quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Falemos da América, não de Trump


Com óbvia razão, temos concentrado a nossa atenção em Donald Trump. O primarismo caricatural de algumas das suas primeiras decisões, que não desiludiram as piores expetativas, mostra que estamos perante uma agenda radical que poucos pensavam ser possível. Mas é. E porque as coisas são o que são, e porque os Estados Unidos não são uma potência qualquer, o que é decidido em Washington tem uma importância determinante para o mundo. Tem-no para os adversários da América, como o tem para os seus amigos e aliados, como é o nosso caso.

Mas o problema, desculpem lá!, não se chama Donald Trump, chama-se Estados Unidos da América. A América não é vítima de Trump, ele não é um epifenómeno que, coitados!”, os americanos sofrem. Trump foi eleito pelos americanos, ele representa a América e é à América política – ao Congresso, aos Estados, aos nossos interlocutores institucionais, a cada diplomata americano que encontremos pelas esquinas da vida internacional – que devemos pedir responsabilidades por aquilo que Washington faz enquanto este presidente lá estiver.

Trump não está "Home alone" na Casa Branca, tudo o que fez e tudo o que vier a fazer fá-lo porque o povo e os políticos americanos o autorizaram ou o autorizam. Deixar que Trump sirva de alibi às barbaridades que a América possa vir a determinar pelo mundo nos próximos tempos é isentar de responsabilidades os congressistas que o apoiam e podem vir (ou não) a implementar a sua legislação. A América política que passar à prática as determinações do presidente não é uma vítima de Trump, é cúmplice dele. Porquê? Porque está nas mãos dessa América política não aprovar muitas das medidas que Trump decida, reverter na prática grande parte daquilo que está nas suas “executive orders”. E, no limite, “impichá-lo”, como dizem os brasileiros. Nunca esqueçamos isto.

O que se está passar por estes dias em Washington tem laivos de uma revolução, porque abala os fundamentos daquilo que nos habituáramos a ver surgir das bandas do maior país do Ocidente, impulsionador da ordem multilateral que serviu de esqueleto ao mundo contemporâneo, assente numa cultura de valores que haviam funcionado como importante referente ético-político, base, aliás, do  "soft-power" em matéria de valores que fazia parte do nosso proselitismo democrático e de Direitos Humanos.

A reboque dessa nova agenda revisionista, os EUA espalham hoje sinais que deixam dúvidas sobre a sua fidelidade essencial a alianças estruturantes da nossa segurança coletiva, introduzindo imprevisibilidade no seu futuro comportamento face a atores que, como a Rússia, se mostram hostis à preservação de um corpo de princípios que temos por básicos numa ordem global pactuada – e que os próprios EUA foram os primeiros a considerar importante preservar. O que vem sendo dito sobre as Nações Unidas, bem como a filosofia arrogante que acompanha a sua nova postura neste contexto, é de uma gravidade sem precedentes.

No Médio Oriente, caldeirão de insegurança de largo potencial, o que chega de Washington é muito perturbador, em especial ao colocar em causa, num gesto de inédita irresponsabilidade, aquilo que demorou anos a conseguir na tensão israelo-palestina: uma fórmula de sucesso limitado mas com a virtualidade de ter transformado o “status quo” num conflito de baixa intensidade.

Para a Europa, a nova agenda americana, para além dos abalos na NATO, apresenta-se como quase hostil. Se a rejeição do TTIP é uma reversão séria mas admissível como opção nacional (do lado europeu também haveria problemas e uma potencial administração Clinton não dava garantias plenas neste domínio), o aplauso ao Brexit, o estímulo agressivo à sua futura reprodução e a mensagem negativa sobre o futuro do euro constituem a mais frontal bofetada que os EUA alguma vez deram nos seus mais fiéis aliados à escala global. A América que estimulava a unidade europeia, e que forçou o acolhimento no seu seio dos países libertos da tutela de Moscovo, desapareceu, pelo menos por ora.

Às perspetivas de conflito comercial na Ásia, que acarretam riscos político-militares cujas consequência estão longe de se confinarem nas áreas de interesse americano, somam-se ainda declarações de extrema sensibilidade sobre os equilíbrios no âmbito nuclear, pela indução de dúvidas sobre a pertinência do atuais instrumentos de combate à não-proliferação.

Neste rol de recuos sobre o que havia sido consensualizado – que o foi, as mais das vezes, sob impulso americano, o que é ainda mais irónico – destacam-se ainda atos e declarações detrimentais para marcos civilizacionais como os acordos climáticos, que põem em causa entendimentos laboriosamente conseguidos, libertando os infratores internacionais do isolamento constrangente a que haviam sido acantonados.

Quase que custa dizer que restamas questões migratórias, acompanhadas por um discurso estigmatizante e discriminatório, que nos faz recuar décadas, ou declarações fora de qualquer classificação sobre a legitimidade da tortura e de outros comportamento dignos de tempos de barbárie.

