quem ficou a dever a quem. Foi notória a arrogância com que, nos primeiros tempos, se pavoneava por Bruxelas o actual ministro grego das finanças. Convencido da sua mestria em jogar o jogo do “bluf” – bater com força na mesa, como se tivesse na manga trunfos fortíssimos que fariam de imediato “encolher” os restantes parceiros da UE (por um lado, financeiramente, Putin e China, e por outro, o medo que a Europa teria de uma saída intempestiva da Grécia do Euro) – não escondia o gozo que o “jogo” lhe estava a dar. O problema é que esses trunfos se revelaram falhos de solidez.

A tecla que a Grécia deveria ter batido, isso sim, era a da sua dignidade como país e como parceiro contra a qual austeridade cega atentava. E esta tecla, ensaiada de início, estava a abrir uma larga frente favorável na opinião pública europeia. Se, ao lado desta, batesse igualmente na tecla mais evidente – a da irracionalidade económica da austeridade – o desfecho deste braço de ferro poderia ser outro.

Abraham Chevrollet disse...

A notícia da minha morte é largamente exagerada,deveria a Grécia dizer aos comentadores,citando Mark Twain. A Grécia continua.com ou sem bluff,e o Centro direita continua também a bluffar,como Cavaco,Coelho e afins! Quem não engana é quem cumpre,e muitos não tem já força para o quite. Siga a faena quem pode,a nós resta-nos a pega de caras. Estamos prontos,vamos a isso!

Anónimo disse...

Podia ter escrito sobre esta notícia de Portugal...mas..não interessa !

"Dois mil milhões perdidos (entre muitos milhões mais)"
por José Mendonça da Cruz, em 09.04.15

socas.jpglino.pngcosta.png

"A notícia é que o governo aprovou os novos contratos de seis PPPs que permitem poupança de 2000 milhões de euros. Poupanças de 2000 milhões em relação aos contratos que essa gente aí em cima negociou e depois reviu em prejuízo ainda maior dos contribuintes.

Eis uma notícia que a Sic, a Visão, o Expresso, o Dn e o JN, a TVi certamente não desenvolverão, como não investigarão como foi possível que o governo socialista gerisse tão irresponsavelmente os dinheiros públicos.

Para a Sic, a Visão, o Expresso, o Dn e o JN, a TVi, não há aí escândalo nenhum.

Afinal, foi o partido da «solidariedade», o partido do «crechimento» que espatifou esses milhões entre muitos milhões mais. E sabe-se lá se não é nas percentagens desses milhões que estão as verbas para pagar tantas avenças, tantos vencimentos, de tantos jornalistas que gostavam tanto de ser assessores do partido que se preocupa «com as pessoas».
Eis uma notícia, também, que classificará como irremediavelmente estúpido (ou perdulário, ou ladrão) quem queira repor essa gente aí em cima no poder. "

Pois é não interessa ... nesta altura......

Antonio Cristovao disse...

è um peditorio já muito visto, mas a independencia da democracia na Grecia vai ser provavelmente antes de Julho com a saida da UE. O querer a quadrantura do circulo-respeitar o voto grego e desrespeitar o voto dos outros europeus que vão pagar a má governação grega é que não tem pernas para andar(talvez na cabeça duma esquerda caviar utopica).
Poderá ser bom para testarmos sem custos o que se ganha em sair do euro.

manuelpereirabarros Meira disse...

Basta a descida da taxa de juro para explicar o que o caro anónimo das 14H32 diz. Acalme-se!...

Anónimo disse...

Este Governo grego, composto por opositores declarados ao Euro, fez durante a campanha eleitoral promessas que sabia não ser possível cumprir e depois da sua eleição dedicou a afrontar a Europa.
A Grécia, que entrou indevidamente no Euro, pois não cumpria os critérios de adesão à moeda única é só com o recurso à contabilidade construtiva é que pode aderir, tentou evitar ao máximo as reformas exigidas pelos credores, basta ver o que se passa com a fiscalidade de Atenas, continua a tentar não pagar, e a ver se volta a viver da ajuda internacional.
Ou Atenas muda, ou então o melhor mesmo para todos é que saia do Euro, apesar das consequências nefastas para a UE dessa saída.

patricio branco disse...

uma tarefa tremenda, agradar a gregos e troianos (os troianos são os outros), conseguir conciliar o quase impossível, um governo que só por isso merecia a nossa compreensão e simpatia, enfim, não digo o nobel da paz, mas algo por aí, mesmo que os resultados sejam pequenos

Manuel Silva disse...

