segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Partidos televisivos

Posso estar enganado, mas julgo que a generalidade dos portugueses não deve ter consciência de que o que se passa nos espaços informativos das suas televisões, em termos de informação política, não tem hoje paralelo na generalidade dos países de idêntica dimensão democrática. 

A circunstância de, a propósito de qualquer questão pública, aparecerem porta-vozes das diferentes forças políticas, normalmente tendo como pano de fundo os "Passos Perdidos" ou corredores do nosso parlamento, a debitarem diariamente a sua opinião, constitui um caso praticamente único. Criou-se em Portugal um "politicamente correto", um insuperável temor reverencial face ao sindicato das forças partidárias que faz com que, para evitar acusações de descriminação, todos sejam sempre ouvidos, a propósito de tudo e de nada. A relevância jornalística dos temas, que deveria ser o referencial para a dimensão das peças televisivas, é hoje um factor menor, perante o receio de acusações de favorecimento político. Já não se trata de respeitar o contraditório, de contrabalançar os pontos de vista: é necessário ouvir sempre, e cumulativamente, PS, PSD, CDS-PP, PCP e BE. O ridículo só mata quando dele se tem consciência e, aparentemente, em Portugal essa consciência não existe.

Essa é também uma das razões - somada aos acidentes, aos crimes e às peças sazonais (incêndios, praias, calor e estradas) - pela qual os telejornais, em Portugal, têm uma extensão verdadeiramente terceiro-mundista, única na Europa. Para quem não saiba, convém lembrar que, na generalidade dos países "civilizados" (e não elaboro deliberadamente sobre isto), os noticiários não ultrapassam 30 minutos, os diretos aos correspondentes no local não excedem um minuto e as peças sobre um determinado tema muito raramente vão para além dos 5 minutos. Por cá, é o que se vê!

Em tempo: num comentário a este post, a Dra. Helena Sacadura Cabral lembrou - e bem! - que os partidos políticos dispõem igualmente, em termos de quota de débito discursivo televisivo, de vários espaços de "frente-a-frente" e de outros modelos de programas onde estão representados, mais ou menos formalmente. Enfim, "tempos de antena" diários... 

14 comentários:

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Muito bem observada e oportuna a questão que, hoje, nos coloca para reflexão.

Em boa verdade, muitos falam, falam só porque gostam de se ouvir, tanto mais, porque o conteúdo das mensagens a transmitir ou é nulo ou de promoção pessoal...

Colocam-se em bicos de pés porque falam para as suas próprias ribaltas, esquecendo-se, deliberadamente ou não, dos Portugueses na sua generalidade.

O que se me afigura, é que rapidamente se repense o ensino da Comunicação Social, pois está muito carente de valores e de cultura.

O que assistimos, não passa de uma caixa de ressonância de interesses que se multiplicam e, curiosamente, já ultrapassa largamente as raias do bom senso!

Queira aceitar os meu parabéns, por mais esta belíssima e oportuna postagem.

Fraterno abraço.

Paulo M. A. Martins
Brasil, Fortaleza (CE)

Santiago Macias disse...

Subscrevo tudo o que publica neste texto. Por essas e outras razões desisti de assistir aos nossos telejornais, que se arrastam, por vezes, durante 75 ou 80 minutos. Com infindáveis reportagens sobre coisa nenhuma e com sucessivos directos por causa da contratações de jogadores de futebol.
É verdade que há um exagero de opiniões cumulativas - muitas vezes debitadas por quem não tem a noção de "tempo" em termos televisivos. E há forças partidárias que, no nosso espectro político, vivem desse contínuo debitar de palavras e de propostas fracturantes e salvíficas. Por agora, são levados num andor. Esquecem-se da velha máxima "who lives by the press, dies by the press". Mas essa é já outra história...

Helena Oneto disse...

