segunda-feira, 5 de julho de 2010

Acordo ortográfico

O "Expresso" desta semana passou já a usar as normas do novo Acordo Ortográfico.

O mesmo já acontecia com a única agência noticiosa portuguesa - a "Lusa" -, bem como com o semanário "Visão" e o jornal desportivo "Record".

Acaba, entretanto, de ser anunciado que, a partir de Janeiro de 2011, os manuais escolares irão aparecer sob a nova ortografia, embora haja um período de transição.

20 comentários:

Celso disse...

Com este acordo torna-se mais difícil saber como pronunciar uma palavra. Tomando como exemplo a palavra "arquiteta" que está na imagem:

Arquiteta supostamente lê-se arquitéta mas como perde o c, ficamos sem saber se pronunciamos arquitéta ou arquitêta. Este acordo só vai trazer mais confusão.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Celso: até que enfim vejo, no quadro da discussão do AO, uma reflexão importante: trata-se de uma questão fonética, bicuda e de relevo, que há que tomar a peito.

Venezolano disse...

Recuso-me a participar desse acordo.

Dois exemplos de como ele dificulta a vida para usuários da modalidade brasileira, como eu, especialmente para crianças ou estrangeiros que estejam aprendendo a língua.

A ausência do trema - mantido até no espanhol (nas variações gue-güe e gui-güi): como saber que quilo e tranquilo, ou guia e sagui, são pronunciados de forma diversa?

Para os brasileiros, o fim do acento agudo diferencial em ditongos abertos: a pronúncia de a teia e ateia, ou de lampreia e assembleia, são completamente diversas.

E ainda a palhaçada da alteração no uso do hífen que somente trouxe mais incertezas a regras que já eram muito ruins.

Enquanto funcionário público, recuso uso em meus documentos oficiais a esta reforma patética, imposta e feita sem qualquer discussão social - o que é inaceitável, pois já não se está nos tempos do Estado Novo brasileiro (ou do Estado Novo português...) - e que não facilitou em nada o manuseio e a aprendizagem da língua.

Os amigos portugueses que não pensem que apenas eles revoltam-se com essa maldita reforma.

Celso R. disse...

O problema é isto já foi alertado inúmeras vezes mas é sempre ignorado pelos apologistas do acordo que se limitam a chamar "conservador" ou outros nomes depreciativos a quem discorda. Basta ler no expresso (http://aeiou.expresso.pt/expresso-poupa-letras-e-adota-acordo-ortografico=f590263 ) no "Guia para a nova grafia do Português" as palavras modificadas e ver quantas delas mudam de faCto a pronúncia. Eu não sou contra um acordo ortográfico, mas sou contra este acordo ortográfico.

Uma coisa é onde se escreve pharmácia passar-se a escrever farmácia, cuja leitura é a mesma, outra é eu ler os "c" e retirá-los sabe-se lá porquê...

Agora pergunto: com tal confusão na prenuncia como pode um estrangeiro aprender como se prenuncia se pelos vistos a regra vai passar a ser "como sempre se prenunciou"? (outro exemplo: baptismo -> lê-se báptismo ou bátismo. Se escrevermos batismo não lê-mos o "a" aberto, um estrangeiro prenunciaria o "a" tal como as palavras "baliza" ou "bater".

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Bento Freire disse...

Concordo com o Embaixador Seixas da Costa. Mas que manter muita firmeza sob pena de a questão ser deixada caír e perder qualquer interesse.

Anónimo disse...

O que é preciso é manter a elevação em todas as discussões e saber que todas as dúvidas são legítimas. Eu sei-o.

Guilherme Sanches disse...

Este fim de semana tive uma dúvida:
Continua a haver gotas "ópticas" (para os olhos) e gotas "óticas" (para os ouvidos), ou passam a ser todas gotas óticas?
E porque é que aqui mesmo, ao escrever este texto, óticas aparece com o sublinhado em zig-zag vermelho?
Gosto de escrever segundo o novo acordo ortográfico, é um facto, mas de vez em quando surge uma dúvida.
Um abraço

Francisco Seixas da Costa disse...

Que este acordo possa suscitar algumas dúvidas, posso compreender. Há uma, porém, que aparece quase por sistema e que não tem qualquer razão de ser: o problema da leitura de algumas consoantes no meio de palavras.

Neste caso, a regra é simplicíssima: escreve-se apenas o que se lê.

Por exemplo, em "intelectual" não há ninguém que não leia o "c". Logo: o "c" escreve-se.

Já no caso de "actividade" (que passa a "atividade")como o "c" não se lê, não se escreve.

