domingo, 22 de setembro de 2013

Politicamente incorreto

Quem se ofende ou acha discriminatórias graças que podem tocar os limites da "correção" política deve abster-se de ler o que se segue.

Um dia, na segunda metade de 1996, um banco português decidiu convidar o cantor lírico Andrea Bocelli para um espetáculo em Portugal. Bocelli, um fantástico intérprete, cego (ou invisual, como parece ser hoje de regra dizer-se), exigiu condições financeiras substanciais. Porém, o banco, interessado como estava na presença do cantor, aceitou os números exigidos.

Não se contava, porém, com uma "competição" como a que viria a surgir: o recém reeleito presidente americano, Bill Clinton, queria ter Bocelli nas comemorações da sua segunda entronização. E as datas coincidiam. O cineasta Steven Spilberg, apoiante do presidente, estava mesmo disposto a deslocar-se a Itália, no seu avião particular, para garantir a presença de Bocelli em Washington.

O "combate" entre os dois concorrentes prolongou-se por algum tempo. A certo ponto, o caso pareceu perdido para o banco português, com Bocelli a dar sinais de ir optar pela sua prestigiante alternativa transatlântica. Foi então que um diplomata português, envolvido pontualmentr na questão, um homem que costuma cultivar o humor como um valor mais elevado do que as regras do politicamento correto, se saiu com esta frase que ficou na memória de quem esteve envolvido no assunto:

- Isto é incrível! Portugal raramente tem dinheiro para "mandar cantar um cego". Logo agora, que foi possível arranjar o dinheiro, o cego não quer cantar...

Para a história: Bocelli acabou por conseguir vir a Portugal e o avião, com o próprio Spielberg, ficou à espera do cantor no aeroporto do Porto, aguardando o fim da sua prestação. E foi possível compatibilizar os dois espetáculos.

Espero que ninguém tenha ficado ofendido com esta inocente e verdadeira história, que alguém, há poucas horas, recordou num grupo de amigos, que a achou bem divertida.

30 comentários:

patricio branco disse...

apropriado e oportuno o ditado que se aplicou à maravilha no caso, ditado que parecendo talvez pouco cruel não o é, mais feio seria mandar cantar um invisual, terá andrea bocelli, que faz duetos com dulce ponte, sabido da história?
haverá ditado semelhante noutras linguas, aplicando ou não o termo cego? claro que havia os ceguinhos que cantavam o fado na rua, com a sua caixinha de ranhura para receber as moedas, agora muitos vendo bem cantam e tocam nas ruas, etc

ignatz disse...

foi uma ofensa à carteira de quem anda a pagar a capitalização dos bancos, já quem almoçou por conta deve achar divertido.

Anónimo disse...

Até Bocelli, se lhe contassem a piada, choraria de tanto rir!
António PA

Bmonteiro disse...

É tão possível fazer cantar um cego, como vir e passar uns dias em Paris sem gastar um euro.
Se puder contar com o Abílio Laceiras, como eu.

Anónimo disse...

Não fico ofendido por dizer que um cego é cego. Mas não gosto que chame entronização à investidura de um presidente americano.

Anónimo disse...

Não é nada politicamente incorrecta, tratou-se apenas da aplicação certeira de um ditado popular e teve imensa piada. Fez-me soltar a primeira gargalhada so dia :))

Anónimo disse...

Chocante era mandar cantar o cego e não lhe pagar.
Os cegos, em geral, têm um sentido de humor muito acima da média; mais humano e perspetivamente positivo.
Embora este, imagino, se fizesse pagar um pouco mais do que aquela noção que nós temos do "dinheiro para fazer cantar um cego"...
José Barros

Pinóquio disse...

Não acho nada politicamente incorrecto, este fait divers. Como diz o povo «os piores cegos são os que não querem ver».

opjj disse...

Eu já ouço este "Ditado" desde que nasci e certamente q V.Exª tb. Piadas acerca do próximo, são dispensáveis.

BH

rmg disse...


Não me parece políticamente incorrecto mas tão só muito infeliz e bastante insensível .
A vista é uma coisa complicada de perder e as pessoas gostam de fazer piadas como forma de exorcizar os seus fantasmas .

