quinta-feira, 3 de março de 2011

Zero

Esta é uma história clássica do MNE.

O novo embaixador chegava a esse posto periférico, vindo do outro lado do mundo, de outra capital de idêntica dimensão. Tratava-se de uma figura que a maioria dos colegas conhecia apenas pelo nome, lido nas burocráticas páginas do "Anuário". Vivendo há muito no estrangeiro, era tido por um solitário, por não ser um homem de lóbis ou de grupos de amigos. Profissionalmente, parecia já acomodado à "slow lane" de um percurso diplomático que até começara bem, mas cuja visibilidade se fora atenuando, com o passar dos anos. Nos tempos que então corriam, parecia apostado em manter-se o mais discreto possível, "desaparecendo" perante Lisboa. Nele se tinha esfumado qualquer vestígio de ambição.

O secretário de embaixada - o único outro diplomata em serviço no posto, como sucede na esmagadora maioria das nossas representações -, que o acolhia, muito poucos dados de personalidade pudera obter sobre o seu novo chefe, apenas lhe tendo chegado que se tratava de uma figura algo peculiar no respetivo comportamento. Assim, a sua curiosidade era imensa. Cabendo-lhe servir, nos anos seguintes, sob a orientação desse embaixador, teria de estar muito atento às suas "manias", cujo controlo era essencial para um bom entendimento futuro.

No caminho do aeroporto para a residência oficial, a conversa foi vaga, sobre o clima e coisas assim. Mas, a certo ponto, as questões de serviço surgiram, perguntando ao secretário:

- E como vai a embaixada em matéria de ofícios e telegramas expedidos ? Tem alguns números do "tráfego"?

(Os "ofícios" são as comunicações escritas, enviadas pela mala diplomática semanal, e, por regra, não têm um caráter urgente. Os "telegramas" são comunicações com um grau de prioridade bastante maior. Têm esse nome porque, no passado, eram expedidas por essa via. Mais tarde, passaram à forma de textos por telex. Atualmente, seguem por e-mail. Em geral, os "telegramas" são expedidos de forma cifrada, por forma a evitar que sejam lidos por quem, eventualmente, intercepte as comunicações).

O secretário hesitou. Havia-se preparado para muitos temas, mas não estava à espera de uma questão quantitativa tão detalhada. Puxou pela memória e lá disse uns números aproximados, na casa de algumas dezenas, em cada caso. Dar-se-ia o caso do embaixador ser um furioso produtor de telegramas? Há colegas que vivem nessa angústia permanente, que inflacionam a produção informativa para terem números superiores aos de outros postos, e que, em especial no final do ano, procuram ridiculamente bater records. Seria ele desses?

Não era. Porque, de imediato, ao embaixador saiu-lhe esta "pérola", que ficou para sempre nos anais da "casa":

- Saiba o meu amigo que o  número ideal, para uma embaixada, seriam "zero" ofícios e "zero" telegramas. Isso significaria que não haveria necessidade de comunicações entre o posto e a "secretaria de Estado" (nome que damos ao MNE em Lisboa), que as relações se passariam sem a nossa intervenção, que nada haveria que reportar e que Lisboa nada precisaria de nós. Esta hipótese, contudo, só existe em tese, porque há sempre fatores a justificarem contactos, através de ofícios e telegramas.  Mas devemos reduzir as comunicações ao mínimo possível.

O embaixador não se terá dado conta que esse seu modelo de funcionamento minimalista, se levado ao extremo, justificaria o próprio encerramento das embaixadas que o praticassem.

Contudo, não conseguir essas "performances" não é sinónimo de o não tentar. Dois anos depois, em meados do ano, o telegrama em que o embaixador anunciava a partida do secretário, colocado noutro posto, iria ter o nº ... 25!

10 comentários:

Anónimo disse...

Gostei, particularmente, da expressão "um furioso produtor de telegramas".

Para quem estabelecera a meta de "zero" telegramas... em meados do ano, já ter enviado 25 telegramas é um belíssimo "score" :)

Isabel BP

Anónimo disse...

Chamo-lhe a imagem de Marca...
Imposição da chancela...
A subtileza diferenciadora...
O cunho pessoal...

Essa necessidade absoluta que a pessoa tem de se querer impor por alguma particularidade interventiva no exercício das suas funções profissionais e que desagua sempre, no não tinham reparado que eu sou melhor que os Outros... Então não se vê logo...

Adorei a criatividade comunicar através da ausência pelo menos redução (Bem atual essa medida, eu já vou mais à frente quase me calo)de comunicação escrita...

onde é que eu já vi isso?!

Isabel seixas

(c) P.A.S. disse...

Excelente embaixador, o descrito. Por dois motivos: por não gozar de lobbies nem daquelas amizades próprias de quem é produtor de verdadeiros "telegramas" de influências; por ser a favor de um estado minimalista, mas de qualidade, onde os servidores do Estado se tornam verdadeiros servidores da sociedade civil. Como seria perfeito um mundo com tais humildes low-profile serviçais do estado!

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador tendo um tido um irmão na "carreira" estas histórias deliciam-me.
Mas também penso, e muito lhe devo com o que aqui leio, que a dita diplomacia evoluiu muito!

Gil disse...

Homem sábio!
"Surtout, pas trop de zèle."

Anónimo disse...

Sr Embaixador

Parabéns pelo o premio que lhe foi atribuido . Noticia lida hoje no Jornal Sol .

Carlota Joaquina

patricio branco disse...

Tudo isto nos leva à questão da autonomia, à conveniência na descentralização, à auto-suficiência, à não dependencia, ao assumir responsabilidades pessoais sem receio. E ao priviligiar a qualidade sobre a quantidade.
E ao colocar a vida pessoal acima da vida oficial ou profissional.
Tanto o novo chefe como o subordinado eram pessoas, depreendo, com os pés assentes no chão, sóbrios, discretos,eles próprios, em suma

Anónimo disse...

Creio que Gil fez a citação certa para o caso, cujo autor será o mais sábio e eficaz de todos os diplomatas: Talleyrand
João Vieira

Anónimo disse...

Dizem que pior que uma má decisão, é uma não decisão.

Eu prefiro a postura deste Embaixador referido no texto. Uma não decisão é muito melhor que uma má decisão, por outras palavras é melhor não fazer nada do que fazer errado.

Valéria Maria disse...

Acabo de ler no Correio Braziliense, na crônica deliciosa de Conceição Freitas seus poéticos comentários sobre Brasília e imediatamente entrei no seu blog. Li "Zero" e sigo lembrando dos tempos maravilhosos em que tínhamos você e Gina aqui.