O maior mito desta reforma é a palavra "facto" - e este é um mito recorrente, porque não muda nada, nem em Portugal nem no Brasil. Em Portugal, "facto" (acontecimento) continua a escrever-se com "c" e "fato" (vestuário) continua a não ter "c", claro.

Quanto ao nosso comentador brasileiro que se "queixa" do fim do trema, gostava de lembrar que, em Portugal, o trema já não se usa desde o fim dos anos 40 do século passado. E, no Brasil, há vários anos que o jornal "Estado de S. Paulo" o aboliu dos seus textos.

Alguém dizia que os acordos ortográficos são feitos para as gerações seguintes. Cada vez masis me convenço que é capaz de ter razão.

Anónimo disse...

"La tierra no es una herencia de nuestros padres sino un prestamo de nuestros hijos..."

Pouco redutor este provérbio índio...

Há temas pela sua pertinência ofuscam efetivamente as possibilidades de comunicação nomeadamente o bloqueio de barreiras
à parte que quer o poder do todo ao abrigo dos direitos legítimos das minorias.

Que não quer deixar de ser...
Discussão de sexo dos anjos...
Teimosia de sobrevivência de cavalo de batalha...

ó sra. .... não é atricia é icterícia,
desculpe lá menina atricia diz-se e é atricia ictericia é que se diz e é ictericia.

Obviamente que face às lambadas infligidas como adjuvantes de memória, às palavras difíceis redigidas nas cartilhas como exercício de disciplina ...
Não Dou o tempo por perdido
é a vida
Isabel Seixas

Acho que aguento a "perda" pelo "ganho"

Venezolano disse...

Quis dizer: "as pronúncias de 'a teia' e 'ateia', ou de 'lampreia' e 'assembleia' são completamente diversas", no português do Brasil, por certo, em todos os seus falares regionais.

José Martins disse...

Senhor Embaixador,

Desde há dois anos e meio que não faço outra coisa a não ser escrever e, digo-lhe francamente que o Acordo Ortográfico foi o "horror dos horrores" e a castração da língua portugueses de raízes.
.
Uso frequentemente o tradutor "Google" e está cheio de palavras que não pertencem ao vocabulário da língua portuguesa.

Por muito respeito que tenho pelo Brasil não posso aceitar palavras que não nos pertencem, mas sim as que o povo brasileiro foi adiccionando ao quotidiano do seu viver.
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No meu caso, considero essa palavras parte de um dialecto e não de raízes da língua portuguesa.
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Enquanto for vivo vou continuar a usar a ortografia (já moderna) que aprendi nos bancos da escola.
Saudação de Banguecoque
José Martins

Anónimo disse...

Cá por mim, no plano pessoal, serei sempre fiel à linguagem escrita...pré-Acordo.
Saudações cordiais!
P.Rufino

Gil disse...

Ao senhor José Martins gostaria de perguntar:
Acha que “sofá” não “nos pertence” e portanto não pode ser aceite como palavra, apesar de ser uma palavra de raiz estrangeira que o povo português “foi adiccionando ao quotidiano do seu viver”? Já agora, não há em português de antes ou depois do AO a palavra “adiccionando”; escreve-se sem “c” dobrado, facilitando assim a aplicação das novas regras.
Acha que quando deixou de se escrever “Mãi” (substituída por “Mãe”) ou “philantropo” se “castrou a língua portuguesa de raízes”?
Acha que o que se fala no Brasil é “brasileiro” e não português, em Angola é “angolano” e não português e assim por diante (ou “deante”, como se escrevia em 1930?
A palavra “marimba” que nos chegou através do Kimbundo, é “parte de um dialecto”? E “Aruba”, Bangladesh e Azerbeijão? E “batuque”, “tanga” e “sanzala”?
Já agora, uma das vantagens (pequeníssima) do AO é que no Google e afins desapeçam aquelas distinções do “português (Portugal) / português (Brasil)”.
E recusamos só esta reforma ortográfica ou as anteriores também? É que as críticas foram muito parecidas.

Margarida disse...

Não aceito, não gosto, não faço e pronto!
Arre!
:(
Primeiro foi a ordem (e nem vamos por aqui...), depois a moeda, agora a língua!
Acordo a cada década num País que não me parece o meu!
Uma pessoa gosta de evoluir, mas juro que nada disto se parece com semelhante...

Anónimo disse...

Finalmente um bom argumento: o de Margarida.
Não gosta, e pronto!
Depois do "achismo", essa ciência exacta portuguesa, passamos a ter o "gostismo" em matéria de ortigrafia.
Também está bem.

