sexta-feira, 30 de julho de 2010

Culpados públicos

Não é novidade para ninguém que há hoje figuras, que já eram ou se tornaram públicas, ligadas a processos judiciais, que surgem como irremediavelmente "condenadas" no imaginário popular, por muito que as imputações preliminares ou as reais acusações a eles dirigidas acabem por ser não provadas. 

Não se diga que esta atitude resulta apenas de deficiente formação cultural ou que está restrita a um mundo opinativo excessivamente condicionado pela comunicação social "tabloidizada". Quem, de entre nós, não acha que este ou aquele autarca "tem uma cara chapada" de corrupto, que aqueloutro dirigente desportivo "tem mesmo pinta de vígaro" ou que uma ou outra personagem "tem um arzinho" de pedófilo? Por muito que controlemos, em público, esses nossos sentimentos íntimos, a verdade é que há juízos de convicção que já formámos e que, no fundo, acabarão por condicionar o próprio modo como avaliamos o desfecho dos processos.

Com frieza, teremos de concluir que esta subjetividade apreciativa tem a ver com o modo como fomos "digerindo" aquilo que nos entrou portas dentro, pelas televisões ou pelos jornais, com a leitura que, intimamente ou em grupo, fomos fazendo de tomadas de posição ou das notícias vindas a público. Nestas se incluem as fugas ao segredo de justiça, os "leaks" promovidos, a "desinformação" provocada, além da má-fé e, quiçá, alguma informação verdadeira.

Mas - assumamos! - há outros fatores que nos condicionam a todos, uns de ordem política e ideológica, outros de mera simpatia ou antipatia, seja pelos sujeitos em causa, seja pelos veículos mediáticos ou pelos "opinion makers" que titularam posições nos diversos casos. Ninguém está virgem neste contexto, por mais neutral que possa julgar-se.

Duas entidades se salientam, para o bem e para o mal, em todas estas histórias: a justiça e a comunicação social.

Da primeira, o mínimo que se pode dizer é que perdeu, em poucos anos, um prestígio que, historicamente, mantinha no imaginário público, devida ou indevidamente. A ânsia de expressão mediática, as contradições entre os seus agentes e instâncias, a frequente propensão para jogar com os "media", a assumida lentidão de procedimentos e a comum dilação de atos formais  - tudo isso se traduz hoje numa imagem degradada do estado da justiça portuguesa, provavelmente muito superior àquele que corresponde à sua real situação. Aquilo que deveria ser um esteio de estabilidade psicológica na nossa sociedade transformou-se, infelizmente, num fator de polémica, de aparente arbítrio e de real insegurança.

Quanto à comunicação social, assistimos, nos últimos anos, à perversa absolutização do chamado "direito à informação", uma espécie de desígnio divino assumido, às vezes, por uns histéricos estagiários com um "corneto" ou um gravador na mão, arautos do interesse de uma opinião pública de que alguém os arvorou representantes. Vida privada e privacidade, presunção de inocência e distinção entre estádios de investigação, tudo isso são pormenores despiciendos para quem apenas tem como objetivo fazer títulos ou "peças" sonantes. O que ainda me espanta é que alguns profissionais, criados noutra escola deontológica, que levou anos a "ganhar" o seu estatuto em democracia, estejam agora a "mandar às urtigas" os princípios em que foram formados, mercantilizando-se para vender minutos de imagem ou páginas de jornais.

A conjugação da ação destas duas instâncias conduz a que, no termo dos processos, quando as conclusões da justiça não são aquelas a que já se haviam "sentenciado" algumas personalidades, a conclusão dos opinadores de sofá ou de "snack-bar" seja: "estão todos feitos uns com os outros", "eles sempre se safam" e "isto é tudo a mesma pandilha".

Será assim? Não é. Há culpados e inocentes, há vigaristas soltos, figuras caluniadas e, provavelmente, alguns injustiçados. Este é, contudo, o preço de uma democracia frágil, pouco educada e com um nível cívico muito baixo. É o retrato do Portugal de hoje, do país que somos. E, se não somos melhores, a nós e só a nós o devemos.

14 comentários:

Dylan disse...

Excelente análise!

Anónimo disse...

Caríssimo
Senhor Embaixador,

Depois de ler e reflectir seriamente sobre a sua douta análise, na qualidade de cidadão e jornalista, só me resta felicitá-lo vivamente pela coragem, frontalidade, transparência e oportunidade desta postagem.

Obviamente, o estado de situação a que se chegou e nos encontramos tem as suas origens e os seus promotores...

Infelizmente, a culpa não morre solteira ou virgem...

Nos tempos que correm assiste-se, paulatinamente, ao afrontamento entre a informação, que deveria ser objectiva e isenta e, sobretudo, transparente, e o pior dos sensacionalismos com fins obscuros e muitas vezes duvidosos.

