quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Zelig

Seria importante para a imagem internacional de Portugal que Woody Allen fizesse um filme em que Lisboa fosse o cenário de fundo? Claro que sim.

Se Allen "agarrasse" bem a capital portuguesa, numa trama inteligente e sem clichés, fugindo ao modelo, a meu ver demasiado simplista, que usou para Paris e Roma, ficaria orgulhoso em poder contar com a capital portuguesa no seio daquela que (já) foi uma das filmografias mais geniais da minha geração.

Mas suspeito não é isso que se pretende. O que por aí se anseia é o afadistar da película, é a reiteração do óbvio - um diálogo romântico no alto do parque Eduardo VII com o Tejo a diluir a outra banda, a Baixa ensolada do miradouro do castelo, o elétrico a chiar na já estafada esquina de Alfama, o bilhar do Pavilhão Chinês, a bica na mesa de Pessoa no Martinho da Arcada ou com o Pessoa da Brasileira, um "tête-à-tête" num dos poisos do Avillez ou com um prego no prato e um fino na Trindade, um "contre-plongée" no elevador da Bica ou cenas de rua no Bairro Alto grafittado, o olhar nostálgico do jardim de S. Pedro de Alcântara ou da saramáguica Casa dos Bicos. Duvido que tenham coragem para incluir o "suspense" de uma viagem mistério com um taxista do aeroporto ou a emoção da carteira fanada no 28, agora que o Intendente passou de moda.

Claro que isso traria a Lisboa gente, euros, dólares e balzaquianas, que passariam os dias a fazer "takes" caseiros, a imitar a película no seu iPhone, a comer os pastéis de Belém do Álvaro, a inundar os Jerónimos de "uáus!" e o terraço das Portas do Sol de turistas. Seria o "Allgarve" de Manuel Pinho em versão alfacinha, desta vez a cheirar a sardinhas no verão e a castanhas no inverno.

Era bom para o turismo? Era capaz de ser. Mas, desculpem lá, tudo isso soa-me demasiado, no pior, a um "remake" do SNI e Moreira Baptista, e, no melhor, a Verde Gaio e António Ferro. Deixemos o Woody Allen em paz, nas boas recordações que nos fixou! Não alimentemos esta espécie de Zelig urbanos que agora lhe enchem os bolsos.

Bom, a menos que ele traga para a fita a Scarlett Johansson! Uma cena com ela no Procópio far-me-ia rever tudo quanto atrás escrevi, devo confessar...

30 comentários:

Anónimo disse...

Mas a beleza de Lisboa não está precisamente nos pontos que indicou?
João Vieira

João Figueiredo disse...

Excelente texto! Que prazer ler...
João Figueiredo

jose neves disse...

Bolas:
a Manela, o Álvaro, o Crato e outros muitos só pensavam em demolir, desmontar, riscar, rasgar, destruir o que Sócrates construiu.
Agora quer-se destruir o que Costa ainda nem sequer construiu.
Com o elevador de João Soares para o Castelo fez-se o mesmo. O que temosficou e temos entretanto?
Ora bolas...

margarida disse...

À la recherche du commentaire perdu, lequel parvient souvent mais se camoufle toujours, ce que c’est bien préférable, je le croie (ou um duplo acometimento nostálgico…).
E a propósito do cineasta não digo nada, já que sobre a actriz ainda falo menos. E aprecio ambos.
Cheers!

Anónimo disse...

"Uma cena com ela no Procópio far-me-ia rever tudo quanto antes escrevi, devo confessar..."

nao me diga que com essa idade agora deu-lhe para quer ser actor sr embaixador!...


bem haja

Anónimo disse...

"Era bom para o turismo? Era capaz de ser."

Comparar a actual decrépita Cidade, palco á uns anos de grandes "movimentações-da nouvelle-arquitecture-gauche-caviar-associada-a-certos-arco-iris-do-políticamento-correcto", só realmente para rir, se não fosse a ganância e a hipocrisia de esbulhar o municipe !

Pior que no tempo do SNI !

Chega de actores "pindéricos e "farsantes" na politíca !!!!


Alexandre

Anónimo disse...