Anónimo disse...

Pelos comentários que vou lendo, em vários blogues, nos “media”, etc, daqueles que são a favor do dito Acordo Ortográfico, começo a notar, aos poucos, um certo “fundamentalismo” na sua defesa, o que, sinceramente, não gosto. Faz-me lembrar, talvez mal comparado, com os fundamentalistas antitabagistas, sobretudo dos que eram fumadores e deixaram de o ser. Muito prosaicamente, é-me completamente indiferente a existência de anteriores Acordos, ou que haja diferenciação entre o português do Brasil, de Portugal, ou de Angola. Quando estive, em tempos, em Luanda, lia com prazer o português escrito do “Jornal de Angola”, da mesma forma como lia a Folha de São Paulo, ou um qualquer Diário de Portugal. E oxalá continuem a escrever como escrevem. Só prova como o português é uma língua viva, flexível, inventiva, que se adapta, uma língua rica. Um Acordo, quer queiramos, quer não, acaba por espartilhar essa criatividade linguística, essa evolução, essa forma de cultura, porque uma língua é Cultura. Quanto ao reparo de Gil, que respeito em absoluto, deixo a pergunta: e então o inglês dos “USA, do Zimbabwe, do UK”, etc e tal que aparece no tal Google, entre as diferentes opções de inglês? Alguém desses países se incomoda com tal? Evidentemente que não! Alguém, na velha Albion, se preocupou até hoje em unificar as diversas formas escritas do seu inglês? Não!
Já li muito argumento sobre o porquê e vantagens deste Acordo, uma delas para que não fosse o Brasil a acabar por impor, de algum modo, o “seu” português, tendo em conta a sua dimensão geográfica, populacional e económica, por comparação connosco. E daí, pergunto eu? Qual é o problema? Alguém, estrangeiro, ou natural do Reino Unido, se incomoda que o inglês mais conhecido (falado e escrito) é o dos EUA? Não creio. Por mim, sempre que leio em inglês, é-me indiferente se é inglês norte-americano, se do R.U ou da Austrália, etc. E como os EUA têm inúmeras excelentes publicações sobre tudo, ou quase tudo, leio com gosto o “seu” inglês.
Isto tudo para de algum modo acabar por concordar com a Margarida e dizer que continuo sem entender as razões lógicas que levaram à existência deste Acordo. Que, como digo, respeito quem lhe dê apoio e passe a escrever como tal. Mas não me venham dizer que é útil, ou que tinha de ser. Não compro essa. Prefiro a diversidade dos diversos “portugueses” escritos. E preferia ver o “nosso” português evoluir naturalmente e não por decreto. Enfim, são opções. E eu e muitos outros temos as nossas. Que também têm de ser respeitadas.
P.Rufino

Gil disse...

Respondamos, então, a P.Rufino mas pegando-lhe nas palavras.

“Muito prosaicamente, é-me completamente indiferente a existência de anteriores Acordos, ou que haja diferenciação entre o português do Brasil, de Portugal, ou de Angola”

Mas, se é indiferente porquê aplicar a última reforma, que alterou a ortografia profundamente, e não este, que não levanta problemas de maior e interfere com uma percentagem mínima das palavras usadas correntemente?

“o português do Brasil, de Portugal, ou de Angola”

Falar em “português do Brasil, de Portugal ou de Angola”, além de incorrecto do ponto de vista científico, parece, nesta matéria, o reflexo de um erro que provoca a maior parte das rejeições do AO: a confusão entre “língua” e ortografia. O que o AO visa unificar é, apenas e só, a forma de escrever algumas palavras cuja grafia divergiu recentemente. Só isso. Se houvesse tantas línguas como países onde ela é falada, elas continuariam a existir como vão continuar a existir as pronúncias diversas, os regionalismos e, até, as formas erradas de sintaxe ou prosódia.

“Um Acordo, quer queiramos, quer não, acaba por espartilhar essa criatividade linguística, essa evolução, essa forma de cultura, porque uma língua é Cultura.”

É, é; uma língua é, definitivamente, cultura (com c ou com C). Mas a “Ode Marítima” e “O guardador de rebanhos” desapareceram ou pioraram por ser lidos segundo as regras ortográficas que agora utilizamos e não como o autor as escreveu? Não, claro que não. Um Acordo nunca espartilhará a criatividade linguística nem a evolução da língua. Os grandes (e alguns pequenos) autores criam, escrevendo, como lhe dá na gana; Guimarães Rosa ou Aquilino ou Mia Couto, para citar apenas escritores inventivos e inovadores de 3 países diferente, não param a pensar se estão ou não a escrever de acordo seja com que ortografia for.