Diria mais. Estamos a assistir ao confronto e ao afrontamento entre as várias "escolas" (tendências) de Jornalismo, onde nem sempre impera o bom senso, dando abertura ao oportunismo exacerbado em detrimento dos mais elementares direitos dos cidadãos. Sobretudo, quando se invoca do "jornalismo de investigação"...

É costume dizer-se que "o fruto proibido" é sempre o mais cobiçado, pelo que os poderes públicos instituídos ao negarem sistemáticamente o acesso à informação, às fontes, acabam por estimular e desenvolver essa "apetência desenfreada", onde não se olham e respeitam os mais elementares princípios éticos e deontológicos, imperando a manipulação e a tendenciosidade de interesses individuais e de grupo...

Atento este quadro, obviamente, Portugal está fortemente carenciado de um verdadeiro e autêntico Ensino Superior de Jornalismo.

O tema que, hoje, nos foi colocado para reflexão, levar-nos-ia muito longe, dado que, de montante a juzante, infelizmente, o Jornalismo está doente.

Está muito doente e, sobretudo, destituído da tão necessária credibilidade e autenticidade...

Para fazer jornalismo sério, não basta estudar meia dúzia de regras... Por imperativo, é necessário MUITO BONSENSO e HONESTIDADE PROFISSIONAL!

Com um afectuoso abraço, por aqui, me quedo!...

Paulo M. A. Martins
Fortaleza (CE), Brasil

Anónimo disse...

Subscrevo o seu comentador...

Mas selecionou um indicador implacável...

Assustador, veredito de culpa...

Ainda bem que tem três dedos apontados para a face tenar da mão...
São para Os privados?
Ou surgem dissimuladamente como alternativa?
Isabel Seixas

(c) maioria quase silenciosa: Pedro Almeida Sande disse...

Este indicador remata com: este país precisa de ti!

Vivemos, hoje, é verdade, balizados pela má - e boa - informação e pelas lealdades de que não nos conseguimos separar.
Para quem sempre quis, no entanto, se manter com um olhar mínimo independente, a verdade é que os sinais, não são muitas vezes apenas exteriores, mas derivam de um acumulado de sinais sujeitos a olhares críticos, relativistas qb e não positivistas.
Em última instância, no Portugal do elitista neo-socialismo liberal, a culpa da fragilidade da democracia é sempre mais dos actores, que servem o orçamento, do que dos autores que se sentam cândida e placidamente a repartir a penhora da vida dos pseudo inocentes.

A culpa é tua, besta de falta de civismo, alimária de falta de educação, representante do novo lúmpen proletariado, excluído desta meia cracia de Instalados. É das tuas costelas que têm saído os falsos profetas, os judas escariotes que te vendem por 350 milhões de moedas, o sistema renano Bismarkiano democrático, o sistema judicial baseado na fonte do mau costume e da palavra dos mil e um sentidos!

És tu que exiges empresas municipais, duzentos e trinta deputados, governadores civis qb; és tu que odeias os sistemas Constitucionais participativos Americano e o Suíço; és tu que vês o referendo, o uninominalismo responsabilizante, como milho atirado aos pombos inertes e vazios de conteúdo, aos pombos a quem a viatura da democracia de quatro em quatro anos te atropela.

Enfim, os culpados públicos, somos nós: o público, a terceira Ordem, extraída da costela de si própria, que paga, e querem que não bufe, para a monarquia republicana instalada!

Este País acusa-te a ti, sim a ti cidadão, de quem os Instalados, oito vezes trepadores das montanhas do mundo, já desistiram! Bem diziam, que é preciso levar a carta a Garcia! A João?

(c) maioria quase silenciosa: Pedro Almeida Sande disse...

Este indicador remata com: este país precisa de ti!

Vivemos, hoje, é verdade, balizados pela má - e boa - informação e pelas lealdades de que não nos conseguimos separar.
Para quem sempre quis, no entanto, se manter com um olhar mínimo independente, a verdade é que os sinais, não são muitas vezes apenas exteriores, mas derivam de um acumulado de sinais sujeitos a olhares críticos, relativistas qb e não positivistas.
Em última instância, no Portugal do elitista neo-socialismo liberal, a culpa da fragilidade da democracia é sempre mais dos actores, que servem o orçamento, do que dos autores que se sentam cândida e placidamente a repartir a penhora da vida dos pseudo inocentes.

A culpa é tua, besta de falta de civismo, alimária de falta de educação, representante do novo lúmpen proletariado, excluído desta meia cracia de Instalados. É das tuas costelas que têm saído os falsos profetas, os judas escariotes que te vendem por 350 milhões de moedas, o sistema renano Bismarkiano democrático, o sistema judicial baseado na fonte do mau costume e da palavra dos mil e um sentidos!

(segue)

(c) maioria quase silenciosa: Pedro Almeida Sande disse...

...

