segunda-feira, dezembro 14, 2009

Niemeyer

Oscar Niemeyer, o genial arquitecto brasileiro, faz hoje 102 anos.

Em 2007, ano do seu centenário, Niemeyer foi eleito membro da Academia das Ciências de Portugal. Antes, falei-lhe pelo telefone, sondando-o sobre a aceitação do título. Ficou encantado com o convite e deu-me logo conta das suas raízes portuguesas, origem dos apelidos "Ribeiro de Almeida", que figuram no seu nome.

Fui depois visitá-lo ao Rio de Janeiro, para lhe entregar o diploma. Foi uma conversa longa, a que também esteve presente o meu colega António Almeida Lima, cônsul-geral no Rio de Janeiro, durante a qual demonstrou uma agilidade de espírito e uma memória notáveis.  Falou das suas passagens por Portugal, onde se deslocava sempre de barco, porque detesta aviões. Recordou uma deslocação a Lisboa, em 1975, com as paredes da cidade cheias de slogans revolucionários: "Os restantes passageiros, quase todos uns insuportáveis reaccionários, estavam escandalizados. Eu adorei!" - disse, fazendo juz à fé comunista que, até hoje, nunca o abandonou.

Entre outras coisas, disse-me ter pena que a única obra em Portugal do seu escritório seja um hotel no Funchal (uma outra construção, planeada para os arredores de Lisboa, nunca chegou a ser concluída), tendo tomado a iniciativa de destacar o "excelente arquitecto" que é Álvaro Siza Vieira.

Nessa conversa, Niemeyer falou também do seu gosto pela literatura portuguesa, citando Diogo do Couto e Guerra Junqueiro. Da estante do seu escritório pendia uma folha de papel, com um poema dactilografado. À saída, por curiosidade, deitei um olhar mais atento. Era a "Trova do Vento que Passa", de Manuel Alegre.

Brasília fará 50 anos em 2010. Aposto em como Niemeyer estará nas comemorações!

12 comentários:

  1. Que bom recordar este dia...
    Uma vida de sonho numa mente brilhante e de lúcida coerencia...
    Obrigada
    :))

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  2. Caro Embaixador,
    ... não quererá dizer Álvaro Siza Vieira?

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  3. Caro Correia de Araújo: muito obrigado pela correcção. Claro que era Álvaro Siza Vieira.

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  4. Anónimo01:26

    Trova do vento que passa

    Pergunto ao vento que passa
    notícias do meu país
    e o vento cala a desgraça
    o vento nada me diz.

    Pergunto aos rios que levam
    tanto sonho à flor das águas
    e os rios não me sossegam
    levam sonhos deixam mágoas.

    Levam sonhos deixam mágoas
    ai rios do meu país
    minha pátria à flor das águas
    para onde vais? Ninguém diz.

    Se o verde trevo desfolhas
    pede notícias e diz
    ao trevo de quatro folhas
    que morro por meu país.

    Pergunto à gente que passa
    por que vai de olhos no chão.
    Silêncio -- é tudo o que tem
    quem vive na servidão.

    Vi florir os verdes ramos
    direitos e ao céu voltados.
    E a quem gosta de ter amos
    vi sempre os ombros curvados.

    E o vento não me diz nada
    ninguém diz nada de novo.
    Vi minha pátria pregada
    nos braços em cruz do povo.

    Vi minha pátria na margem
    dos rios que vão pró mar
    como quem ama a viagem
    mas tem sempre de ficar.

    Vi navios a partir
    (minha pátria à flor das águas)
    vi minha pátria florir
    (verdes folhas verdes mágoas).

    Há quem te queira ignorada
    e fale pátria em teu nome.
    Eu vi-te crucificada
    nos braços negros da fome.

    E o vento não me diz nada
    só o silêncio persiste.
    Vi minha pátria parada
    à beira de um rio triste.

