quarta-feira, 14 de julho de 2010

"Concierges portugaises"

Invariavelmente, as referências são extremamente elogiosas: "A minha "concierge" (porteira) é portuguesa. Uma mulher seriíssima. Está no prédio há muitos anos". Ouvir coisas assim da boca de parisienses, em especial de residentes nas áreas mais ricas da cidade, é uma banalidade antiga, para qualquer embaixador português. As "concierges" portuguesas são uma imagem de marca da nossa presença em Paris e esses parisienses ricos não deixam de no-lo lembrar a todo o tempo. 

Talvez por isso, aqui há uns meses, num jantar social, decidi divertir-me um pouco, quando vizinhos de mesa voltaram a falar-me, pela enésima vez, das suas "concierges" portuguesas. Era a noite do 1º de abril, e lancei para a mesa aquilo a que os franceses chamam  um "poisson d'avril", uma "mentira de abril".

Fazendo um ar (falsamente) cansado, adiantei: "Nem me falem nas "concierges"! Não imaginam o problema orçamental que elas me criam!". Parte da mesa olhou-me, surpresa, porque não era óbvia a razão do impacto das "concierges" no orçamento do embaixador português.

Sem deixar "cair a bola", e baixando o tom de voz, esclareci: "Há um segredo que vos quero contar, embora peça a maior descrição". Com isso consegui, como é dos livros, uma atenção acrescida: "Como devem imaginar, a existência de uma imensidão de "concierges" portuguesas em muitas casas de Paris não passou desapercebida aos nossos serviços secretos. Naturalmente, eles não podiam deixar de aproveitar o potencial que representava a existência de um grupo de cidadãs nacionais colocadas em lugares tão vitais para a obtenção de informações".

A cara dos circunstantes, damas e cavalheiros da alta sociedade, alegrada pelos efeitos do lauto jantar, começou a fechar-se, aos poucos, com alguns convivas, até aí mais distraídos e distantes na mesa, a sentirem-se mobilizados para tentar seguir melhor o que eu dizia. 

"Há uns anos, consciente deste potencial, um dos meus antecessores propôs "trabalhar" essa rede em termos de obtenção de informações sobre personalidades de relevo. E, desde então, a Embaixada tem uma estrutura, com cerca de 10 pessoas, que se dedica a "debriefar" as "concierges" que se prontificaram a colaborar conosco - e muitas foram. Cabe sempre ao embaixador, claro!, separar o que é a informação com algum significado político ou económico daquela que se prende com costumes, vícios e outro "gossip". Tudo isso, posso garantir, é destruído imediatamente. Depois de eu ler, claro...".

Verifiquei ter ganho, nesses instantes, o silêncio reverencial dos meus pares, com alguns homens a emborcarem um forte golo de "armagnac" e algumas senhoras a tentarem diluir num copo de água o espanto que lhes causava esta minha surpreendente "revelação".

Alentado com a audiência, continuei: "O grande problema que tenho, como compreenderão, é que as nossas "concierges", com uma ou duas exceções, não fazem relatórios escritos, limitam-se a falar para um gravador, o que obriga a um moroso e custoso processo de transcrição. Ora isso ocupa-nos muita gente e, com as restrições orçamentais a que cada vez mais estamos sujeitos, o sistema começa a tornar-se insustentável".

Os convidados, casal anfitrião incluído, já não tugiam nem mugiam, imaginando eu que à mente lhes deveria estar a aflorar a imagem da madame Conceição ou da madame Isaura, com que sempre se cruzavam nas entradas das suas belas casas do XVIème. Para moderar o impacto financeiro da minha história, mas sempre com um ar de estudada gravidade, esclareci: "É claro que nós não pagamos nada às senhoras. Elas são voluntárias. Quando muito, às vezes, pelo Natal, mando-lhes uma garrafa de Porto. É um sistema similar àqueles que vocês, em França, fazem como os "honorables correspondants", que julgo que o vosso serviço de informações ainda utiliza pelo mundo...".