A propósito, lido há instantes:

"Lisboa chumbou no teste da carteira e passou a cidade "menos honesta do mundo"
LUÍS J. SANTOS 26/09/2013 - 15:46
A cidade mais honesta é Helsínquia, na Finlândia."


Alexandre

Anónimo disse...

A gente aqui no Golungo também quis contratar o Senhor Allen para filmar uns pôres do sol sobre as acácias rubras, com música de marimbas, e a welwitschia mirabilis a aparecer no fim. Mas a Senhora Engenheira decidiu contra, acha que os filmes desse Senhor sobre Roma, Paris e Barcelona são bué de maus e não acredita que qualquer dessas cidades precisasse daqueles pastelões para atrair turistas, que nunca lá faltaram nos últimos séculos. Veja lá se o Depardieu atraíu algum turista para a Mordóvia, onde estão presas as Pussy Riot e tudo! Ná, nem com a Scarlett, Senhor Embaixador, nem com a Scarlett...

a) Feliciano da Mata, fundador dos "Cadernos de Cinema do Golungo Alto"

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro/a Anónimo/a das 18.24. A cena era "com ela", não comigo, entenda-se.

Anónimo disse...

Esse filme bem podia começar com a Scarlett Johansson numa personagem com uma dúvida sobre a sua ascendência dos “pares”: Rick Blaine, Ilsa Lund, Victor Lazlo. Afinal passaram por aí…
Podia chamar-se Procópoblanco
António pa

Anónimo disse...

O Procópio também tem camas?

Anónimo disse...

"See you at Procópio" era um bom título não era , Embaixador? A vossa mesa é que não se aguentava

Isabel Seixas disse...

O post tem imensa piada, fez-me rir...
Com um argumento assim o Woody Allen ainda vai ponderar contratá-lo como argumentista e com o bom gosto demonstrado talvez até guionista e ou a fazer o roteiro...

De facto os cenários in agora são outros, as necessidades da ação apontam para Belém e zelig é de facto também polifacetado...

Quanto à Scarlett nada a apontar, só talvez seja bom lembrar que há um ministério a necessitar de uma substituição por licença de parto.

jose neves disse...

Para mais, estar a prever-imaginar que o guião do filme seria esse como descrito (aliás habitual nos filmes sobre Lisboa porque também é essa a sua diferença e identidade), é lançar uma total desconfiança sobre as faculdades e qualidades intelectuais de Allen mas sobretudo de A. Costa e seus colaboradores.

Anónimo disse...

Nossa! Fico surpreendida com tamanha eficiência! Ainda nem se sabe se vai haver filme, que eu saiba não existe nada, só o desejo de alguns, e já estamos dizendo mal dos actores (sejam lá eles quem forem) e arrasando de alto a baixo o imaginário filme. Melhor é impossível. Assim como assim, o marketing já fica feito, ó Woody ... nem penses que chegas aqui e isto é pá pum, isso é que era bom! E vamos-te já dizendo que isto é tudo uma piroseira, bonitinho, mas tão piroso, tu pensa bem! (É que só me lembra a "história do macaco" - se quiserem eu conto ...).

Paulo Gorjão disse...

Com a Scarlett são mais 10 milhões de euros, cinco adicionais para ser filmado no Procópio. Paga o meu amigo, naturalmente... ;-)
Abraço.

Anónimo disse...

É melhor o Woody Allen ficar sossegadinho por outras paragens porque o tio Luís Filipe, ainda de Gaia, já vislumbra que deve ser no Porto... Nós queremos em Lisboa e, ainda, se gera uma guerra entre Norte e Sul com boicote às bilheteiras de um dos lados.

Confesso que "a emoção da carteira fanada no 28" e "o "suspense" de uma viagem mistério com um taxista do aeroporto" seriam divinais para atrair turistas depois de Lisboa ser eleita o melhor destino para "City Breaks" da Europa :))

Isabel BP

Anónimo disse...

Podre de boa! O resto é conversa!

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Sacrlett Johnson, de preferência a fazer de irmã da Ordem das Camelitas Descalças até ao Pescoço seria bué da fixe, meu...

ARD disse...

A Scarlett na Dois do Procópio?
Haveria grande aumento do consumo de chá, Diet Coke e cerveja sem álcool.
E mais ocorrências de taquigrafias entre os gerontes.

