sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Para alemão ver*


Angela Merkel é a atual "patroa" político-económica da Europa. Na existência da UE, nunca um só país foi tão relevante no seu equilíbrio interno de poderes. Esta singularidade conjuntural, devida à fragilidade da França, cria uma realidade nova que, sendo má para a União, acaba por não ser cómoda para Berlim. Essa solidão de poder acaba por ter um efeito nefasto sobre a imagem do país, embora não devamos exagerar na ideia de que se caminha necessariamente para o acordar de alguns demónios históricos.
 
Nestas condições, Angela Merkel é, de facto, a mais importante personalidade, no que toca à economia portuguesa. Atenta a nossa dependência da orientação que a politica económico-financeira europeia venha a assumir, e tendo em conta que nada do que aí se passar deixará de ter a posição alemã no seu centro, é obvio que o chanceler federal, seja ele quem for, tem nas suas mãos parte importante do nosso destino. O resto, que ainda é algum, dependerá da competitividade do nosso tecido económico (o que hoje tem essencialmente a ver com a capacidade dos nossos empresários, no vazio do investimento público), da determinação política que Portugal vier a mostrar na obtenção de melhores condições no plano externo (que é o contrário do seguidismo e do atentismo sobre o que a Europa "nos dê") e, claro, da evolução da situação económica global.
 
O governo português, nos últimos dois anos, colocou todas as suas cartas em Berlim, na convicção de que a Alemanha premiaria os casos de sucesso nos países sob resgate e, se algo corresse mal, acorreria a ajudá-los, desde que tivessem sido alunos aplicados no ajustamento. Lisboa procurou evitar todo o gesto, por menor que fosse, que pudesse contrariar Berlim. Prova disso foi o modo como Portugal (não) negociou as ultimas "perspectivas financeiras" comunitárias, no fatalismo de que tudo acabaria sempre por se passar como a Alemanha determinasse. Custa-me ter de concluir que esta não foi a melhor forma de defender os interesses portugueses.
 
* texto que hoje publico no "Jornal de Negócios" como comentário à decisão do jornal de considerar Angela Merkel a mais importante personalidade da economia portuguesa.

9 comentários:

Anónimo disse...

Boa!

Anónimo disse...

Oh Sr. Embaixador! A foto que ilustra este texto é por demais ousada! Então agora essa senhora é que é "o governo de Portugal" ? Já não é a Troïka?
"Podem cortar, meu corpo à chicotada..."
José Barros

Anónimo disse...

Eu acho que é o Wolfgang Schauble que da a tactica e tem as ideias, a Merkel (que nada tem de burra) não tem ideias fortes, só quer ganhar as eleições e ir no sentido do que querem os alemães (conservar o euro para os fortes e fazer os fracos pagar por ele). O Schauble, mais lúcido, sempre achou que o euro era só para os fortes, porque dos fracos não reza a História... Visto do Golungo

a) Feliciano da Mata, germanista

Anónimo disse...

Tantas voltas de texto para dizermos que estamos de tanga e à mercê de estranhos ao fim destes anos todos [foram mais de trinta].

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro "Anónimo das 18:18"

A sua opinião é válida quanto ao estarmos de tanga? Não: estamos mais nus do que o Adão antes de comer a maçã. E estamos burros, como sempre estivemos (salvo raríssimas excepções). E estamos realmente à mercê de estranhos.

Mas, cuidado, estamos em Portugal onde nada se leva a mal.

Quanto à ilustração: concordo

Quanto ao Feliciano da Mata: já somos dois.

Viele Dank. Auf Wiedersehen!

Joaquim De Freitas disse...

Nao sei, Sr. Embaixador, se os seus numerosos leitores de aquém e além mar ouviram ou leram estas palavras de Antonio Costa. Pode permitir que as transcreva? Merci.

"
(...) A situação a que chegámos não foi uma situação do acaso. A União Europeia financiou durante muitos anos Portugal para Portugal deixar de produzir; não foi só nas pescas, não foi só na agricultura, foi também na indústria, por ex. no têxtil. Nós fomos financiados para desmantelar o têxtil porque a Alemanha queria (a Alemanha e os outros países como a Alemanha) queriam que abríssemos os nossos mercados ao têxtil chinês basicamente porque ao abrir os mercados ao têxtil chinês eles exportavam os teares que produziam, para os chineses produzirem o têxtil que nós deixávamos de produzir.

E portanto, esta ideia de que em Portugal houve aqui um conjunto de pessoas que resolveram viver dos subsídios e de não trabalhar e que viveram acima das suas possibilidades é uma mentira inaceitável.

Nós orientámos os nossos investimentos públicos e privados em função das opções da União Europeia: em função dos fundos comunitários, em função dos subsídios que foram dados e em função do crédito que foi proporcionado. E portanto, houve um comportamento racional dos agentes económicos em função de uma política induzida pela União Europeia. Portanto não é aceitável agora dizer? podemos todos concluir e acho que devemos concluir que errámos, agora eu não aceito que esse erro seja um erro unilateral dos portugueses. Não, esse foi um erro do conjunto da União Europeia e a União Europeia fez essa opção porque a União Europeia entendeu que era altura de acabar com a sua própria indústria e ser simplesmente uma praça financeira. E é isso que estamos a pagar!