O sensacional e a desgraça alheia são sedativos eficazes contra o descontentamento individual...
Os responsáveis políticos, e não só, exploram as falhas do sistema, dos media em geral e da televisão em particular, para entorpecerem um pouco mais o país...
e as intermináveis entrevistas aos dirigentes, aos treinadores, aos selecionadores e aos desportistas da bola em geral, são a cacetada final!

Portugal tem a televisão (comercial) que merece!

Anónimo disse...

"Civilizados"???!!! ...

Por outro lado;

Se obrigarmos a sensatez a promover a gestão do tempo inibimos a proliferação de doutos porta vozes dos sonhos genuínos do Português...

A visibilidade dos profetas em carapaças politica/socialmente corretas proativamente protocoladas, no ultimo protocolo de etiqueta e boas maneiras com melhor imagem aceite pelo universo dos famosos,(também não sei quem são só sei que eventualmente faço parte) revisto na ultima edição das futilidades mal necessário como Bem possível...

Agora Sr. Embaixador...
Convenhamos que o Sr. não faz zaping por exemplo não indo mais longe... Por nuestros/mios Hermanos
Senão...

Teria acesso
Às emoções primárias do Guti e do Raul que antes de protagonizarem o minuto da despedida viram em todos os ângulos permitidos pelo exponencial das probabilidades, publicadas todas as expressões possíveis... Num tempo de antena invejável ou seja de manhã à tarde e à noite e enquanto o caldo arrefece ...

Coitaditos também precisam, essencialmente de mascarar como é possível já nem digo reduzir uma milésima de ... Das taxas de pobreza... Iliteracia...

Mas não calcular a lotação adequada com uma margem de erro admissível, de um espaço para um concerto? Aumentando a taxa de mortalidade de população em luta para a vida ativa, ou por exemplo para quê ouvir Bombeiros...

Isto também em países civilizados.

Também é muito mais leve conhecer as intimidades de Reis e Rainhas até o seu guarda roupa interior...
Oh como se a Nossa Anatmofisiologia não nos orientasse...

Ah! E as Mudanças na nossa fachada
Fique sossegado por cá preservamos os nossos pés de galinha, mas desculpe lá olhe por exemplo em França vê-se cada uma... Embora pronto os telejornais possam ser mais breves e os programas rosa?...

Só para dizer...(Sou redundante sory, o Sr. bem sabe sou a 3ª tentativa frustrada de nascer o homem desta família)Como justificar a necessidade das Necessidades de tanto parecer sem aglutinar emissor/ recetor tantos deputados e jornalistas...
Bem alguns podiam ter ido para Medicina.
Isabel seixas

patricio branco disse...

é verdade que os telejornais são uma decepção, exploram a polémica politica e social, falam dos desastres, tentam revelar algo que é corrupção, repetem os mesmos serviços durante 2 ou 3 dias para fazer render o peixe e poupar dinheiro, etc.
depois, há os debates, em 95% do caso sobre a situação politica e económica e só, raramente, sobre temas culturais, gastronómicos, etc.
no fundo, temos a televisão que nos cabe ou que sabemos e queremos fazer.
tambem temos uns minutos mais sérios por semana, como os comentários de ST ou MRS ou MC.

Guilherme Sanches disse...

... e as notícias ou factos servidos requentados em repetidas sessões de noticiários... e os emplastros que se colocam a jeito lá ao fundo, de telemóvel e sorriso aberto a acenar para casa, nos seus 10 segundos de fama e de glória... e as calinadas repetidas de notícias absurdas(foi descoberto um ser vivo... a 30.000 metros de profundidade, no Oceano Atlântico - 30 km de profundidade, pasme-se!)... e a mediocridade oratória dos diretos, cheios de bengalas, haaa... haaa... eeee....e o mais, e o muito mais com que diariamente levamos como se fosse pastilha elástica que se cola ao ecrã e estica... estica... até ao limite das nossas paciências.

Bom post, desta vez apoiado pela fotografia de que eu já gostava

Um abraço

Anónimo disse...

