sábado, 18 de julho de 2009

Maspero

Entre 1956 e 1975, uma livraria fazia parte do circuito de um certo Portugal político em Paris. A "Joie de Lire", na rue St. Severin, junto à place St. Michel, propriedade do editor François Maspero, era um ponto de encontro de muitos, que por aqui viviam, com outros que, como eu, por aqui passavam, a partir da segunda metade dos anos 60. Para aquela espécie de turistas políticos que alguns de nós então éramos, a Maspero (ninguém dizia a "Joie de Lire") era uma "meca" da livralhada inacessível em Portugal, à qual se juntavam panfletos e publicações dos partidos portugueses na clandestinidade, que despertavam a nossa imensa curiosidade.

François Maspero tinha como orientação não entregar à polícia - à "polícia da burguesia" - quem fosse apanhado a roubar livros, o que criou, em muita gente, uma espécie de impunidade que, ao que se dizia, terá acabado por levar a livraria à ruína económica. Fui testemunha presencial de uma frutuosa e furtuosa "romagem" à Maspero de um amigo português, ao tempo estudante em Paris, convenientemente dotado de um avantajado capote alentejano, que dava espaço para um eficaz "arquivar" de volumes. Ainda o estou a ouvir: "Ora cá está ele! Faltava-me o volume 8 das obras do Bataille!". E lá desapareceu o avantajado volume da Gallimard no bojo do capote...

3 comentários:

Alcipe disse...

O François Maspéro publicou agora um comovedor romance autobiográfico... Viste?

Anónimo disse...

Nestra livraria encontrava-se todo o tipo de ediçoes de esquerda e de extrema esquerda. Até documentos editados clandestinamente ali se encontravam. Bastava descer ao piso de baixo onde encontravamos panfletos que para ali iriam também com uma certa discriçao.
Frabçois Maspero ficou marcado pela historia familiar durante o periodo da resistência. O seu pai, Sinologo, professorava no colégio de França quando foi preso em 1944 e morto no campo de concentraçao de Buchenwald; o seu irmao foi morto no mesmo ano em combate; a sua mae foi também atirada para o campo de concentraçao de Ravensbruük mas consegue sobreviver.
François Maspero abriu esta livraria ali no quartier Latin, em 1955, com os seus jovens 23 anos de idade, e deu-lhe um cunho de esquerda e de abertura sem qualquer tipo de censuras...
Obrigado Embaixador por trazer esta juventude du Joie de Lire.
José Barros

Helena Sacadura Cabral disse...

Uma boa recordação. Passei horas nessa livraria onde nasceu uma boa parte dos livros que tenho. Paguei-os sempre com a noção de que estava a ajudar alguém que os não pudesse pagar!
Crenças de um tempo que não volta. E utopias de quem não tem de gerir um património.
Por razões diversas, faz-me lembrar a aventura da Morais, do meu saudoso António Alçada!