sábado, 11 de julho de 2009

Duas rodas

Eu consigo perceber, sem dificuldade, que se tente privilegiar quem viaja de bicicleta, dando-lhes faixas de circulação próprias, protegendo-os e estimulando o seu uso, mesmo se, por vezes, o comportamento dos respectivos condutores fica algo à margem das regras comuns de trânsito. Porém, trata-se de um meio de transporte que, além de saudável, é não poluente e cuja utilização com velocidades razoáveis tem, sem contestação, um impacto global positivo sobre as sociedades.

O que eu não entendo, por mais que me esforce, é por que diabo temos de sofrer, cada vez mais, uma espécie de assédio de tráfego por parte dos veículos motores de duas rodas, que enxameiam as nossas ruas e estradas. Que eles por aí andem, muito bem: têm um direito como qualquer outro. Mas é inexplicável a impunidade com que não cumprem as regras mais elementares de trânsito, como ultrapassam por ambos os lados das nossas viaturas, como não respeitam os traços contínuos, como se enfurecem e se tornam violentos se nos limitamos a exercer esse direito básico que é podermos ocupar a totalidade das nossas faixas de rodagem.

Em cidades como S. Paulo, no Brasil, os chamados "motoboys" são hoje uma raça humana verdadeiramente terrorista, que obriga a um aturado esforço de concentração dos condutores automóveis para deixarem o espaço necessário a "suas excelências" circularem como lhes aprouver, pela esquerda ou pela direita, zigzagueando em frente às viaturas, sem o menor respeito pelos limites de velocidade, buzinando a todo o momento e assumindo comportamentos de elevada agressividade se acaso consideram, com razão ou sem ela, que os seus "direitos" adquiridos (e eles estão, de facto adquiridos, porque o grupo faz hoje forte chantagem política) estão a ser limitados. Para além de, com frequência, pontapearem os carros e quebrarem deliberadamente espelhos retrovisores.

Porém, um fim-de-semana por estradas de França provou-me que o problema tem por aqui uma dimensão já muito similar, obrigando a um esforço particular de atenção por forma a permitir que os "senhores das motos" se possam passear à vontade entre os automóveis, num comportamento sem rei nem roque, desde os distribuidores de pizzas aos cultores canastrões que vão "on the road" num estilo "Easy Ryder", na melhor das hipóteses ufanos nas suas Harley-Davidson. E como, em França, se não vê um polícia de estrada por centenas de quilómetros, a lei da selva está hoje por aqui instituída.

Resta dizer que, em Portugal, as coisas vão por caminho perfeitamente idêntico. Pior: em certas zonas, há mesmo uns selvagens, com ou sem capacete, que transportam crianças entre adultos, numa impunidade total, ficando-se com a sensação de que estão protegidos por uma espécie de benévola antropologia ruralista.

Um ortopedista dizia-me, há anos, com algum sadismo, que a anarquia da circulação das motos em Itália tornava o país num "paraíso" para os médicos da sua especialidade. Eu, confesso, não lhes desejo mal, mas começo a ficar farto. E que dirá o meu amigo e "motard" Manuel Serra a tudo isto?

7 comentários:

Pedro Lopes disse...

De um colega, pessoa de elevadíssima estatura moral, de cultura como se vê hoje pouco, cientista de renome, profissional competentíssimo, à altura dos acontecimento mottard convicto e praticante, ouvi isto, a descrever o que tinha feito quando passou de mota (portanto em andamento!) ao lado de um carro, porque o carro se manteve na sua faixa de rodagem e "não lhe deu passagem":

- ... Passei ao lado dele [carro] e preguei-lhe um pontapé na porta, que lhe meti a porta dentro, e acelerei a fundo para ele não me apanhar!

Abri a boca de espanto e não sei se o chão não fez "tum" com o que o meu maxilar inferior caiu tanto... Lembro-me de lhe dizer "deves estar doido" e de ele ter respondido com um riso satânico...

Será que são as motos que inoculam alguma componente por descobrir que opera destas aberrações?

[caso verídico, para o caso de se interrogarem que invento]

Alcipe disse...

Cá na minha terra, além das duas rodas, temos ainda as três rodas (rickshaws, também chamados tuk-tuks) e as quatro patas (camelos, búfalos, elefantes), além dos mercadinhos instalados na faixa dos lentos (aqui são à esquerda) das auto-estradas (ideia favorável ao comércio)...

Quanto aos capacetes, foram declarados obrigatórios por lei, mas o movimento de defesa dos direitos das mulheres conseguiu revogar tal obrigação para o género feminino (os penteados...) e os sikhs conseguiram também obter uma excepção (os turbantes...).

Só o condutor da moto usa capacete, a mulher, os filhos e a avó, que viajam apinhados na mesma moto, estão dispensados...

Anónimo disse...

Até que enfim ! Haja alguém com coragem para dizer isto ! Porque é que isto não é publicado num jornal de grande expansão ?

Isabel Meireles

Fernando Correia de Oliveira disse...

A acrescentar às motos, começam a proliferar por Lisboa duas outras espécies bastante anárquicas - os ciclistas (sem capacete, sem matrícula, sem luz ou reflectores de noite) e os peões (em vias rápidas, mesmo em auto-estradas, e galgarem separadores de cimento, redes...) para não falar de distribuidores de jornais grátis, de publicidade, pedintes, lavadores de vidros, etc, que se metem à frente em qualquer sinal vermelho.
Claro que criticar ciclistas e peões é, neste momento, politicamente incorrecto, face ao "todo-poderoso" automóvel, mas a situação começa também em Lisboa a ser insustentável.