Trocas de olhares foram elucidativas da perturbação que a minha história estava a causar em alguns dos presentes. Poderia a sua "concierge portugaise" ser parte dessa rede de "intelligence", alimentada pelos embaixadores portugueses? Que saberíamos deles que não devêssemos saber? 

Deixei passar algum tempo mais antes de esclarecer, para imenso gaúdio de todos e algum visível alívio de alguns, que tudo não tinha passado de uma completa invenção da minha parte, uma mentira do 1º de abril, tão necessária a distender o ambiente nestes tempos pesados de crise.

Mas, quem sabe!, isso pode não ter impedido em absoluto que alguns desses amigos,  ao sairem de casa no dia seguinte, de atentarem melhor na cara de potencial Mata Hari da sua simpática "concierge portugaise"...

20 comentários:

Helena Oneto disse...

Quando entrei (em 1986) no banco francês onde ainda trabalho aqui em Paris, os directores do departamento internacional com quem trabalhava, souberam, porque les disse, que eu era portuguêsa diziam sempre: "Ah bon? on dirait pas... Ouvi os mesmos elogios às "concierges portugaises" e aos maridos das mesmas que lhes faziam uns "biscatos" em casa muitas das vezes de borla. Ah! les portugais! ils sont très sérieux et travailleurs! Voyez-vous, ils m'ont même invité à aller, en famille, passer des vacances chez eux au Portugal! Et nous sommes allés! Les portugais sont très accueillants!... etc.
Claro que dá gosto ouvir estas banalidades mas o que é certo era que, para a maioria do francês comum, os portuguêses eram todos concierges e maçons! Em trinta anos a nossa imagem evolui, graças à entrada de Portugal na CEE.

Admiro a sua perspicácia em contar esta deliciosa historia num 1° de Abril! só tenho pena, Senhor Embaixador, que tenha dito aos convivas que finalmente tudo não passava d'un poisson d'avril:)!

Anónimo disse...

As Concierges portuguesas de Paris têm um poder enormissimo que nem podemos imaginar.
Muitas vezes vieram das aldeias mais remotas de Portugal e de repente têm as chaves de todos os apartamentos do prédio (sinal de confiança), conhecem a vida de todos, pelo simples barulho do elevador conseguem distinguir quem entrou às 3 da manhã, são confidentes de maior parte das “madames” do prédio e conhecem muitos dos seus segredos.
Penso que foi a socióloga Maria Engrácia Leandro que estudou as Concierges portuguesas de Paris 16. Os filhos delas ‘puxaram’ os estudos bem mais lo,ge do que os filhos dos Portugueses de Champigny. Porque ‘seguiam’ o movimento dos filhos dos rasidentes no prédio.
Pena que hoje já não haja estudos sobre a emigração portuguesa. Mas isso é outra história!
Voltando as concierges, foi uma ascenção social que muitas não querem perder. Por isso, enquanto que os maridos, que trabalham nas obras, não perderiam nada em regressar a Portugal. Elas agarram-se afincadamente a Paris e não querem regressar a Portugal.
Pena que muitas vivam em cubiculos tão pequeninos... mas essa também já é outra história!
Carlos Pereira

Anónimo disse...

Mais uma curiosa história. Não deixe de escrever as suas memórias, s.f.f..

António Mascarenas

Gil disse...

Há uma resposta que, em tempos, usei e em que explicava aos meus interlocutores franceses qual era a profissão mais exercida por "demoiselles" francesas em Portugal e a feroz competição entre elas e as "Lolas" espanholas.
Era um pouco violento; por isso, limitava a boutade a conversas masculinas e apenas a amigos de certa intimidade.

Guilherme Sanches disse...

Uma bela mentira do 1º de Abril.

Era bom que pudéssemos ter, sobre os Imigrantes que atualmente escolhem Portugal como destino, uma opinião tão confiante...

