terça-feira, 3 de agosto de 2010

Bacalhau


O olhar trocado entre os nossos convidados não iludia. Havia um qualquer mal-estar entre todos eles, cuja razão não entendíamos. O resto do jantar iria confirmar que havíamos cometido uma "gaffe" diplomática.

Estávamos na Noruega, em 1979. Era o meu primeiro posto, como funcionário diplomático. A Noruega era e é um país de ótimo bacalhau, Não se estranhará, assim, que, mal lá chegado, eu tivesse procurado abastecer-me do produto. Nunca mais esqueci o nome, com sonoridades medievais, do cidadão português que passou a ser o meu fornecedor: Pero Diniz de Paiva.

O primeiro jantar "formal" que organizámos foi, como é natural, dedicado aos primeiros norugueses de quem nos havíamos tornado amigos. Num gesto que pretendemos fosse de gentileza, numa espécie de celebração da relação luso-norueguesa, decidimos apresentar um prato de bacalhau.

À chegada à mesa desse prato principal, eu havia decidido revelar aos presentes a intenção subjacente à nossa escolha. Os nossos convidados sorriram com simpatia e agradeceram o nosso gesto, iniciaram a degustação e... começaram, discretamemente, a pôr de lado o bacalhau, fingindo apenas que comiam. Não havia qualquer dúvida: não apreciaram o que lhes tinha sido oferecido. A nossa primeira iniciativa social fora um fracasso.

Ao contarmos o sucedido, dias depois, a um outro amigo, tudo ficou explicado. O bacalhau seco, para certa geração norueguesa, era um produto que ficara associado a um período trágico da vida do país, ao tempo da ocupação nazi. Como era barato e de fácil conservação, era usado em abundância pelas comunidades rurais isoladas, recordando assim tempos tristes e de miséria. Oferecer um prato de bacalhau seco em Oslo equivaleria, julgo eu, ao gesto catastrófico que hoje seria servir "peixe seco" à nova burguesia de Luanda.

Mas - convém que se diga - o bacalhau, na sua versão de peixe fresco, continua a ser hoje um produto muito apreciado na (muito duvidosa, na minha opinião) gastronomia noruguesa. Seco é que nunca! Ou melhor: só para exportar, a "preços nórdicos", nomeadamente para os pobres portugueses, espalhados pelo mundo...

Resta dizer que a imagem de Portugal e dos portugueses, nomeadamente em França, continua muito ligada ao consumo do bacalhau seco. Ainda que, nos dias de hoje, alguns outros países - a começar pelo Brasil - sejam muito mais importante consumidores do que nós, os portugueses passam por ser compulsivos fanáticos dos vários modos de cozinhar o antigo "fiel amigo" - e digo "antigo" porque os preços hoje já não permitem usar com propriedade o dito "p'ra quem é, bacalhau basta".

Os portugueses, aliás, contribuem voluntariamente para manter essa imagem, ao terem criado, um pouco por todo o mundo, mais de uma centena de "Academias do Bacalhau", uma rede de confrarias de jantaradas, originalmente surgidas no seio das comunidades portuguesas, a qual, ainda este ano, reunirá o seu "Congresso" em Paris.

7 comentários:

Anónimo disse...

De qualquer forma o Sr. gosta de bacalhau?...

Não é que , já fiz a mesma figura convidei um casal de quem fazia cerimónia e a quem queria agradar... Com os meus dotes de anfitriã fiz creme de cenoura, cabrito com batatinha assada e arroz leite creme torrado, mousse de manga e fruta laminada.

Comeram delicadamente o arroz e a batata e o leite creme...

Eu aprendi que o efeito surpresa pode eventualmente ser bidirecional
E agora quando convido alguém obrigatoriamente e como entrada induzo uma conversa preliminar sobre os verdadeiros gostos gastronómicos das pessoas.

Bem o Sr. traz outra variável o que eu designo por Diamante de sangue... Desde que vi o filme diamantes de sangue (embora o meu dinheiro nunca tivesse dado para os comprar e ainda bem, no sentido de não cooperar involuntáriamente na desfaçatez de sustentar corruptos filhos...)que é ... não é uma questão de gosto...
"Simplesmente não se Engole"

Os Noruegueses subiram na minha consideração...
Mas ainda vou continuar a comer bacalhau(também já temos as nossas dores de dentes)

Gostei imenso do texto lavou-me a alma porque ainda não tinha atenuado a minha culpa de falta de proatividade no planeamento de um "simples" jantar ... Agora quando também acontece a Embaixadores que a gente pensa estarem rodeados de um séquito de "governantas"...
Ah! ouro sobre azul...
Resumindo O sr. gosta de bacalhau Seco? Ou ficou traumatizado.
Isabel Seixas

È que cometer erros sistemáticos

patricio branco disse...

o bacalhau fresco come-se nos países do norte (noruega, islandia, alemanha, escócia, e vizinhos)
o bacalhau seco nos paises da europa do sul, portugal, espanha, italia, sul de frança.
o bacalhau fumado na inglaterra, australia.
Julgo também que há uma certa rejeição, devido ao aspecto e cheiro que se espalha do bacalhau seco, alem de que é associado em muitos países a comida pobre, pouco refinada.
não apreciei a comparação com os novos ricos de luanda, ou "nova burguesia"; embora não o seja, poderia haver quem considere o exemplo "gaffe diplomática". no entanto, não conheço luanda e os seus hábitos alimentares ou socio-económicos e o exemplo pode ser o perfeito para o que FSC diz na crónica do dia, bem interessante.

patricio branco disse...

há alimentos que não se devem servir a convidados cujos gostos não conhecemos. para alem das diferenças claramente culturais ou religiosas (servir porco a um muçulmano ou carne 6a feira santa a um cristão) eis alguns: caracois, tripas, patas, orelhas, lingua, coelho, crocodilo, tartaruga, canguru, avestruz e até mesmo borrego. Quem quiser que acrescente mais alguns, que é informação sempre util.

Helena Sacadura Cabral disse...

Bela história que ilusta o nosso ditado "por bem fazer, mal haver"!
Por mim adoro bacalhau seco e não aprecio o fresco. Sou do tempo pobre...
Mas agora que me preparo para lançar o terceiro livro de cozinha descobri que há um rival das "Cem maneiras de cozinhar bacalhau".É o frango. Aqui em casa come-se, sobretudo, carne branca e peixe. Pois bem, tive de me conter, para não arranjar cem maneiras de cozinhar frango e parentes... Vantagens da crise!

Anónimo disse...

Nunca tinha visto um bacalhau com olhos azuis.
Isabel Seixas

Pitigrili disse...

Caro embaixador,
a burguesia luandense continua a deleitar-se com os calulus e os caldos, em que o o peixe seco é essencial.
Continue a deliciar-nos com os seus textos e comentários...

Anónimo disse...

À Doutora Helena Sacadura Cabral
Para o Seu livro de culinária

Poema ao Bacalhau

Bacalhau expectante
Inolvidável de ausente
Espera perpetuadamente


Gestação
De Gato
Ou Elefante
Degusta-se frio ou quente
Confeciona-se na mente
Acessível a toda a Gente


Que

Não É:

Norueguês
É Português

De Sexo Masculino
É Uni sexo e Hermafrodita

Só Gastronomia
É .... ... ..... ......

Isabel Seixas