Anónimo disse...

Aqui há um ano atrás, fui vítima de um desses “motards”. É que a estrada do Cabo, entre a Malveira da Serra (ali perto do Guincho) e a Azóia (onde está o Cabo da Roca) é hoje um local de “peregrinação” de centenas de “motards”, designadamente ao Domingo. Andam ali para trás e para diante, em alta velocidade, parando por vezes em grupos numerosos, para confraternizar e ver a espectacular paisagem que dali se desfruta, voltando depois à loucura da estrada. Na maioria são motas mais modernas, mas também se vislumbram as velhinhas “”Harley-Davison”. E há ali de tudo. Gente nova, menos nova e os tais “canastrões”. Até podia ser um momento interessante, mas acaba por ser o contrário, precisamente pelos abusos constantes cometidos e violações do Código da Estrada, o que acaba por ser um constrangimento para os condutores dos veículos automóveis e um risco. No meu caso, vivendo para aqueles lados e conhecendo bem aquela “rapaziada” vou sempre “munido” de todo o cuidado quando tenho de fazer aquele percurso aos Domingos, o que evito na maioria desses dias. Mas naquele particular Domingo, quando me preparava para virar à esquerda e mesmo depois de assinalar com todo o cuidado essa mudança de direcção, o “motard” que seguia atrás de mim, ignorando-me “avança” numa estúpida ultrapassagem e o acidente aconteceu. Embateu com força contra a minha porta lateral esquerda, metendo-a “dentro”. A mota dele ficou sem grande concerto, o tipo ferido, felizmente sem gravidade. E juntou-se logo ali um “maralhal” de “motards” solidários com o irresponsável. Veio a GNR, mas apesar de se ter constatado ser proibido ultrapassar ali por ter um traço contínuo, com apenas um pequeno tracejado para quem tem de sair, ou entrar (como era o meu caso) na pequena localidade ali e ainda existir um sinal de proibição de ultrapassagem, o que só reforçava a culpa do motociclista, a GNR nada fez. Vim a saber depois que alguns dos ditos “motards” ali, são, nos dias de folga, eles próprios alguns elementos da GNR. E foi uma chatice depois com as Seguradoras. O que só veio confirmar aquilo que eu e muitos conhecidos meus pensamos delas. Gente sem escrúpulos, inqualificáveis, genericamente falando. Mesmo com todos os elementos de prova contra o dito “motard” tudo tentaram para evitar pagar os meus danos. Acabei por “ganhar” a causa depois de ameaças de tribunal. Mas tudo isto sucedeu por causa de um irresponsável “motard”. Como todos os outros que aos Domingos ali estão. Ainda ontem por lá andavam, provocando novo acidente, envolvendo outra viatura. Só que desta vez a coisa teve consequências bem mais graves, segundo vim a saber. Lamentável.
P.Rufino

Anónimo disse...

MUITO OBRIGADA POR ESTE POST.
Por vezes quando leio o que escreve tenho a sensaçao que me roubou as "palavras da caneta". é o caso do post de hoje ou o dos empregados de café hà uns dias atras.
Quando reajo de forma virulenta em relacçao aos motards qua acham que têm que passar a frente de toda a gente e por todo o lado so porque têm duas rodas o meu marido lembra-me logo que sou do Sul...
O que mais embirro é com aqueles capacetes pretos tipo "Cylon"que eles usam so para nos intimidarem. Um dia um individuo so porque nao o deixei passar perseguiu-me durante umas centenas de metros so para me bater com a mao no vidro do lado do conductor. Seria preciso muito mais do que isso para me deixar abater !
NAO SUPORTO MAIS vê-los em linha horizontal nos sinais vermelhos ocupando a zona reservada às bicicletas numa ganância infantil de "ser o primeiro" a arrancar;
NAO SUPORTO MAIS que nos retirem zonas de estacionamento na cidade de Paris para criarem zonas reservadas às motas;
NAO SUPORTO MAIS que as motas "roubem" os lugares des estacionamento dos automoveis apesar de lhes terem criado os seus proprios cantinhos;
NAO SUPORTO MAIS qua as motas estacionem nos passeios;
NAO SUPORTO MAIS o facto de nao multarem nem rebocarem as motos;
NAO SUPORTO MAIS AS MOTOS, PRONTO !

Julia Macias-Valet

Tadeu disse...

O facto de muitas pessoas andarem de mota nas cidades é benéfico.

Senão vejamos
1- ocupam menos espaço, deixando mais espaço para os que ainda andam de carro sozinhos.
2- Por norma consomem menos, fazendo menos poluição.
3- aumentam a mobilidade de uns quantos serviços e tarefas que servem a todos.

Tudo isto não justifica a falta de civismo de uns quantos motociclistas.
Mas, sempre que tenho que andar de carro, preocupo-me em facilitar a passagem dos motociclistas. É um acto fácil e que produz bem a uns quantos na sua mobilidade, quantos eu conheço que são médicos, enfermeiros, polícias, bombeiros e outras profissões que todos gostamos que respondam rápido quando deles precisamos.

Ah e não tenho inveja por me passarem à frente.

Se fosse eu que mandasse criava portagens bem caras para se entrar de carro sozinho nas cidades. De bicicleta ou de mota seria grátis. Vão ver que deixava de haver o caos no trânsito das cidades e os passeios cheios de carros mal estacionados, isso sim uma verdadeira falta de respeito pelos peões, em especial pelos de mobilidade reduzida.