Fica aliás a sensação de que agora, no domínio dos princípios, já nada está adquirido, tudo pode voltar atrás – um movimento relativizador cuja gravidade pode ser medida pelo modo eufórico como algum extremismo internacional está a acolher esta nova agenda. E Europa, palco de tensões políticas onde estas preocupações estão muito ancoradas, e que contou em tempos com outra América para limitar a sua expansão, será a primeira vítima deste desvario.

Volto ao que disse. Esqueçamos Trump. Falemos da América e das ações do seu novo presidente. Mas, a partir de agora, não libertemos os Estados Unidos das suas responsabilidades por via de um voyeurisme” divertido sobre a figura patética que os americanos escolheram para os representar.

(Artigo hoje no "Público")

10 comentários:

jj.amarante disse...

O serviço de fronteiras dos EUA tem uma tradição de arrogância de inépcia (e talvez de racismo), por exemplo o Nelson Mandela precisava duma "cunha" da Condoleeza Rice para visitar oficialmente os EUA pois constava duma lista negra de terroristas mesmo depois de ter sido eleito presidente da África do Sul.

Rui Fonseca disse...


Certeiríssimo!

Anónimo disse...

José Manuel Fernandes acha que se podem controlar os movimentos migratórios e tem saudades do Estado-Nação. Não refere algo essencial que são os efeitos nefastos de um discurso de incitação ao ódiio por parte de uma liderança. Uma coisa é certa, palco de contradições, o parceiro transatlântico é uma nação profundamente democrática como mostram 5 decisões de juízas federais que se opuseram aos efeitos do acto executivo sobre imigração.

O post do senhor embaixador, sempre lúcido e pertinente, é contudo relativamente omisso sobre os perniciosos efeitos da mudança da relação estratégica com a Rússia por via de um novo discurso de complacência. O que já se está a passar na Hungria não é rassurant e amanhã outras Crimeias cantarão.

Anónimo disse...

Vai ser giro ver a ginástica que o fanático anti-americano de serviço vai fazer para concordar com este texto, ao mesmo tempo que finge de conta que não percebe que o que aqui se escreve começa por ser um elogio ao papel que os EUA têm tido na defesa da Liberdade.

Joaquim de Freitas disse...

Impossível de falar da América sem falar de Trump. O que me faz sorrir, é que desde há meses que escrevi, como comentarista, neste blogue, muito daquilo que se passa agora. Era então acusado por alguns “clientes” deste blogue, de anti americanismo primário. O Senhor Embaixador tem escapado a esta tratamento, porque diz as coisas mais diplomaticamente que eu, e muito melhor.

O que me impressiona na situação actual, é que os sinais precursores do tremor de terra que abalou a América, com a eleição de Trump, eu pude vê-los quando andava todos os meses por Detroit, e vi desmontar instalações que tinha vendido nas três grandes fábricas automóvel, naquela que foi a capital do automóvel no Mundo, serem desmontadas e serem levadas para a China, para fabricar aqueles automóveis que eram depois exportados para a América.

Claro que a performance exportação da China, essencialmente, nessa época, e ainda muito hoje, estava baseada nesta actividade exportadora das firmas estrangeiras que ai produziam.

O problema, é que quando deslocalizaram as unidades de produção na América, p ara levar para a China, e foram tantas em todos os sectores, (em França também), não pensaram nos trabalhadores americanos, que lançaram no desemprego. Hoje Detroit é um imenso campo de ruínas.

E se acrescentamos ao desastre das deslocalizações, o drama das “subprimes” que , na mesma época, fizeram perder aos mesmos trabalhadores americanos as suas casas, temos então o quadro completo do desastre anunciado que ia trazer Trump para o poder, após uma passagem de Obama, que, durante oito anos, nada conseguiu fazer, porque não estava no seu programa de fazer marcha atrás.

Ora, entre os vários objectivos de Trump, este, de re industrializar o seu país, era um dos mais ambiciosos. E o que mais interessou a imensa legião de desempregados da “Rust Belt”, essa região que do Ohio ao Indiana e Michigan mais sofreu da mundialização desenfreada, que a corrida aos lucros mais importantes, obtidos graças aos salários miseráveis do terço mundo, lançou milhões na miséria.

Estamos sempre com o mesmo problema com os capitalistas, para quem, manter ou criar empregos não faz parte da sua missão universal: mas sim aumentar os dividendos dos accionistas. Os Americanos pagam por essa doença que propagaram no mundo.

A solução de Trump ,para obrigar os industriais que deslocalizaram, a regressar com as suas máquinas vagabundas “à la maison” , que consiste eventualmente a aplicar uma taxa de 35% nas importações dos produtos fabricados no estrangeiro, irá de qualquer maneira tornar estes produtos mais caros para os eventuais compradores americanos! E provocar a inflação!

Da mesma maneira , se o muro da vergonha com o México, for pago por uma taxa aplicada nos produtos importados do México, significa que serão os Americanos que , ao comprar estes produtos, pagarão realmente o muro, quer Trump queira ou não …E ainda para mais, vai , mais uma vez, criar um risco de inflação…

Finalmente, o que Trump prepara inconscientemente ou não, é a saída da Califórnia da Federação, que, como a Escócia no RU, não aceitarão os seus decretos quotidianos, considerados como uma catástrofe para este Estado e para os EUA.