És tu que exiges empresas municipais, duzentos e trinta deputados, governadores civis qb; és tu que odeias os sistemas Constitucionais participativos Americano e o Suíço; és tu que vês o referendo, o uninominalismo responsabilizante, como milho atirado aos pombos inertes e vazios de conteúdo, aos pombos a quem a viatura da democracia de quatro em quatro anos te atropela.

Enfim, os culpados públicos, somos nós: o público, a terceira Ordem, extraída da costela de si própria, que paga, e querem que não bufe, para a monarquia republicana instalada!

Este País acusa-te a ti, sim a ti cidadão, de quem os Instalados, oito vezes trepadores das montanhas do mundo, já desistiram! Bem diziam, que é preciso levar a carta a Garcia! A João?

Helena Oneto disse...

Magistral!!!

"É o retrato do Portugal de hoje, do país que somos. E, se não somos melhores, a nós e só a nós o devemos".

A democracia -e o bom senso- são um luxo! privilégios acessiveis -irremediavelmente, hélas- unicamente a quem os merece...

Anónimo disse...

Excelente e corajoso texto, caro Embaixador

CSC

Anónimo disse...

...e novidades?

José Martins disse...

Senhor Embaixador,

Esta sua peça é uma das mais brilhantes e corajosas que tenho lido desde que frequento, diariamente, o seu blogue. Cada vez mais a comunicação social portuguesa segue pelo caminho da amargura.
.
O poder continua a dominá-la e quem dela vive a terá que se amanhar ao sistema para conseguir dar ao dente.
.
Sou um amador do jornalismo e uma paixão que vive dentro de mim desde muito jovem. Em Moçambique, lidei (na mesa do café) com grandes jornalistas, como o Rui Cartaxana, Gouveia de Lemos e muitos outros já falecidos.
.
Estávamos no tempo da censura em que o estafeta da redacção, durante a noite, caminhava e voltava do gabinete da censura com os cortes, a vermelho, nas peças. Aquilo era um autêntico inferno.
.
Os jornalistas eram perseguidos e um dos maiores jornalistas que eu conheci, Gouveia de Lemos, teve que deixar a cidade da Beira e partiu com a família para o Brasil, porque pretendia colocar a descoberto um caso grave e foi travado pelo “patrão” do diário.
.
Depois do 25 de Abril de 1974, a censura deixou de existir e cobriu-se com outro manto e sofisticadamente ela continua “bibinha” da costa.
.
O Poder continuo a dominar a comunicação social e o jornalista amordaçado.
.
Há uns quinze anos, como correspondente de uma agência noticiosa, tive conhecimento de um caso, passado num país do Sudeste Asático que num consulado, honorário, estavam a cobrar duas vezes mais, que a tabela, pelos emolumentos consulares.
.
O português, utente, deu-me conta e quero saber aquilo que se passava naquele consulado honorário. Pelo telefone o funcionário, informa-me que sim senhor estava a cobrar o dobro pelos emolumentos.
.
Dei conta ao meu embaixador se poderia escrever uma peça sobre o assunto e deu-me luz verde e pelo fax expedi-a para a delegação.
.
Não tardou que o director da delegação me telefonasse e me informasse: “Oh pá a gente não vai meter a peça na linha que mandaste agora, porque estamos a dar “porrada” em nós próprios..."
.
Era o receio do director que fosse indispor o poder e a censura, encoberta, a comandar a informação.
Saudações de Banguecoque
José Martins

Fernando Frazão disse...

Chapeau...

Anónimo disse...

Texto interessante, como quase sempre. Um passo necessário à evolução do nosso pais ?

Será que em Portugal há demasiada gente que não presta ?

… Os jornalistas ? . «Quand les mouettes suivent un chalutier, c'est parce qu'elles pensent qu'on va leur jeter des sardines» Eric Cantona.
Carlos Falcão

Anónimo disse...

Grande Post! Também gostei de ouvir MST e MRS na SIC e TVI outro dia. Enfim, é a imprensa que temos, ms pior é a Justiça que continuamos a ter.
P.Rufino

Bettencourt de Lima disse...

Politica canalha



Assente e aceite , baseada em lugares comuns, engodo fácil para néscios e gente amoral, está a utilização sistemática da insidia, da calunia , do vilipendio para atingir adversários políticos, vender jornais, gastar horas de televisão e , enquanto dura, promover a figuras públicas, com estatuto de «justiceiros». Algumas pessoas, que , passada a «onda»,voltam necessariamente à vulgaridade.

São conhecidos os jornalistas , comentadores ,pivôs de televisão que alimentam estes processos.

Cientes das «verdades » insofismáveis de ditados populares como «não há fumo sem fogo» ,«quem anda à chuva é que se alaga » etc, e cientes do peso que estes tem na formação do pensamento dos mais incautos, lá estão eles sempre disponíveis, pressurosamente disponíveis, para nos dar conta da «riqueza» do seu pensamento enquanto arrastam a barriga pela lama, numa volúpia irreprimível.

Bom, assim é, assim será.