A ideia de que os portugueses são responsáveis pela crise, porque andaram a viver acima das suas possibilidades, é um enorme embuste. Esta mentira só é ultrapassada por uma outra. A de que não há alternativa à austeridade, apresentada como um castigo justo, face a hábitos de consumo exagerados. Colossais fraudes. Nem os portugueses merecem castigo, nem a austeridade é inevitável.

Quem viveu muito acima das suas possibilidades nas últimas décadas foi a classe política e os muitos que se alimentaram da enorme manjedoura que é o orçamento do estado. A administração central e local enxameou-se de milhares de "boys", criaram-se institutos inúteis, fundações fraudulentas e empresas municipais fantasma. A este regabofe juntou-se uma epidemia fatal que é a corrupção. Os exemplos sucederam-se. A Expo 98 transformou uma zona degradada numa nova cidade, gerou mais-valias urbanísticas milionárias, mas no final deu prejuízo. Foi ainda o Euro 2004, e a compra dos submarinos, com pagamento de luvas e corrupção provada, mas só na Alemanha. Os casos de Duarte Lima, do BPN e do BPP, as parcerias público-privadas 16 e mais um rol interminável de crimes que depauperaram o erário público. Todos estes negócios e privilégios concedidos a um polvo que, com os seus tentáculos, se alimenta do dinheiro do povo têm responsáveis conhecidos. E têm como consequência os sacrifícios por que hoje passamos.

Enquanto isto, os portugueses têm vivido muito abaixo do nível médio do europeu, não acima das suas possibilidades. Não devemos pois, enquanto povo, ter remorsos pelo estado das contas públicas. Devemos antes exigir a eliminação dos privilégios que nos arruínam. Há que renegociar as parcerias público--privadas, rever os juros da dívida pública, extinguir organismos... Restaure-se um mínimo de seriedade e poupar-se-ão milhões. Sem penalizar os cidadãos.

Não é, assim, culpando e castigando o povo pelos erros da sua classe política que se resolve a crise. Resolve-se combatendo as suas causas, o regabofe e a corrupção. Esta sim, é a única alternativa séria à austeridade a que nos querem condenar e ao assalto fiscal que se anuncia."

Joaquim De Freitas disse...

Merkel nao é culpada disto!!!


O Marinho Pinto às vezes exagera, mas manda umas bocas que, normalmente, ficam sem resposta.

(Ora aqui está uma das corporações mais temidas pelo poder.
O Passos e a ministra devem ter pesadelos só de pensar que mais cedo ou mais tarde têm de lhes ir à carteira.
Ou, se calhar, vão disfarçar até ao último dia, atitude que será seguida piedosamente pelos "súcias" porque arranjar sarilhos não é com nenhum deles.)

António Marinho e Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados ,
Austeridade e privilégios, no Jornal de Notícias. Excertos:
«[...] O primeiro-ministro, se ainda possui alguma réstia de dignidade e de moralidade, tem de explicar por que é que os magistrados continuam a não pagar impostos sobre uma parte significativa das suas retribuições; tem de explicar por que é que recebem mais de sete mil euros por ano como subsidio de habitacao; tem de explicar por que é que essa remuneração está isenta de tributação, sobretudo quando o Governo aumenta asfixiantemente os impostos sobre o trabalho e se propõe cortar mais de mil milhões de euros nos apoios sociais, nomeadamente no subsídio de desemprego, no rendimento social de inserção, nos cheques-dentista para crianças e — pasme-se — no complemento solidário para idosos, ou seja, para aquelas pessoas que já não podem deslocar-se, alimentar-se nem fazer a sua higiene pessoal.
O primeiro-ministro terá também de explicar ao país por que é que os juízes e os procuradores do STJ, do STA, do Tribunal Constitucional e do Tribunal de Contas, além de todas aquelas regalias, ainda têm o privilégio de receber ajudas de custas (de montante igual ao recebido pelos membros do Governo) por cada dia em que vão aos respetivos tribunais, ou seja, aos seus lugares de trabalho.
Se o não fizer, ficaremos todos, legitimamente, a suspeitar que o primeiro-ministro só mantém esses privilégios com o fito de, com eles, tentar comprar indulgências judiciais.»
"A vida corre atrás de nós para nos roubar aquilo que em cada dia temos menos."
NB: Mas falta ainda acrescentar que todos os elementos que fazem parte do STJ têm direito a mais outra mordomia. Carros topo de gama para todos, mais as respectivas despesas com o mesmo, nomeadamente combustível, reparações, inspecções e tudo o mais que envolve gastos com o veículo atribuído.
O que os juízes fazem é só conduzir o " contribuinte" tomar conta da despesa toda.....

Anónimo disse...

@ Henrique ANTUNES FERREIRA
Eu diria mesmo que nos transformaram num país de naturistas. Pode ser que seja bom para o turismo.

Anónimo disse...

estamos a nadar nus. a maré começa a descer e já se está a ver o que se vai passar!