    Ninguém diz nada de novo
    se notícias vou pedindo
    nas mãos vazias do povo
    vi minha pátria florindo.

    E a noite cresce por dentro
    dos homens do meu país.
    Peço notícias ao vento
    e o vento nada me diz.

    Quatro folhas tem o trevo
    liberdade quatro sílabas.
    Não sabem ler é verdade
    aqueles pra quem eu escrevo.

    Mas há sempre uma candeia
    dentro da própria desgraça
    há sempre alguém que semeia
    canções no vento que passa.

    Mesmo na noite mais triste
    em tempo de sevidão
    há sempre alguém que resiste
    há sempre alguém que diz não.

    Manuel Alegre

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  5. Anónimo01:39

    Mesmo na noite mais triste
    em tempo de servidão
    há sempre alguém que resiste
    há sempre alguém que diz não.

    A mensagem desta quadra para mim é soberba ...pelo ritmo evolutivo e intemporal de esperança que assume,e nos deixa a convicção/certeza desse Alguém que vela desinteressadamente os vulneráveis e oprimidos... Um qualquer Deus Resiliente que advoga incondicionalmente Liberdade...

    É fascinante ... Deveríamos coroá-la no mínimo com os cravos de Abril...
    Isabel Seixas

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  6. Em Paris, Oscar Niemeyer também deixou o seu traço :

    Siège du Parti Communiste Français
    2, place du Colonel-Fabien
    Section 1 sur 1

    Belleville-Ménilmontant-Buttes Chaumont
    Monument(s) et édifice(s) public(s)

    Catégories
    Monuments et édifices

    Periode : entre 1971 et 1980
    Artiste : Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho. (Oscar Niemeyer)
    Région en relation : Paris XIXème

    Métro : Colonel Fabien

    Conçu bénévolement par l'architecte brésilien en 1965, le siège du Parti communiste sera inauguré quinze ans plus tard sur un terrain triangulaire, légèrement pentu, dont la pointe aboutit place du Colonel-Fabien.

    Description

    Le corps de bâtiment principal en retrait, élargit la perspective et masque la construction située derrière. Ses lignes courbes, qui évoquent un drapeau déployé au vent, rappellent la forme de l'immeuble Copan, à Sao Paulo. Le mur-rideau sera mis au point par l'ingénieur français Jean Prouvé. La coupole, semi enterrée, abrite la salle du Comité central. Elle est habillée de milliers de lamelles d'aluminium dissimulant des éclairages. Le hall d'entrée est également semi-enterré, pour des raisons de sécurité.

    FELIZ ANIVERSARIO ; )
    Ao arquitecto das "soucoupes-volantes" como lhe chama um dos meus filhos.

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  7. Julgo que o post se refere a um projecto que Niemeyer desenhou para ser a sede da Fundação Luso-Brasileira e para o qual a CMLisboa tinha destinado um terreno na chamado Quinta dos Alfinetes, na zona oriental da cidade.
    Por motivos que não vêm ao caso,o projecto de Niemaeyer nunca chegou a ser realidade.
    Lisboa continua, assim, sem uma obra de um dos mais importantes arquitectos do Sec. XX.
    Acontece que um tal edifício, pensado para uma instituição destinada a estreitar os laços entre o Brasil e Portugal, adequar-se-ia como uma luva, alargando-lhe o escopo, a uma Casa da Lusofonia onde pudesse ficar instalada uma Sede da CPLP, com espaços para auditórios, biblioteca, exposições e outros eventos de carácter cultural, científico e/ou lúdico.
    Julgo que esta proposta poderia ser objecto de um movimento público que a propusesse à CML e ao Governo português, o que homenagearia um dos maiores arquitectos mundiais, valorizaria sobremaneira a cidade capital de Portugal e dotaria a CPLP de instalações dignas dos seus propósitos e objectivos.
    Não ignoro os constrangimentos financeiros que tal iniciativa acarretaria mas os fundos exigidos não seriam incomportáveis e seria uma obra que marcaria um período.
    Peço-lhe desculpa por "parasitar" o seu blog mas reconheço na qualidade dos seus leitores a potencialidade para iniciar uma campanha que motive o Governo e a CML a concretizar esta ideia.