Quim Filbi disse...

Um amigo, agora reformado, que tinha entradas no SDECE, contou-me, durante os anos 80, que tinha conseguido colocar um coronel dos zuavos, veterano da Argélia, como “femme de ménage” na residência do vice-cônsul soviético.
O picante da coisa é que o coronel, que usava o nome de Madame Zulmira, emigrante portuguesa , desistiu ao fim de duas semanas do emprego, porque o filho adolescente do vice-cônsul, frenético de ardores eslavos, lhe fazia uma corte demasiado assídua e incomodava-o constantemente com apalpões lascivos.
O meu amigo, agora reformado como eu, diz que, de acordo com a imagem caricatural que os “franciús” têm das portuguesas, o Coronel mantinha um discreto bigode.
Acrescenta, vagamente nostálgico, que mesmo assim, o coronel “ainda rompia meias solas”.

Anónimo disse...

Deliciosa história. Genial! Imagino a cara dos convivas presentes. Mas estou de acordo com Helena Oneto, deveria ter mantido o “suspense” e só, mais tarde, noutra ocasião, esclareceria que se tratava “d’un poisson d’Avril”. Para os fazer sofrer um pouquinho, deixa-los a pensar…
Abraço,
P.Rufino

Anónimo disse...

E se...

E se os comensais pensassem que, podendo ser mesmo a brincar, houvesse uma nesga de eventual veracidade no relato e desatassem a despedir as marias e as isáuras a torto e a direito??

Era ver as marias e isáuras a aterrar na Portela a exigir contas a José Sócrates. Para além do desemprego aumentar substancialmente em Portugal.

Mas, por acaso, até é conhecido um caso, pelo menos um, em que se passava exactamente assim, embora, creio, sem o embaixador como interveniente directo. A história é relativamente bem conhecida. Acho eu.

Mas vamos estar atentos a ver se as marias e isáuras não começam a ser despedidas. Ironia, só ironia, embora melhor seria que humor fosse.

Rita

J. Mello disse...

Pela posição na fotografia, não consigo perceber quem é o embaixador, e quem é o princípe....

http://www.embaixada-portugal-fr.org/blog/uploaded_images/Ambassadeur-Portugal-774621.jpg

:)

Abraço!

Alcipe disse...

A primeira vez que cheguei a Paris, em 1970, também tive direito a esse comentário : "Vous êtes portugais? On dirait pas... Vous parlez correctement le français!"

Em 1986 morava num apartamento no 16eme (que remédio!) e a porteira portuguesa confessou-me que era a primeira vez que tinha um "locataire" português e como se orgulhava disso.

Penso que hoje nos vêem de forma algo diferente... porque não somos pretos nem mouros?

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Agora que se comemorou mais uma vez a Tomada da Bastilha, desta feita com uma tonalidade africana que não caiu bem em alguns citoyens, não posso deixar de registar que, corria 1968, fui, com a minha mulher que é goesa, visitar o meu irmão Braz, a viver em Paris e impedido de voltar a Portugal por ter saído daqui... à francesa.

Vivia ele num HLM perto do Bourget. E tinha uma vizinha de patamar que era filha da madame Coelho, concièrge portugaise. Esta, quando a filha lhe disse que a Raquel era de Goa, perguntou-lhe logo se era a favor ou contra a invasão. O falecido marido, sargento lateiro do Exército, tinha sido prisioneiro em Alparqueiros...

Fico, agora, todos estes anos passados, consciente de que a digna senhora podia muito bem ter feito parte dessa mafia comandada por Sua Insolência o Senhor Embaixador de Portugal na República Francesa...

Anónimo disse...

