terça-feira, 3 de setembro de 2013

As contas do Nagorno-Karabakh

O Azerbaijão, onde me desloquei no ano passado pela UNESCO, e a Arménia, onde hoje me encontro pelo Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, mantêm entre si um estado de tensão político-militar, por virtude do conflito do Nagorno-Karabakh, um território que foi objeto de uma guerra sangrenta no início dos anos 90. Esse território, cercado pelo Azerbaijão (há uma única estrada de ligação à Arménia) é hoje ocupado por populações e forças arménias, situação que os azeris não reconhecem. Esta questão tem vindo a ser tratada, desde 1994, pelo chamado "grupo de Minsk", uma entidade internacional composta por 11 países (de que Portugal faz parte), cujo trabalho negocial não tem dado resultados muito visíveis, "to say the least".

A zona do Nagorno-Karabakh constitui um dos clássicos "conflitos congelados" que derivaram do fim da União Soviética, sendo os restantes a Transnístria, a Ossétia do Sul e a Abcásia. Com exceção deste último caso (que compete à ONU), os restantes têm a sua sede de tratamento na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). No ano 2002, coube-me dirigir, em Viena, a presidência portuguesa da OSCE, razão pela qual passei a seguir estes temas, até hoje, com alguma curiosidade e interesse.

Um dia, na segunda metade de 2002, o diplomata português que seguia o dossiê na nossa presidência, José Manuel Carneiro Mendes, transmitiu-me o convite do chefe do chamado "High Level Planning Group" (HLPG), dependente do "grupo de Minsk", para que eu visitasse essa estrutura. Vim então a ser simpaticamente acolhido, num andar de Viena, por um grupo multinacional de dez oficiais (idealmente serão 13, atualmente serão 8), secretariados por uma simpática senhora, que me fizeram um "briefing" sobre a situação no terreno, a qual nada diferia das informações que o "Conflict Prevention Centre" da OSCE regularmente me transmitia. 

Mas, afinal, para que servia o HLPG? O objetivo desta estrutura seria montar uma operação de "peacekeeping" posterior ao estabelecimento de um acordo, eventualmente a ser obtido pelo "grupo de Minsk". Com exceção de algumas missões de observação no terreno, quando as partes assim o consentiam, o grupo vivia (e vive) encerrado naquele andar, com mapas desatualizados, sem um serviço mínimo de "intelligence" que o abastecesse de dados relevantes, sendo as "missões" da OSCE na Arménia e no Azerbaijão os seus escassos suportes informativos. Desde 1994...

Na ingenuidade de que a razão podia prevalecer, sondei discretamente os "major players" da OSCE, bem como as duas partes diretamente interessadas, com vista a tentar perceber se não seria possível fazer "destroçar" a tropa acantonada naquele dispendioso andar da capital austríaca. A minha ideia era fazê-los regressar aos respetivos países, reconstituindo-se o HLPG se e quando uma hipótese remota de acordo viesse a ser viável. A poupança orçamental seria significativa, fosse para os cofres da OSCE, fosse para os países de onde os militares (de várias patentes) eram "seconded".

O que eu fui dizer! Com maior ou menor ênfase, não houve um só dos meus interlocutores que desse a menor abertura a essa minha "bizarra" ideia, a começar pela Arménia e pelo Azerbaijão. Para todos eles, se levada à prática, a minha proposta indiciaria um menor empenhamento internacional na resolução do conflito. E assim fracassou a minha ideia.

Ontem, aqui em Yerevan, capital da Arménia, vim a confirmar que o HLPG permanece galhardamente no seu posto em Viena. Para o ano, comemoram-se 20 anos (!!!) desde que esse grupo de oficiais, regularmente renovado, foi criado e se mantém em "funções", encerrado naquele andar, fantasiando uma "operação de paz" que terá lugar lá para as calendas gregas.. Quando ouço por aí falar nas "gorduras do Estado" e dos gastos supérfulos, lembro-me muitas vezes do HLPG...