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  8. Senhor Embaixador, sou das que me maravilho com a obra de Niemeyer. Já antes Le Corbusier tivera em mim o mesmo efeito.
    Ter 120 anos e possuir a lucidez deste homem é, de facto, uma dádiva (divina?)rara.
    Lembro, à nossa escala, Manoel de Oliveira que, com a mesma idade, continua a trabalhar...

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  9. Anónimo09:39

    Nada melhor que um fácies do tempo intemporal, para rememorar a arquitectura da recordação do saudosismo.

    O cenário é em Bornes claro...
    O pátio onde arquitectos do analfabetismo vigente à época deixam a lucidez de uma sensibilidade estética transmitida pelo empirismo ancestral, aglutinava as brincadeiras inocentes de três crianças, duas irmãs e uma irmã por direito do carinho interactivo, a paisagem um metro de neve, uma fogueira acesa dentro de casa e uma voz de Mãe a chamar para o lanche assadura de vinho e alho, pão e um sorriso livre da cerimónia da castradora e dúbia incerteza de um qualquer conceito de inferioridade redutor e sem sentido a estorvar...

    O sentimento é um momento de plenitude inexorável e extensivo à humanidade, sem deslumbramentos de poder aliados ao supérfluo...

    Obviamente época de Natal...
    A aura infiltrativa do Amor incondicional paira num Ar de todos e para todos...

    só porque hoje está um dia assim, daqueles em que um Deus irreverente, Ateu e surpreendente nos dá um bónus sem sentimento de culpabilidade e nos permite ficar em casa porque durante a noite nos bafejou com um manto de neve que impede os nossos filhos de ter aulas e forja a melhor desculpa para não ir ao trabalho...

    Só não tenho a assadura de vinho e alho, não mantive a tradição de matar o porco/reco, mas consigo manter o espírito e auferir da paisagem que me permite acreditar que vivo "como vossas Excelências" no melhor local do mundo...
    Chaves, Musa inspiradora...

    A neve sempre me inspirou pela sua beleza enigmática exclusivamente feminina...
    Ouso pensar que o Sr. arquitecto homenageado neste post seja influenciado na sua obra por Ela...
    Isabel Seixas

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  10. Cara Helena,
    deixo-lhe aqui uma ideia de visita a realizar (caso ainda nao conheça) numa proxima visita que nos faça.

    www.fondationlecorbusier.asso.fr

    Paris tem este charme de esconder locais fabulosos de turistas que so vêm para ver a Torre Eiffel ou a Disney.

    Um abraço.
    PS. Por vezes é necessario reservar a visita com antecedência.

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  11. Cara Júlia
    Esta sua amiga viveu úm dos melhores períodos da sua vida em Paris. Conheço a Fundação e sabe pela mão de quem? Da minha querida homónima Vieira da Silva.
    Tem toda a razão quando diz que, por norma, só se conhece o lado turístico da capital das luzes. É pena...
    Já me desafiaram para escrever um livro sobre os meus "petits coins parisiens". Um dia talvez o faça. Será um visão especial, creia, de quem aí foi, e é, muito feliz!

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  12. Anónimo14:20

    Oscar Niemeyer ou "o mais famoso dos Soares", como me disse hoje um amigo. :)

    O casino da Madeira foi feito pelo arquiteto Viana de Lima, com base em planos (ou esquiços - há teorias), do Niemeyer. Na "pior" das hipóteses, é um edifício fortemente inspirado pelo brasileiro.

    Quem estiver muito interessado nesta história pode procurar na revista "Arquitectura & Construção" que, em tempos, trouxe um bom texto sobre o assunto.

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"A Arte da Guerra"

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