Andrea Boccelli não nasceu cego , nasceu com um glaucoma congénito e ficou cego depois de ter levado com uma bola na escola quando tinha 12 anos .

Por acaso as boladas na cabeça são uma preocupação que acompanha todos aqueles que têm filhos ou netos , o que não parece ser o caso de muita gente (preocuparem-se e/ou terem filhos e netos).

Eu próprio já apanhei um susto grande com um neto , que felizmente correu bem como poderia ter corrido menos bem .

Resta informar os que têm problemas de visão (mesmo que já tenham 60 ou 70 anos ...)que isso lhes pode ser fatal , pelo que devem dar atenção às bolas "perdidas" da miudagem aí na rua .
Conheço 2 casos .

RuiMG

Anónimo disse...

Ando a ficar perita em não assinar os comentários... O das 10:36 é meu! :))

Isabel BP

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro RuiMG: "incorreção" política é isso mesmo que referiu. Mas, como pode ver pelos comentários, "a doutrina divide-se"...

Anónimo disse...

Sr. Embaixador

A história é bastante engraçada e não tem nada de embaraçoso. Como a contou a medo e quase pediu desculpa, alguns leitores indignaram-se...

Abraço
Salomé

Anónimo disse...

Caro amigo dr. Seixas.

Nas várias tertúlias em que estive hoje,de familiares e de amigos, muito rimos com o humor do post.

É evidente que sei quem foi o autor de tão bela e adequada ironia.

Uma preciosidade.

diogo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Parece-me que o desabafo teve cabimento mas.... apenas como um desbafo.

Anónimo disse...

Lido no Blog "Insurgente":

"Clima de festa, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Parece que o presidente da Câmara Municipal de Esposende (CME), João Cepa, gastou 5266,80 euros dos cofres do município para oferecer dois mil terços a outros tantos idosos do concelho. Não satisfeito, acrescentou 16 560 euros, naturalmente públicos, para alugar 32 autocarros e enviar os ditos idosos numa peregrinação a Fátima. Na página do Facebook da CME, conclui-se que a viagem foi um sucesso, com direito a missa, piquenique junto ao santuário e, cito, “a partilha dos farnéis e o convívio entre os participantes, em clima de festa e alegria”. Os que defendem o social-democrata João Cepa, leia-se o próprio, explicam que o homem não é candidato nas próximas eleições autárquicas. Os que o atacam evocam a separação entre o Estado e a Igreja.

É evidente que concordo com os segundos, embora me pareça que a restrição não baste. Além de se separar o Estado da Igreja, proeza que, aliás, já foi razoavelmente consumada há décadas, convinha com urgência separar o Estado do dinheiro alheio. A menos que se ache que o único problema desta história passa pelo carácter religioso das prendas e do destino. Se o sr. Cepa tivesse oferecido ao povo duas mil garrafas de espumante e um passeio à Bairrada, o caso seria diferente? Suponho que não.

Limitar a generosidade dos autarcas apenas nas matérias da fé é continuar a dar-lhes livre trânsito para estraçalharem o rendimento de quem trabalha em pândegas sem eucaristia, rotundas sem evangelho, “multiusos” sem sacerdote, “requalificações” de “envolventes” sem redenção. E isto para ficarmos pela iconografia mais representativa do entusiasmante “poder local”.

Se quisermos ir um bocadinho além, consultar o portal base.gov.pt é descobrir todo um universo de despesas peculiares em que as autarquias também se especializaram. Há os cinco mil euros gastos pela CM de Faro nos serviços de “manutenção e suporte” de um “software de gestão desportiva”, os sete mil euros gastos pela CM de Miranda do Corvo em bilhetes de avião para a Turquia, os 42 mil euros gastos pela CM de Barcelos num misterioso “compressor Nitrox”, os 24 mil euros gastos pela CM da Amadora na “concepção de um desdobrável para as eleições”, os dez mil euros gastos pela CM de Sousel num espectáculo com “o artista “Quim Barreiros”" (curiosamente, “artista” aparece sem aspas), os quatro mil euros gastos pela CM de Loulé em máquinas de musculação (“e stepper”), os 54 mil euros gastos pela CM de Serpa na “aquisição de serviços para a direcção do Centro Musibéria”, os 6500 euros gastos pela CM de Aljustrel num “monobloco em betão”, os 50 mil euros gastos pela CM de Vila Pouca de Aguiar na “tradicional Feira das Cebolas” e, para não cansar e terminar em grande, as largas dezenas de milhares de euros gastos pela CM de Lisboa em incontáveis passagens aéreas para Dublin, Odense, Belfast, Luxemburgo, Helsínquia e onde calha.