Anónimo das 23:49
Antes das eleições que deram a vitória ao Syriza devia ter ido explicar aos gregos que não deviam votar num partido que fez o que o caro disse: fez entrar «A Grécia ... indevidamente no Euro, pois não cumpria os critérios de adesão à moeda única é só com o recurso à contabilidade construtiva é que pode aderir, tentou evitar ao máximo as reformas exigidas pelos credores, basta ver o que se passa com a fiscalidade de Atenas...»
Ou terão sido outros?
A Nova Democracia e o Pasok?
Com a ajuda da Goldman Sachs?
E a complacência de quem na Europa emprestava dinheiro para eles se endividarem e comprarem produtos europeus às economias exportadoras, ou não?
E essa de quem paga a quem já está desmontada.
Quem tem beneficiado com a crise, com taxas de juro da Dívida Soberana negativas é a Alemanha.
Isto é, ganha por lhe emprestarem dinheiro.

Joaquim de Freitas disse...

No momento exacto em que o PM de Portugal, elabora planos de reforma para baixar os miseráveis salários dos meus compatriotas Portugueses, o que é insultante para o bom senso económico e para a moral, seria bom que os seus partidários o obriguem a ler o discurso pronunciado hoje no Bundestag (Parlamento Alemão) pelo chefe dum partido de oposição, "Die Linke", Madame Sahra Wagenknecht . Que também falou da Grécia .


Madame Merkel : Se quer uma Europa unida, cesse de humilhar os outros países e impor programas que retiram toda perspectiva às gerações futuras.

Cesse de impor reformas estruturais que aprofundam cada vez mais as desigualdades e esmagam os salários mais baixos.

As consequências aqui na Alemanha são mais de 3 milhões de pessoas que trabalham, mas não ganham para se aquecer correctamente, que não matam a fome ... e não têm férias.

Em vez de dizer que esta política é um sucesso e querer exportá-la lá fora, no interesse da Europa mude de política.

O ministro das finanças, Schauble, disse a propósito do governo grego : "Como vê governar é afrontar a realidade". Estou de acordo. Mas seria bom que o governo alemão também afrontasse a realidade. E a realidade é que não foi Syriza mas os partidos gregos aparentados aos partidos alemães CDU, CSU e SPD que acumularam décadas duma enorme dívida enriquecendo-se, eles e as categorias privilegiadas.

A realidade é que a Grécia estava sobre endividada já em 2010 , e foi através duma apropriação irresponsável do dinheiro dos contribuintes alemães que a dívida dos Gregos foi reembolsada aos bancos . Aliás nós não estávamos de acordo. Propusemos uma redução da dívida. Se você empresta a alguém que está endividado você nunca verá provavelmente o seu dinheiro. Mas a culpa é sua Madame Merkel e Senhor Schauble, mas não é a culpa do governo grego que só está no poder desde há dois meses.

A realidade é que graças à troika que você aprecia tanto e cujas actividades criminosas esta detalhadas no documento de Harald Schuman, sob este protectorado, a dívida grega ainda aumentou mais, e os bilionários gregos enriqueceram ainda mais. Se quiser recuperar este dinheiro, vá exigi-lo àqueles que o meteram nos bolsos. Mas não vá pedir às enfermeiras ou aos reformados gregos, mas aos bancos internacionais e às classes ricas.

E já agora, o seu rir sardónico entristece-me muito Madame Merkel . Sabendo o que o ocupante alemão fez na Grécia, e o milhão de Gregos que perderam a vida nesse período sombrio da história alemã, as declarações de M. Schauble são insolentes e M.Kauder irrespeitosas. Tenho vergonha de vocês.

Richard von Weizsacker dizia, aquando do 40° aniversário da libertação , falando da Rússia e claro da Grécia: "

" Se pensamos ao que os nossos vizinhos de Leste sofreram durante a guerra, compreendemos melhor que o equilíbrio da redução da tensão e da coexistência pacífica restam pontos cruciais da política estrangeira alemã em relação a estes países. Que cada campo não o esqueça e se respeite mutuamente."

Anónimo disse...

Recomendo ao anónimo das 14:23 que veja quantas PPP rodoviárias foram feitas pelo anterior Governo e quantas por outros. Terá uma surpresa.

Fernando Neves