sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Protocolo

Estive ontem numa palestra proferida pelo antigo chefe do governo espanhol, José Maria Aznar. 

O "presidente del Gobierno" foi uma figura marcante da vida política espanhola, titulando oito anos consecutivos de liderança. A Espanha vivia então os tempos de uma economia de sucesso, com uma forte influência na vida europeia. A isso correspondeu um momento de uma nova afirmação internacional de Madrid, com algumas cambiantes no próprio perfil externo do país, de que a mais notória terá sido o forte alinhamento político com os EUA, a anteceder a respetiva intervenção no Iraque, em 2003.

Uma momentânea hesitação ocorrida na definição do lugar de Aznar, na mesa onde ontem se sentavam os participantes no debate, trouxe-me à memória uma imagem que revela bem como o protocolo pode ter uma importância decisiva na vida política.

Se olharem para a fotografia acima, todos identificarão os quatro chefes de governo que, em 17 de março de 2003, estiveram na chamada "cimeira dos Açores". Não obstante serem quatro, fica claro que a centralidade da imagem está focada em George W. Bush, que tem à sua direita Tony Blair e, à esquerda, José Maria Aznar, sobre cujo ombro Bush colocava uma amigável mão. O chefe do executivo português, embora anfitrião da cimeira, surge num extremo, claramente secundarizado na imagem de grupo.

Curiosamente, as coisas não eram assim... segundos antes desta fotografia. No início da cena, Aznar estava colocado à direita de Durão Barroso, o que conferia ao chefe do executivo português um lugar central, e natural, num ato que decorria em solo português. Porém, quem tiver observado o filme da época terá verificado que o chefe do executivo espanhol, com o instinto de quem percebe que as fotos têm uma relevância histórica forte, abandonou a companhia do seu colega português e foi colocar-se ao lado do titular da Casa Branca. E, na sua perspetiva, teve toda a razão para o fazer. A prova é que grande parte das fotografias que surgiram posteriormente na imprensa internacional excluíram o então chefe do executivo português (basta ir ao "Google images" para testar isso).

As coreografias protocolares são, por vezes, da maior importância política.

12 comentários:

catinga disse...

Acrescente-se ainda que, enquanto uns olham para o passarinho, o outro olha, embevecido, para um dos passarões

Valdemar disse...

E aposto que não há dia em que o nosso inefável Durão Barroso não dê graças por isso...

Fada do bosque disse...

Mas tem a gravatinha da cor, do seu antigo PCTP/MRPP!
Diz ele que ao lado, só da uva. :)
ahhahahahah Catinga!

Helena Sacadura Cabral disse...

Ah! E claro, apesar de tudo os outros já estão longe do poder e Barroso mantém-se...

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, como gosta de Jorge Palma eu permito enviar-lhe esta letra de uma canção antiga dele, que não acho nada despropositada em relação a esta fota dos quatro da guerra no Iraque:

Jeremias O Fora Da Lei

Jorge Palma

Vou falar-vos dum curioso personagem: Jeremias, o fora-da-lei
Descendente por linhas travessas do famigerado Zé do Telhado
Jeremias dedicou-se desde tenra idade ao fabrico da bomba caseira
Cuja eloquência sempre o deixou maravilhado

Para Jeremias nada se assemelha à magia da dinamite
A não ser talvez o rugir apaixonado das mais profundas entranhas da terra
Só quando as fachadas dos edificios públicos explodirem numa gargalhada
Será realmente pública a lei que as leis encerram

Há quem veja em Jeremias apenas mais uma vítima da sociedade
Muito embora ele tenha a esse respeito uma opinião bem particular
É que enquanto o criminoso tem uma certa tendência natural p´ra ser vitimado
Jeremias nunca encontrou razões p´ra se culpar

Porque nunca foi a ambição nem a vingança que o levou a desprezar a lei
E jamais lhe passou pela cabeça tentar alterar a constituição
Como um poeta ele desarranja o pesadelo p´ra lá dos limites legais
Foragido por amor ao que é belo e por vocação

Jeremias gosta do guarda roupa negro e dos mitos do fora-da-lei
Gosta do calor da aguardente e de se seguir remando contra a maré
Gosta da maneira como os homens respeitáveis se engasgam quando falam dele
E da forma como as mulheres murmuram: "o fora-da-lei"

Gosta de tesouros e mapas sobertudo daqueles que o tempo mais mal tratou
Gosta de brincar com o destino e nem o próprio inferno o apavora
Não estando disposto a esperar que a humanidade venha alguma vez a ser melhor
Jeremias escolheu o seu lugar do lado de fora"

Bem, imagino que não deva estar de acordo com tudo, mas tem de concordar que a escolha do Jeremias é uma opção melhor do que a de, calhando, a maioria....

Anónimo disse...

Fotografia sinistra!
Anónimo

Helena Sacadura Cabral disse...

A gravatinha vermelha ao pé das três outras tão celestiais lembra, de facto, outros tempos, outras vontades.
Naquele MRPP também se encontravam umas damas que, por bem ou por mal, continuam a acompanhar o labor do maestro...
Ai, às vezes a "evolução" é tão penosa!

cunha ribeiro disse...

Não é preciso vestir-me de ANÓNIMO para dizer que se trata de facto de uma Foto SINISTRA. Uma foto que valeu um OSCAR de melhor actor europeu a Durão Barroso.

Isabel Seixas disse...

Oh! caro Cunha Ribeiro, por quem é , claro que merece Ser, se subscrevo...

Todos os comentários na Mouche.

Nem laivos de Trás-os Montes atenuam ...Ó "bida bida"

Parecem um galheteiro em que o posicionamento do sal e da pimenta querem o lugar do azeite e vinagre, ou será que estaria por lá também a noz moscada com a sua substancia alucinogenea ativa...
Já nem digo nada, que ideia.

Agora que são estão e ficaram bem parecidos, sim senhor, venha o .....escolha

Helena Oneto disse...

Este interessantíssimo texto só podia ser escrito por um Mestre em "Protocolo"! Honra lhe seja feita, meu caro Embaixador.

Anónimo disse...

"Deus os fez, Deus os juntou".

Isabel BP

Fada do bosque disse...

Ainda não percebi porque foi o Blair julgado, assumiu a sua culpa como criminoso de guerra, não mostrou arrependimento, anda em liberdade com destaque dos Media e patrocínio dos contribuintes numa campanha contra a Palestina e a favor de Israel. A ver por este exemplo, os nossos governantes podem fazer o que querem, pôr e dispor dos Direitos dos cidadãos a seu bel prazer e quando os violam gravemente, são recompensados com cargos de destaque. Nem falo do Bush pois dá a sensação que tem um pouco mais de vergonha na cara. São estes homens que fazem as guerras e são estes homens os que melhor estão na vida. Aqui o Barroso tem um papel importante, ser passivo e fazer o que os interesses de uma minoria vão para a frente. É nestas alturas que gostaria de ser "terrorista"... nunca conseguiria alcançar a estirpe deles, mas enfim.