quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Labirinto

Ainda a propósito das "secretas", que já hoje aqui referi, lembrei-me de um amigo com quem falo muito raramente. Quase sempre, é ele quem me liga. 

Desde os anos 80, altura em que o conheci, as suas conversas telefónicas são sempre tidas sob o implícito pressuposto de que estamos a ser escutados. O que até pode ser verdade, mas é totalmente irrelevante, porque os temas de que falamos são de lana crapina e, não tendo nós qualquer informação privilegiada no domínio político (o que dá imenso sossego), os nossos diálogos acabam por ter a profundidade de meros comentários de jornal - sobre o governo, figuras políticas, diplomatas que ele conheceu, etc.

Mas ele insiste sempre: "Então o seu amigo de lá de cima sempre aceitou o cargo?". Confuso, arrisco um nome e, do outro lado, quase que pressinto o desagrado com o escusado "outing". Por vezes, o tom envolve gente assim "desenhada" de forma críptica que aquilo se torna para mim num labirinto, uma espécie de batalha naval oral. 

E a conversa prolonga-se, sempre, sem exceção, no mesmo registo: "Disseram-me que, há dias, esteve a almoçar junto ao rio com o homem do banco?". 

Se a interlocução estivesse, de facto, a ser gravada, e com os bancos pelas ruas da amargura como andam, podia deduzir-se grossa marosca. Com que então "com o homem do banco"?! Negócios? "Inside trading"? Crédito suspeito? Mas não, tratava-se simplesmente de um amigo meu que trabalha num banco (atividade, até ver, ainda não punível por lei), que já não via há muito tempo e com quem fui comer um peixe a um restaurante, junto ao Tejo, com imensa gente conhecida à volta. Chato, confirmei: "Sim, é verdade, estive com Fulano a a almoçar há dias". O silêncio reprovador do outro lado da linha deu a entender que eu tinha feito mais um escusado "leak". E tudo continua nesse registo, tornando a conversa num labirinto complicado.

É assim este meu amigo. Há dois ou três anos, organizámos - eu e um grupo de pessoas de quem ele gosta - um almoço num restaurante. Aí, a coreografia foi diferente. Quando pronunciava o nome de alguém mais importante, via-o a olhar para os lados, porque, sabe-se lá, "as paredes têm ouvidos"... 

Aquele meu amigo é que deveria ter ido para as "secretas".

2 comentários:

Anónimo disse...

é muito facil ser se racional quando não se ouve o zumbido das balas, nem as granadas que rebentam. é facil ser-se racional quando se tem onde dormir, quandp se tem o que comer. E quando a nossa ideia de mundo, de aquilo que esta a nossa volta ( e por conseguinte é a parte de nos no nosso mundo) nao se desfaz.

Penso sempre se o caracter, as vezes estranho, de certos belgas e franceses nao sera profundamente marcado, por essas guerras destruidoras, por vezes de tudo, que foram, a segunda e sobretudo, a primeira guerra mundial. Tenho impressão que por vezes se pressente nessas pessoas uma insegurança, uma qualquer coisa como se ecoasse ainda através delas as aldeias destruidas, as familias detroçadas, e demais barbaridades vividas pelos seus antepassados....


os alemaes nao conheço bem, mas parece que apesar de tudo, fizeram uma maior catarse da segunda guerra...
(talvez me engane nisto tudo, mas nao deixo de pensar assim por vezes)

Anónimo disse...

Do lado de lá do Atlântico chegam nos diariamente faits divers sob a forma de soap opera. E há um vasto universo de conversa de cabeleireiro que se deixa instalar entre nós.