sexta-feira, 23 de junho de 2017

O S. João e o tio Óscar


Era uma figura baixa, rotunda, sempre muito esticado, elegante, de fato com colete e relógio de bolso, chapéu largo, ar grave. Oficial do Exército, presente nas campanhas de África da 1ª Guerra, casara com a mais bonita irmã da minha avó, que “raptara” das Pedras Salgadas para a Ramada Alta.

Já só o conheci na reserva. Viviam num andar com um cheiro confortável e indefinível, que ainda hoje reconheceria em qualquer lugar do mundo. Da varanda traseira envidraçada, onde se tomavam as refeições, via-se a estátua da Rotunda e o comboio para a Póvoa, que passava fumegante ao fundo. Para mim, ido da província profunda que então era Vila Real, aquelas luzes davam à cidade ares de incomparável metrópole cosmopolita, deslumbrando-me os sonhos de futuro.

Foi o tio Óscar quem me ensinou o Porto, melhor, quem me ensinou a gostar do Porto, nas temporadas que por lá passei com ele. Levava-me a passeios de elétrico até Matosinhos, subimos o elevador da ponte da Arrábida, calcorreei os jardins do Palácio.

Sendo ele portuense de gema, não me recordo de ter inclinações clubistas. Era um leitor compulsivo, organizado, mandava encadernar os livros na Mártires da Liberdade. Foi ele quem me deu a ler, pela primeira vez, Arnaldo Gama, uma escrita quase tão imprescindível como “Uma Família Inglesa” para se perceber o espírito da terra.

O tio Óscar colecionava “O Tripeiro”, começando o dia a ler “o Janeiro”. Depois do almoço, antecedido de um passeio “higiénico” a passo forte pela Constituição, descia Serpa Pinto, galgava Cedofeita até Carlos Alberto, rumo ao Rialto. Aí se juntava a um grupo de amigos, creio que “camaradas” também na reserva, até que chegava, “fresco” e sujando os dedos, o “Diário do Norte” e se iam fazendo horas para apanhar o 6, na Praça, com destino último Monte dos Burgos.

Aos domingos, o programa variava: iam almoçar à Messe, na Batalha e, se o tempo estivesse a jeito, passava com a Tia Maria a ver as montras de Santa Catarina e de Santo António. Parece que, com sol, às vezes, acabavam o dia num chá no Bela Cruz, junto ao Castelo do Queijo.

“Tens de vir cá pelo S. João! Não há festa no mundo como aquela!”, repetia-me, com orgulho, embora mais tarde eu não o estivesse a ver, pelas Fontaínhas, a levar com o alho-porro de rigor, nesse tempo em que ninguém tinha sonhado martelos de plástico. Era o seu amor ao Porto que o fazia alardear uma festa a cuja confusão, tal como hoje sucede a muitos portuenses, imagino que fugisse.

Foi essa imagem mítica do S. João do Porto que transportei comigo quando um dia fui viver para a cidade, já o tio Óscar tinha desaparecido. Tive pena de não lhe poder ter dito que ele tinha toda a razão: é uma das mais impressionantes festas do mundo.

Bom S. João para todos!    

7 comentários:

Anónimo disse...

Curioso, primeira vez no São João no Porto ou no Santo António em Lisboa e foi a última.
Aquilo é de fugir. Gente brejeira, suja, bêbada, insolente e malcriada. E a juntar a isso tudo, o cheiro que nos fica na roupa e no corpo, a peixe e carne grelhada já para não falar a tabaco em doses industriais. Fique com ele todo para si. Nem pago ponho lá os pés. Gostos!

Anónimo disse...

Bom S. Joao para si tambem.

Nunca estive no S. Joao no Porto e tenho pena de nao ter estado em 1980 quando Lou Reed esteve mas nao cantou/tocou. Devido a uma greve da Tap, Luo Reed viajou de comboio: Sta. Apolonia-Campanha. O concerto a 24 nao aconteceu porque, alegadamente, L.Reed andou nas festas, correu as tascas das Fontainhas e nao houve guronsan ou agua das pedras que lhe valesse!!!!

Anos mais tarde em 8 de Julho estive num concerto no "Hammersmith Apollo" quando ele relancou o album "Berlin" e comecou a tournee pela Europa.

Aqui de longe farei o que me e possivel: Comer sopa de alhos porros e ouvir Lou Reed.

Boa continuacao

F.Crabtree

Anónimo disse...

obrigada pelo "bom são joão", vou fazer por isso,
vw

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

Bela historia e bem contada.

O Tio Oscar e da Marta e daqueles que se juntaram aos deuses da cultura e Nunca morrem. Na companhia de HEros e SAMANUS, o deus do RAIO E TROVAO. Zangado com Antonio Costa por nao ter encomendado Kualas da Australia para comerem as do eucaliptus e reciclar ou ums rebenhos de cabras do Alvao que limpariam OS pinheirais de Leiria.

Com as boas gracas de SAMANUS , salvaria as vidas dos queimados de Perdogao.
Mas que MAIS se espera de um PM passa a culpa, de sorrisos manhosos e meias verdades? Muito ocupado com pansa cheia.

Fico realmente admirado que Assembleia National da Republica. O nao PONHA NA RUA, depois tal erro e catastrophe.

Tambem vou ir ao SAO JOAO do WATERBURY.
OS 3 dias, vai ter sardinhas importade de Portugal e rancho a banter o pe.

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

As Kualas adoram folhas de eucaliptus, o grande combustivel de Perdogao.

Ana Vasconcelos disse...

Que belo texto! 'Viviam num andar com um cheiro confortável e indefinível, que ainda hoje reconheceria em qualquer lugar do Mundo' levou-me para outros tempos felizes e para o aroma da casa dos meus avós. Lugares de hábitos enraizados onde nos fizeram sentir queridos. Que saudades.

Anónimo disse...

gosto muito destes seus textos sobre os tempos passados