Em tempo: hoje à noite, durante um jantar, falei deste assunto com um responsável político arménio. Esclareceu-me que o HLPG em Viena gasta cerca de 200 mil euros/ano, sem contar com os salários dos militares. E ele também me confirmou não haver consenso para o desmantelamento da estrutura, dado que ela "faz parte de um processo complexo, que não teria sentido sem uma das partes" (sic).

Acrescento também um mapa, que dá conta da complexidade da área. A cinzento, na parte de baixo do mapa, pode ver-se o enclave azeri de Nakhichevan, que visitei em 2012. Da capital do Azerbaijão, Baku, a única forma de chegar é por avião, entrando no espaço aéreo do Irão.

13 comentários:

Anónimo disse...

A minha bisavó, Capitolina da Mata, costumava dizer : "quem tem muito dinheiro, assa-o na ponta de um espeto".

a) Feliciano da Mata, contabilista, contas para todos os gostos e necessidades

Anónimo disse...

Este texto deve ter batido um qualquer recorde de estrangeirismos...

Anónimo disse...

Vamos fazer um grupo destes por causa das Selvagens? Sediado em Viena, claro, e com oficiais de países como a Arménia e o Azerbaijão. E uma Miss Monneypenny a secretariar, do tipo da nossa anterior Embaixadora na OSCE, que gosta de poupar e que actualmente secretaria outro serviço? Mesmo que os resultados fossem os mesmos, seríamos mais poupadinhos de certeza. Ficaríamos num andar alugado e não comprado e seriam apenas 4 ou 5 oficiais em comissão de serviço.
a)Angela Mercas

Anónimo disse...

Ao dar uma vista de olhos pelo que se passa em vários cantos do mundo, e nos casos particulares da zona de Nagrono-Karabakh, na Transnístria, na Ossétia do Sul e na Abcásia... a minha militancia para "reaver" Olivença dos espanhois tem muito caminho pela frente...
José Barros

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 5:.53: tem razão, mas já me cansei de refrear esta minha tendência. Assim, quando um termo estrangeiro me parece adequado, uso-o sem grande preocupação de andar à procura de um equivalente em português. Este blogue não ambiciona o prémio Nobel da literatura...

Anónimo disse...

Não se trata de Nobel mas tão-só de coerência. Andar a defender a importância da língua para, depois, cair nestes pecados...

Bata depois nos tipos da "narrativa"...

Anónimo disse...

Entretanto em Portugal, com a devida vénia:

"Funcionários públicos: entre a cegueira do TC e a cobardia de Passos
Henrique Raposo
8:00 Terça feira, 3 de setembro de 2013
Depois de escrever estas colunas inconstitucionais na primeira metade do ano , já não tenho nada a dizer sobre a cegueira ideológica e corporativa dos juízes do Tribunal Constitucional (TC). Aliás, se escrevesse mais qualquer coisinha, teria de dar azo à indisfarçável raiva que começo a sentir por este grupo de indivíduos a viver em 1980. Mas, se não há nada de novo sobre a cegueira dos senhores da toga constitucional, há ainda muita coisa a dizer sobre a providencial falta de jeito do primeiro-ministro.

O TC e a esquerda recusam ver a realidade dramática das nossas finanças públicas. Ao invés, Passos reconhece com coragem essa realidade. Problema? A sua argumentação não sai da questão financeira de curto-prazo: "esta reforma do Estado é necessária para cumprirmos os compromissos internacionais", "os juízes não revelam bom senso e não vêem a situação económica do país". Este é um raciocínio técnico, financeiro e meramente conjuntural; dá a entender que a necessidade de despedir funcionários públicos excedentários só existe por causa da troika. E o problema começa aqui. Para ter um apelo político, popular e reformista, a argumentação do primeiro-ministro devia ser moral. Nós devemos reduzir o Estado e despedir funcionários públicos excedentários, porque essa é a coisa certa, porque as corporações do funcionalismo público têm privilégios que os outros cidadãos não têm. Ponto.

