terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Ainda Charlie

Há pouco mais de uma semana, a França saiu para a rua unida sob o lema "Je suis Charlie". Nos dias seguintes, em conversas em Paris, não encontrei quem não tivesse participado naquela impressionante manifestação. Nela se juntou um pouco de tudo: o choque, o repúdio, a solidariedade, a defesa da liberdade. Escassos foram, contudo, os que abertamente assumiram que aquele sereno e sentido desfile era também um gesto de libertação.
Desde há anos, uma parte significativa da França vem a acumular um forte e crescente incómodo pela forma com a comunidade islâmica se exprime publicamente no país – nos trajes, nos sinais, na afirmação cultural e religiosa, mesmo que nem sempre com laivos agressivos. Para muitos franceses, trata-se de um inaceitável desafio à matriz de laicidade que faz parte da identidade da sua República.  
Nos anos que vivi naquele país, encontrei imensos cidadãos, mesmo gente de espírito muito aberto, que se mostravam chocados com o desfraldar regular de bandeiras argelinas em jogos de futebol entre equipas francesas. Pessoas a quem impressionava o corte de trânsito em ruas para a prática coletiva de orações muçulmanas. Algumas confessaram-me o seu repúdio ao ouvir apupar a “Marselhesa”, diante do chefe de Estado, no “Stade de France”. Outras, ao cruzar pelas ruas mulheres irreconhecíveis, de niqab ou burca, inquietavam-se pela não aplicação das leis que tal proíbem. O comunitarismo com raízes culturais diversas joga mal com uma sociedade que criou uma certa imagem da sua própria identidade – um reflexo onde, claro está!, há também muito chauvinismo e bastante racismo, na recusa em ver alterada a forma de vida que se tem como francesa.

É por isso que entendo que a manifestação de 11 de janeiro foi também um pouco a “libertação” de que acima falei, foi um "basta!" coletivo à pressão que o politicamente correto do multiculturalismo, dominante no discurso oficial, lhes impunha. Nesse dia, com o sólido alibi da barbárie, muitos franceses, numa espécie de exorcismo coletivo, vieram dizer para a rua o seu desagrado em ter de coabitar com manifestações que não respeitam as leis da República. Confesso que não sei como é que isto vai acabar, porque tenho a sensação, que espero errada, de que as tensões não tenderão a diminuir.
Uma última palavra, um pouco contra a corrente, sobre o “Charlie Hebdo”. A revista era servida por artistas geniais, mas há muito que perdera a sua inocência. Optara por ter a permissiva religião católica e o islamismo como os alvos privilegiados da sua ferocidade gráfica. Não será por acaso que, desde há muitos anos, não se lhe via uma graça sobre a questão judaica ou os campos de concentração, bem como piadas sobre negros ou asiáticos, presentes no início da sua publicação e vulgares no seu antecessor, o “Hara-Kiri”. Porquê? Porque o antisemitismo é hoje um tabu e as anedotas racistas são criminalizadas. E porque a islamofobia não só não tem o estatuto de proteção do antisemitismo como segue em sintonia fácil com o tal sentimento de incomodidade que levou a França à rua, naquele dia 11 de janeiro. Isto tem de ser dito.
(Artigo que hoje publico no Diário Económico)

18 comentários:

Nuno Andrade disse...

Gosto

Anónimo disse...

o que continua a estar por de tras de tudo isto é a guerra da argélia e o acolhimento das sequentes geracoes de argelinos (e magrebinos) em frança...
regue-se com um pouco de deliquencia e fanatismo religioso...

...
a proposito do seu ultimo ponto
e que dizer dos jovens franceses que vao fazer o servico militar na tsahal apenas por serem judeus?

http://orientxxi.info/magazine/ces-francais-volontaires-dans-l,0546

bem sei que, nao é nem de perto nem de longe, o EI, mas que diriamos se os jovens muculmanos de todo o mundo pudessem ir fazer o serviço militar a arabia saudita?


cumprimentos

Anónimo disse...

"antisemitismo" não.
antiSSemitismo, sim. Senão, lê-se o "s" como um "z"

Anónimo disse...

Eu também gosto. Suspeito que isto vai acabar mal. Espero enganar-me.
JPGarcia

Luís Lavoura disse...

o desfraldar regular de bandeiras argelinas em jogos de futebol entre equipas francesas

Em Portugal há muitas bandeiras de países estrangeiros em jogos entre equipas portuguesas. Ninguém se incomoda com isso.

o corte de trânsito em ruas para a prática coletiva de orações muçulmanas

É culpa das autoridades, que deveriam fomentar a abertura de mais mesquitas, ou de mesquitas maiores. Os templos católicos, pelo contrário, estão às moscas.

apupar a “Marselhesa”

Trata-se de um hino bélico e sanguinário, que ninguém de bom senso cantaria. Qualquer pessoa que perceba francês rejeita aquelas palavras.

O comunitarismo com raízes culturais

Isso é o que os judeus sempre praticaram. Porque criticam tanto o comunitarismo islâmico e não criticam o comunitarismo judeu, que é muitíssimo mais forte?

Joaquim de Freitas disse...

Excelente "post" do Senhor Embaixador.