O Senhor Embaixador "escondeu-nos" isto - entrevista de Maria João Bustorf ao Diário Económico.

Pergunta: Adriano Moreira foi seu professor.

Resposta: Sim. Talvez o melhor professor que tive na vida. Prosseguia entusiáticamente o projecto de formar uma geração de portugueses que nada tinha a ver com a anterior. Tinha a coragem, na época, de chegar ás aulas com o "L'Express" debaixo do braço. isto para uma menina que vinha de um colégio de freiras...fiz o Colégio alemão, o Liceu de Oeiras e depois fui parar ao Bom Sucesso, nos últimos 3 anos. Era uma coisa extraordinária. Ao fim de uns dias de aulas, ele já sabia quem eram os dois extremos dentro daquela sala - e nós eramos miúdos. Eu tinha 17 anos. Então tinha de um lado o Francisco Seixas da Costa como máximo contestatário e do outro lado um colega, de que agora não me lembro o nome, que era o máximo do ultra direita, e ele conseguia no último quarto de hora pôr os dois a discutirem um com o outro"

Era verdade?

Ana Paula Fitas disse...

Senhor Embaixador,
Obrigado por este texto... fiz link, lá, no A Nossa Candeia.
Abraço amigo.

José Martins disse...

Senhor Embaixador,
Mais um excelente tema.
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Uma grande parte dos portugueses, conscientemente, conhecem o que se passa na informação, política e outras que “botam” para fora dos estúdios de televisão.
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Sim os "Passos Perdidos" e os corredores da AR é o palco próprio e com o cenário que até dá como o pano de fundo, decorativo, da imagem do político, entrevistado, a dar os seus pontos de vista lançando semente em terra seca que não germina.
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Quanto ao sindicato das forças partidárias penso que deverá ser o do clube cujos membros usam o avental nas reuniões secretas.
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O jornalismo em Portugal segue pelas ruas da desgraça e vemos as primeiras páginas dos jornais e interiores onde os tópicos principais são o futebol os crimes, os assaltos, os incêncios e os roubos dos “pilhas galinhas”.
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Me parece que o jornalismo português voltou ao tempo, de um século atrás, do “folheto” do ceguinho, cantado, pelas ruas e feiras de Portugal.
Saudações de Banguecoque
José Martins

MAM disse...

Nos anos em que trabalhei no M.N.E., sempre o entrevi com orgulho íntimo pela coragem e ousadia de chamar as coisas pelos nomes. Vou tentar segui-lo aqui ou noutro lugar. Mas saiba que a sua palavra se escreve com uma autoridade moral que nos faz sentir menos infelizes. Parabéns por partilhar connosco estes (es)paços.
Marai Armandina Maia

Fernando Correia de Oliveira disse...

Inteiramente de acordo, Sr. Embaixador. É por isso que, pontual e religiosamente, faço zapping às 13h00 e às 20h00 e, um minuto depois, em dias "normais", a televisão volta a estar desligada...

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Armandina: São palavras como as suas que fazem com que se mantenha esta minha vontade de partilhar algumas reflexões. Muito obrigado

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Aqui há cerca de um mês postei sobre essa nova maravilha politico cultural - o "Frente a Frente" ou similar - em que, qualquer que seja o canal,os representantes dos vários partidos debitam a sua cassete pedagógica a propósito de tudo e de nada, permitindo a cada um, arredondar o seu pecúlio mensal. Nada tenho contra eles porque não os oiço.
Mas se juntarmos este débito àquele que os políticos - todos - fazem por altura dos telejornais, a coisa não deve dar mais do que 15minutos de verdadeira informação.
Por isso o país é tão culto...

Anónimo disse...

É por esta e outras opiniões suas que passei a visitar diariamente o seu blog.Sou trasmontana e tenho muito orgulho que também seja.

Muito obrigada Sr Embaixador

Ester Vilela