O comentário de Quim Filbi (interessante a escolha do “nome”) é absolutamente de “partir o côco” a rir! Hilariante, Meu caro! Houve um caso, há uns largos anos, que “envolveu” um Alto Dignatário do Estado (AD), que se dizia “vigiado” por um colega (militar, estrangeiro), isso porque o mesmo achava que o tal AD andava a “fazer o rente”...à mulher dele. Na verdade, o pobre, o nosso AD, apenas se limitava a uns simples e pouco audaciosos, a bem dizer, “lances”, à dita, por ocasião de encontros em “público”, ou seja, jantares, recepções, almoços e coisas assim, inofensivas de todo (naturalmente, com o objectivo de “lograr” o que queria...mesmo que a longo, muito longo prazo, tendo em conta o processo utilizado). Mas chegou a ter uns contornos a roçar o perigo...qb. Patusquíssimo, numa perspectiva actual! Ainda assisti “ás manobras de ataque” utilizadas pelo AD, numa dessas ocasiões e fiquei algo perplexo, pois julgava tais “métodos” de todo ultrapassados, ou, quando muito, dignos do Cinema Mudo (metia uns “esgares”, uns sorrisos toscos, uns encontrões ligeiros, uns toques de mão, uns murmurios, uns olhares algo bacocos, um pigarrear, enfim, um sem número de velhos truques que julgava “arquivados” há muito. Pelos vistos, ainda em pleno uso por quem acredita que a “guerra fria entre sexos” ainda subsiste. Extraordinário!). Mas não, há coisas que são perenes, pode crer. Ou, pelo menos, há quem assim acredite. O mundo, por vezes, é bem divertido. Aqui há um par de anos choquei com o dito AD na Baixa lisboeta e não me contive. Perguntei-lhe: “Meu caro e aquela lasbisgóia, afinal de contas, conseguiu ou não levá-la ao castigo” ? – “Olhe, nem me fale! Você nem sabe o que me sucedeu!” E eu curioso, á espera do desenlace da coisa, mas...”népia”! O valoroso AD não se descoseu e deixou-me, até hoje, em “suspense”. Enfim, está vivo e recomenda-se, é o que importa! Ah, e com a sua, de sempre, Mulher.
P.Rufino

Anónimo disse...

Fique o anonimo a saber que a palavra dignatário não existe e que se diz dignitário

apmc disse...

Delicíosa "mentirrá"! Faça-nos um favor, Senhor Embaixador, escreva um livro de crónicas.
Saudações desde Brasília,
APMC

Anónimo disse...

E quando se descobre o poder dos subúrbios do poder?!!!

E quando se zangam as comadres...

A verdadeira riqueza o preço incalculável...honestidade...lealdade
"confiança""respeito"


A miúda ia no autocarro com a garota com quem contracenou na bulha...A outra chamou-lhe a portugaise, como quem chama criminosa... sentiu a brisa dos olhares punhais de indiferença, desprezo, comiseração, regozijo...

Esperou pelo dia seguinte calmamente no recreio, sem testemunhos... Deu-lhe cabo das ventas...Sem Marcas(Aconselhada pela Mãe a consierge), não se repetiu a cena do autocarro ...Só olhares de respeito/Medo
Nunca foram amigas
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Já agora, na próxima escreva laMbisgoia e não labisgoia.

Anónimo disse...

Caro Anónimo,
Tem toda a razão nas emendas que me fez. Acontece que por vezes, ao correr da pena, ainda por cima à noite, a escrever de forma algo apressada, estas coisas sucedem. Grato!
P.Rufino

Anónimo disse...

Mas é mentira mesmo?

José Arnaldo disse...

Tal como os jornalistas:

Gostei, mas qual é o sentido da frase?

"Há um segredo que vos quero contar, embora peça a maior descrição".

Muito grato pelos seus escritos

J. Arnaldo D. R.

Anónimo disse...

"consierge"

Com S foi deliberado porque a minha personagem é de viseu e manteve-se fiel ao sotaque, bem sei que é com C que se escreve...
Só em respeito aos Seus comentadores sensíveis ... Hipersensiveis aos ditames do Léxico... Não vão fazer alguma reação histamínica.
Isabel Seixas