Catinga disse...

Há muito tempo mesmo já tinha deixado aqui esta sugestão. Outras seriam pagar para que tipos como o Clooney ou o Brad Pitt fizessem referência a produtos portugueses nos filmes.

Qualquer destas coisas vale mil vezes mais do que ridículas (e até elitistas), campanhas como aquela do "Portugal, Europe's west coast", que ainda hoje se está para entender para que serviu...

Anónimo disse...

Eu cá não me importava nada que houvesse um Woody Alllen a meias com o Almodovar sobre Lisboa, desde que viessem a Penelope Cruz e a Scarlett. Punha-se o Belcanto como era dantes para o Almodovar e mudava-se para como é hoje para o Allen. A Penelope entrava na parte sobre antes e a Scarlett na parte sobre hoje. Depois, com uma furtiva lágrima, pedia-se ao Manuel de Oliveira para montar o filme. Teríamos assim seis horas de Penelope e Scarlett. No Huis Clos do Belcanto! Ganhava-se Cannes de certeza!

Helena Sacadura Cabral disse...

Francisco
A Scarlett?!
Ao pé da Blanchett não há comparação possível.
Nunca hei-de perceber as opções masculinas em matéria feminina...

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Catinga
O Clooney?! Parece um manequim da R. dos Fanqueiros muito bonitinho, muito nexpresso, muito como deve ser?!
O Brad com a Jolie e as crianças, que andam sempre a promover o seu clã?
Não sei se a escolha seria acertada. Mas talvez tenha razão. O Clooney promovia as conservas o o Brad os azeites. Pode ser que sim!

Francisco Seixas da Costa disse...

Nada como a Scarlett para animar os comentários. Imagino se ela tomasse assento na Mesa Dois!

Anónimo disse...

A Scarlett J faz-me sempre lembrar uma adolescente reconchuda e a cheirar a creme para as borbulhas.

patricio branco disse...

não sei se w a faz peliculas localizadas a pedido dos locais, agora aqui, agora lá, creio que não.
mas nunca se sabe, talvez meta então nicolau breyner, ines medeiros e outros lusos na película. afinal há antecedentes desde que se pague bem, les amours du taje (ou abril em portugal?)com amalia rodrigues, dos anos 50, lisbon story de wim wenders por altura da expo lisboa, a cidade branca (não percebi nunca o titulo), comboio de noite para lisboa, pois que o convençam de varias formas, incluindo com financiamento, até podia começar com ele, w a, a descer d1 avião na portela vindo de roma ou paris ou barcelona e a terminar seguindo para atenas noutro avião, assim eram 2 coelhos duma cajadada, havia sempre alguns que ganhariam, não sei é se terminava o debate e projecto dos cortes nas pensões dos aposentados, certamente que não, por mim tanto se me faz que ele filme em lisboa, aliás há muito que não vejo os novos w a, desinteressei me, os tiques cansaram me, ou algo assim, quais seriam os bons cenários em lisboa para ele filmar? s. bento? belem? os pulgões vermelhos descorados da pr do municipio? o jardim zoologico? o bairro do meu prédio? e que historia seria? com fados? com um electrico da linha 28? com a figura do pessoa na brasileira? fado e pessoa são 2 nossos valores e venha o abaixo-assinado a dirigir ao allen, banda sonora de victorino d'almeida, boa escolha, prefiro a rodrigo leão, sim, sim...

Anónimo disse...

o bom livro "Comboio noturno para Lisboa", tem a cidade agradável e simpática como pano de fundo.

anamar disse...

Ora viva!
Pois há uns dois dias pus o mesmo post no meu Mar à Vista, por considerar "Zelig" o filme que encaixa na sociedade portuguesa.
as não faria um guião afadistado".

Com tantos neuróticos por aí, e bem conhecidos, e uma Presidente de AR com "n" tiques, que Scarlett poderia protagonizar, e com locais de eleição lisboetas, aí, sim, poderia ser um dos filmes da vida de WA, e um pouco da nossa sorte...

Bom fim de semana.

Anónimo disse...

Em Paris, Woody Allen deu um papel a Carla Bruni como guia do Museu Rodin. Em Lisboa, a Maria Cavaco podia aparecer a explicar o Museu dos Coches