Antes de ser um problema financeiro e conjuntural, a reforma do Estado é uma questão moral. Por que razão o funcionário público tem uma mão cheia de privilégios em relação ao cidadão comum? Por que razão não pode ser despedido mesmo quando se torna excedentário? Por que razão trabalha menos 5 horas por semana? Por que razão tem a melhor parte do SNS (a ADSE)? Por que razão o cálculo das pensões da CGA é muitíssimo mais favorável do que o cálculo da Segurança Social? No fundo, por que razão vivemos num regime que consagra uma aristocracia, o funcionalismo público? Com ou sem troika, estas questões morais deviam ser atacadas pelo governo português; mesmo que não vivêssemos um cenário de falência, estes privilégios das corporações deviam ser extintos, porque são injustos antes de serem insustentáveis. O Estado tem de ser reformado por uma questão de justiça e não por uma questão aritmética; o funcionalismo deve ser reformado porque é um factor de injustiça e não por causa do "estado de emergência" financeiro. Incapaz de sair do economês, Passos nunca teve a coragem para assumir esta posição moral. O primeiro-ministro refugiou-se no tem-que-ser-por-causa-da-troika, perdendo assim a oportunidade de abrir o popular debate sobre os privilégios das corporações do funcionalismo público. "




Ler mais: http://expresso.sapo.pt/a-tempo-e-a-desmodo=s25269#ixzz2dq6EbWza

Alexandre

Bmonteiro disse...

Mais ou menos o que se passa, nas numerosas embaixadas portuguesas, dotadas de um pequeno staff militar.
Justificados, alguns, há umas décadas atrás, por lá andam.
Representações que não têm cessado de ser alargadas.
Cumprindo a lei das burocracias (conforme Max Weber).

Anónimo disse...

O Senhor Embaixador, essas suas observações servem para a malta dizer " vêem? Os diplomatas nãos servem para nada!". Que neste caso sejam militares que estão la há quinze anos a espera de fazer alguma coisa nao os vai aquecer nem arrefecer. O Senhor Alcipe contou-me que viu com preocupação na noite de Erevan (que ele parece frequentar assiduamente) cartazes belicistas e muito inflamados contra o Azerbaidjao. Olhe, nao e o meu dinheiro, por mim quanto mais guerra melhor, que sobe o petróleo, mas já viu as reacções que a sua observação, alias relativa a um casos belli que nos e estranho, veio provocar?

a) Feliciano da Mata, fautor de guerra

Alcipe disse...

Onde e que o B Monteiro viu que as numerosas embaixadas portuguesas nao tem cessado de ser alargadas? Quando estava B ou quando estava Monteiro?

Anónimo disse...

Há maior cegueira do que aquela que leva alguns a confundirem o Estado com uma empresa?
Porquê que não deslocalizam o Estado Português para a China onde há melhor contexto de custos de laboração, como qualquer empresa o pode fazer, já que o Estado não passa de uma simples chafarica?
Acham o TC corporativo, porque chumba normas governativas, mas ninguém apelou ao mesmo quando andaram no forrobodó das despesas e a enxameá-lo com os amigos de todos os partidos da esquerda à direita e, continuam. Que foi exatamente o que causou a situação atual! Foi isto constitucional?
Já que o TC é corporativo porquê que não propõem a adjudicação do trabalho que eles fazem a umas dessas empresas de advogados “bem geridas”!
Porquê que o “valentão” do PM não começa “arredar” quem está lá nas condições partidárias e depois dessa limpeza conversávamos? É que as fundações lá continuam, as empresas também e os “pessoal” anterior não arreda pé e, se arreda é para deixar entrar os de agora.
Algum patrão despede alguém sem perceber muito bem o que ele representa para a empresa? Pois, no Estado, não tenho qualquer dúvida que, acabado o vinculo, só lá ficarão os lacaios.
Querem um Estado assim? Eu prefiro adjudica-lo ao Eng. Belmiro de Azevedo pelo preço que ele disser…
(Isto foi suscitado por um comentário anterior.)

Anónimo disse...

A Senhora Engenheira diz que se escreve casus belli e nao casos belli e o que ela diz e que se escreve,

a) Feliciano da Mata, inventor de um novo Acordo Ortográfico secreto

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Há militares portugueses nesse brioso e aprumado HLPG? Não há? Nem com ajudas de custo? Então não vale mesmo nada, até em Viena...