Tudo isto, acreditem ou não, são exemplos colhidos na semana agora finda, em suposta época de crise. Multipliquem-nos pelas cerca de duas mil semanas de municipalismo democrático e não se esqueçam: no dia 29, corram às urnas. O voto é um direito e um dever. E, para eles, uma festa e uma alegria."

Alexandre

Anónimo disse...

Caro Alexandre (das 21:41),

Tentei ligar o assunto do post à transcrição no seu comentário "Clima de festa, a crónica de Alberto Gonçalves no DN", li tudinho de "fio a pavio" para ver se o presidente da Câmara Municipal de Esposende também tinha contratado o Andrea Boccelli para animar a malta durante a campanha eleitoral.

Afinal o homem é um "unhas de fome" :))

Isabel BP

P.S. Há uma parte das dádivas que admiro - rações para o canil municipal para os anos de 2013 e 2014. É pena só se lembrarem nestas alturas, mas esta atitute ficou-lhe bem até porque os cães não votam!

Isabel Seixas disse...

Há pequenos prefácios que induzem a tolerância do pensamento inibindo o fundamentalismo.
Há também pessoas com sentido de oportunidade no enquadramento dos provérbios.




Anónimo disse...

Andrea Bocelli é um péssimo cantor. A voz é feia e a técnica inexistente. Se não fosse cego, ninguém daria nada por ele. Só a ignorância, a surdez, a compaixão ou o kitsch de muitos fizeram com que ele tivesse a carreira que teve. Isto a juntar â ganância de agentes e de editoras discográficas. Tem tanta musicalidade como Tony Carreira e muito menos autenticidade. Deu cabo de muitas gravações porque as editoras impuseram a sua presença ao lado de maestros como Gergiev ou Mehta-e estes aceitaram. O negócio da música clássica é como os outros. Há que ter discernimento e, neste caso, visão, além de honestidade. Um abraço. JPGarcia

ARD disse...

Estou de acordo com o João Pedro Garcia.
Além de mau cantor, é cego.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Adorei Senhor Embaixador, de morrer a rir

Anónimo disse...

deve ser surdo quem acha que bocelli é mau cantor!

ignatz disse...

tens razão, oh garcia, mas aqui ninguém arrisca opinião própria e ainda confundem o carreira com o carreras

Anónimo disse...

Parece o Passos Coelho a cantar em barítono.

EGR disse...

Senhor Embaixador: assisti a esse concerto que aconteceu na Praça D. João I no Porto; recordo que foi visível a chegada de Bocelli num carro que estacionou ao na curva da rua do Bonjardim em frente da Caixa Geral de Depósitos.
Lembro-me também que, imediatamente após o fim do concerto o cantor saiu no mesmo carro.
Naturalmente que desconhecia o episodio de bastidores que nos conta.

Anónimo disse...

tratam o cantor cego como criminoso, quem de vós não zela por seus interesses e carreira, um artista vive de quê?
Tem que comer, vestir, pagar impostos e cantar!

Anónimo disse...

Caro ARD,

"Além de mau cantor, é cego."

A sua frase é politicamente incorrecta até à 5ª dimensão... Há muito tempo que não indignava tanto.

Muito forte e insensível, mas estamos na era do faz de conta do intelectualmente correcto!

Isabel BP

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Isabel BP : também eu divirjo radicalmente do que o ARD disse. Só o publiquei porque ele se identificou e assumiu com frontalidade essa posição, julgo que como provocação para "testar" o politicamente correto. Já agora, quero dizer que não fui eu o diplomata autor do desabafo que a historieta relata. Mas tenho pena, claro...

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

A blogosfera é isto mesmo concordar e discordar... Como dizem os jamaicanos até à exaustão "no problem" :))

Com estima,

Isabel BP