Este é o problema posto aos grandes proprietários agrícolas, que todos os dias, de manhã vão a uma praça bem conhecida em Down Town Los Angeles, procurar trabalhadores mexicanos, contratados à hora ou ao dia, por um salário negociável, trabalhadores ilegais, mas “flexíveis” em condições de trabalho. A competitividade dos produtos agrícolas californianos residem nesta liberdade de explorar a plebe mexicana.

Trump pode não consiguir implementar o seu programa. Que não tenha o tempo. Porque vimos, em 1963, um problema de muito menos importância, ser resolvido nas ruas de Dallas, Texas, de que foi vitima alguém que tinha um carisma e popularidade bem superior ao de Trump.

E já era assim que se resolviam os problemas dois séculos atrás, à saída do saloon, nas ruas poeirentas de Durango.

Rui C. Marques disse...

Terá Hegel razão na defesa do ritmo triádico de tese,antitese e síntese? Se sim,a presumível antítese de agora proporcionará uma síntese que conduzirá a uma nova tese?Uma nova tese mais lógica,mais segura,mais humana,mais justa?

Reaça disse...

Os americas nunca viram com muito bons olhos a união dos europeus, nem eles nem os russos.
Nem os américas nem os canadianos e australianos e tudo o que olhava de esguelha imitando a madrinha Inglaterra, nunca gostaram da União Europeia unida.
Este gajo do Trump ao menos, como é um desbocado e um tosco perigoso, tirou a máscara a todos, que já estava gasta de velha.
Mas a Europa de Hitler e de Napoleão só dá tiros nos pés e trata sempre mal os vizinhos como nós e os gregos, e os de lá do Mediterrâneo.
Nunca vai ter emenda.

Anónimo disse...

Se fosse em Portugal, no tempo do Sócrates, o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro:

Financiamento do BES e projecto do Siza Vieira.

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador: Permita por favor que faça prazer a um dos seus "anonimos" ferrenhos, que nao gosta que se diga mal da América.

Foi um texto que publiquei hà uma ano...

"CAUCUS OU COCUS , no IOWA ?


Curioso este nome que dão nos Estados Unidos às eleições " primárias" para escolher o "bom" candidato do partido para a Presidência da República : chamam-lhes os "caucus"! Em francês, foneticamente, não é nada "glorioso"! "Caucus, cocus, soa da mesma maneira, e quer dizer "cornu..."! Terrível confissão! Ah, os gringos!
Neste momento o grande teste é no estado do Iowa. Cidadãos primários, para eleições primárias. Analfabetos políticos, caricaturais, clonados, pobres tipos manipuláveis à vontade, à disposição dos poderosos: "primarizados"! O ultimo "must" à moda liberal.
As "primárias" é o grau menos um da política, a democracia sondada, incontinente. Despolitizada.
As "primárias" : o cúmulo da democracia mediática ( e de mercado), à moda americana.
Que o (a) o tipo mais ultra ganhe... Lantejoulas, desfiles de majorettes, (e consciências) pagas pelos generosos grandes patrões da festa! Que vêem nos seus grandes e pequenos aviões privados assistir à festa!
Sejamos "primários" e que o espectáculo comece. E pumba, uma pequena frase choque, "assassina", uma derrapagem intencional, calculada.
Um insulto, um golpe abaixo da cintura , ao nível das cuecas, uma "donaldanedota"...
"Hillary engordou, ou vestiu um colete à prova de balas" pergunta Laurence Haim, jornalista da oposição? Toda esta gente é muito gentil!!!
E o concorrente Senders que se proclama "socialista" ....aos 74 anos! Eu sei que nunca é tarde para fazer bem...mas enfim, um socialista americano! Mas é mais prudente que se se proclamasse comunista! Tinha logo um bilhete sem regresso para Guantanamo...
Venham, venham ver... O circo, a vitrina, a mousse, a espuma, a vacuidade, o parece, as extravagâncias, os instintos...primários, para recrutar, aliciar, e eleger os primo votantes.
E os outros?
Lá como cá, dentro em pouco não serão necessários os partidos, os partidos militantes, porque os artistas dos institutos de sondagens bastam... Com os estetoscópios na mão, eles sondam, sondam, sondam os cidadãos, para dar a impressão que há mais democracia assim! E os sondados nem sentem que na realidade esta "sondagem" serve para a confiscar, a democracia, a liquidá-la.
E nem é preciso programa , rebarbativo, complicado e de qualquer maneira ninguém crê nele.
E um dia também as eleições não serão necessárias! Basta um bom espectáculo público, a pé de preferência, para fazer engolir todo o resto. E ganhará o melhor actor, que terá a melhor agência de pub...

Anónimo disse...

Senhor embaixador
Não é "América", é "Estados Unidos"…
Um dia destes vai conseguir…

J.C.