sábado, 28 de agosto de 2010

"Long drink"

No ano de 2004, aquele pobre país da Ásia Central mantinha, no essencial, todos os reflexos típicos da época comunista, tal como eu os recordava dos anos 80. O único hotel disponível, marcado pelas autoridades, era mais do que espartano, com o elevador avariado e uma desfuncionalidade geral irritante. Só os preços tinham um mínimo de "elevação", provavelmente inflacionados para estrangeiros. Os quartos estavam decorados de uma forma inenarrável, as casas de banho eram dignas de pensões portuguesas do tempo do Estado Novo, as camas suscitavam insuperáveis dúvidas de limpeza. Como era só por uma noite, não valia a pena fazer de tudo aquilo um drama.

Logo que instalado, desci para o "hall", juntando-me aos quatro colegas que comigo vinham de Viena, cúmplices desse périplo de "fact-finding mission" que nos faria atravessar todas as cinco Repúblicas da região. Rimo-nos um pouco da situação, sob o olhar patibular de uma matrona mal encarada que, na receção, era um modelo acabado de inospitalidade. Perguntámos se podiamos beber qualquer coisa. Com um gesto displicente, apontou-nos um bar ao fundo da sala. Ao balcão, estavam dois personagens de blusão de couro, manifestamente dedicados à observação dos nossos movimentos.

Os meus colegas pediram refrigerantes, mas eu tive a ideia de querer um vodka tónico, honrando o álcool preferido daquela parte do mundo. O barman, que tinha sido educado na mesma escola de simpatia da rececionista, respondeu-me, em macarrónico inglês, que só serviam "long drinks" depois das 7 horas. E eram aí 6 e picos. 

Pedi, assim, uma água tónica. Depois, pedi algum gelo. Deixei passar uns minutos. Como eu suspeitara, os dois matulões da segurança bebiam vodka, em pequenos copos. Quando os vi pedir outra dose, disse ao barman que também queria, para mim, um vodka. Hesitou por um segundo, mas não tinha nenhuma razão para recusar o que acabara de dar aos seguranças. E lá me trouxe um copo com vodka.

Aí, não resisti: com um gesto largo, verti o vodka sobre a água tónica com gelo e exclamei: "Vodka tonic!". Os meus colegas desataram às gargalhadas e tenho a impressão que os seguranças também sorriram. Só temi que o barman tivesse uma Kalashnikov para poder concretizar o ódio com que me olhava.  

2 comentários:

Anónimo disse...

A longas horas sim Senhor...
"E eram aí 6 e picos."
Isabel Seixas

José Martins disse...

Senhor Embaixador,
Advinho o país e o hotel onde esteve hospedado...
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Eu estive lá em 1992 e de quando a paz ainda não era nenhuma...Durante o dia havia pum-pum, esporádico, pela cidade.
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Sair à noite era uma aventura e sujeito a ser roubado a poucos metros do hotel...
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E ainda um embaixador nosso,em 2003quando ali se deslocou para apresentar as Cartas,os larápios tentaram assaltá-lo à saída do hotel e conseguiu safar-se dado aos seus conhecimentos, preliminares, em cima do judo...
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Saudações de Banguecoque
José Martins