Todos pudemos constatar o absurdo da situação na manifestação de Paris. Uma marcha suposta defender a liberdade de expressão conduzida por alguns "va-en-guerre" e autocratas : chefes da NATO e de Israel, rei Abdullah da Jordânia, ministro dos negócios estrangeiros do Egipto que perseguiram, meteram na prisão e assassinaram quantidade de jornalistas ,cometendo ao mesmo tempo massacres e lançando intervenções armadas que fizeram centenas de milhares de mortos, bombardeando à passagem a TV da Sérvia até ao Afeganistão.

Claro que os ataques assassinos de Paris foram um cocktail de causas e motivações : da herança da brutalidade colonial na Algéria, à ideologia takfiri djihadista, passando pelo desemprego que gera a pobreza, o racismo, a criminalidade.

Mas estes ataques não teriam sido possíveis se as potências ocidentais não tivessem atacado o mundo árabe e muçulmano para o controlar e recuperar. Há meio século que não os largamos! E porquê?

Isto foi o que disseram os assassinos : Os irmãos Kouachi radicalizaram-se no Iraque, treinaram-se no Iémen e queriam vingar os filhos dos Muçulmanos do Iraque, Afeganistão e Síria. Coulibaly vingou-se dos ataques da França contra Isis, e no supermercado para vingar os mortos da Palestina.

Assassinatos gratuitos? Sim, e mesmo contra produtivos para as causas que querem promover, e o facto que as vítimas tivessem sido escolhidas em função dum quadro religioso reaccionário, permite de pensar que estes assassinatos são uma espécie de produto mutante das guerras culturais europeias.

O que é grave, é o preço a pagar , ou seja a perda das nossas liberdades, a explosão do anti-semitismo e a islamofobia crescente. Quanto mais deixarmos esta guerra se eternizar, mais a ameaça pesará sobre as nossas vidas.

Anónimo disse...

Muito bem, caro colega!
a)Rilvas

Anónimo disse...

A direção do Charlie Hebdo demitiu em 2008 um cartoonista que "insultou" e "ofendeu" os judeus.
Há uma certa ingenuidade quando alguém proclama "Je suis Charlie".

Anónimo disse...

Interessante com se defendia a todo custo o multiculturalismo.

"Casa roubada, trancas á porta" !

São impagáveis!

Só uma pista: a guerra do petróleo. entre os principais "patrners", que de certeza conhece !

Anónimo disse...

Ó Freitas, é como você: há um ano que não nos larga! E porquê?

Anónimo disse...

É escrito de forma diplomatica...
A hostilidade em relação aos judeus, que remonta à antiguidade pagã, est um "mundo sem fim".
Espero tambem enganar-me e que um dia haja reconciliação. Sera uma missão impossivel ?
Ainda bem que o nosso país não é incomodado com a questão dos subúrbios muçulmanos onde "sévit" particularmente o desemprego e o antisemitismo.
Os caes ladram e a caravana passa!...
Carlos Falcao

Correia da Silva disse...


Muito bem Senhor Joaquim de Freitas.
Subscrevo seu comentário na íntegra.


Anónimo disse...

Oh Freitas, em resposta ao comentador das 14.06: Continue! não nos deixe! Esqueça os que não o apreciam! Mande-os dar uma curva ao bilhar grande! Porque há outros que gostam de ler o que escreve aqui.
António

Adelino Ferreira disse...

Sr Joaquim Freitas, faz muito bem em não responder a provocações. Há blogues que nem aceitam comentadores anónimos (não me refiro aos anónimos que assinam, como é evidente)


Joaquim de Freitas disse...

Os comentários dos Senhores Rilvas, Correia da Silva e António, compensam largamente a reacção doutros, na acepção larga do termo reacção.

Como disse La Fontaine : " Je plie, et ne romps pas."

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Adelino Ferreira:

Tem muita razão. O que importa é trocar ideias com pessoas dispostas a progredir no relacionamento humano, e desejando indicar-nos doutros caminhos de reflexão que possam eventualmente melhorar os nossos.

O que é que pode conduzir os homens a mudar o seu julgamento, o seu ponto de vista, senão a troca de ideias? A troca de ideias reenvia ao registo intelectual e ao registo político.

Creio, Senhor Adelino Ferreira, que abordamos um mundo no qual será necessário muito diálogo, senão será a violência generalizada que tomará o leme.

O nosso Embaixador diria isso melhor que eu, mas em política, quando a via das negociações diplomáticas é interrompida e que triunfa a voz das armas, a troca de ideias acaba e só os golpes duros falam.

patricio branco disse...

altura de ler le canard enchainé

Isabel Seixas disse...

Faz todo o sentido o Seu post.

Acredito que o denominador comum que leva as pessoas à rua é mostrar a repulsa pelo terrorismo, pela leviandade com que se mata.

Comportamento gera comportamento e a guerra ainda que cheia de razões assume as mesmas proporções de terrorismo,embora legitimado por politicas de defesa que atacam inocentes apanhados no fogo cruzado enquanto os verdadeiros agressores continuam impunes no seu sadismo.

Também me identifico com os comentários oportunos do Sr. Joaquim de Freitas.