“Quanto ao reparo de Gil” (sobre o Google)…

Referi o Google apenas porque a pessoa a quem respondi naquele comentário o tinha feito antes. E, sobretudo, falei de uma “pequeníssima” vantagem; mas há vantagens, sobretudo entre a comunidade científica que não domina o português. É um pouco demorado e longo de explicar mas muitos especialistas acentuam este aspecto.

“Alguém, na velha Albion, se preocupou até hoje em unificar as diversas formas escritas do seu inglês? Não!”

É um argumento, ao mesmo tempo, falacioso e falso.
Falso, porque, sim, houve (e há) muitas pessoas que se preocuparam “em unificar as diversas formas escritas do (…) inglês”. Bernard Shaw foi uma delas. Do lado americano também houve tentativas e o Presidente Theodore Roosevelt criou o Simplified Spelling Board , cuja lista de palavras fez adoptar pela Administração americana. Essas tentativas continuam. Há apenas alguns dias, o Internationa Herald Tibune, noticiava um movimento, em Inglaterra, para criar uma Real Academia de Letras que teria essa função.
O argumento é falacioso; a situação das duas línguas – o inglês é a “língua franca” e a unificação da sua escrita é, nas actuais circunstâncias, uma iniciativa completamente inútil; não vale a pena. Só isso.
Mas porque havemos de comparar o português com o inglês mas não com o francês? Eu sei a resposta.

“Mas não me venham dizer que é útil, ou que tinha de ser. Não compro essa”.

Peço desculpa, mas parece-me que estamos perante o que o Anónimo que o antecedeu chamou o “achismo”. O P. Rufino apenas “acha” que o AO não é útil.
Mas, claro, tem todo o direito de ter essa posição. Na verdade, ninguém o vai obrigar a escrever segundo o Acordo; a minha Mãe morreu aos 84 anos, há apenas alguns anos, e sempre a assinar as longas cartas que me escrevi com “Mãi”. Nunca foi presa nem censurada.

Anónimo disse...

Caro Gil,
Li com interesse a sua argumentação. Confesso-lhe, todavia, que, apesar do esforço louvável, não fiquei convencido. Continuo a achar que não devemos “decretar ortografias” e pelo contrário deixa-las evoluir, naturalmente. Não quero com isto dizer que sou eu que estou com razão. Nada disso. É, tão só, uma opinião. Mas já que o AO existe, nada tenho a opor a quem assim passe a escrever. Espero também que ninguém me venha prender, ou me venha censurar, se continuar, “teimosamente”, a escrever como até aqui. Mudando de assunto, fez bem em mencionar Aquilino. Li tudo sobre ele, não sei se por ter uma costela Beirã, se por outra razão. E gosto do Mia Couto igualmente. Quanto a autores antigos, havendo a possibilidade de adquirir um exemplar escrito nessa ortografia, delicio-me a ler. Às vezes, com sorte, encontram-se. Já “vislumbrei” um ou outro ali para o Chiado.
A terminar, gostei de ler a sua entrevista no JL (30/ a 13/7), José Gil, “Capturados por Pessoa”, que me fez aguçar a curiosidade para o seu “O Devir-Eu de Fernando Pessoa”. Um grande Poeta que muito aprecio e respeito.
Saudações Cordiais,
P.Rufino

Margarida disse...

Excelso 'anónimo', o 'gosto' é individual e assume-se.
Chega de imposições por decreto - uma língua vai crescendo e desenvolvendo-se, sem necessidades destas, que tantos classificam como absurdas e prepotentes e até cedências às outras 'portugalidades'. Nem vou por aí porque concedo que existam muitas sensibilidades e cada um tem o direito de se sentir como lhe apraz, não impondo nada a terceiros.
O meu 'gosto' não é nenhuma filosofia ou método - é um estado de alma ao qual tenho direito (não sou presidente nem para lá caminho).
Há coisas de que gostamos, outras menos ou nada; p.ex. não gosto de 'anónimos' e no entanto cá estou com toda a urbanidade e gosto a 'retorquir' o seu amável apontamento crítico.
Cordiais cumprimentos.

patricio branco disse...

As linguas têm vida própria e algumas até nem se aguentam e morrem. Outras, dão filhos, que se tornam noutras linguas.
Verifico que a lingua mais forte que existe no mundo, em minha opinião, a Inglesa,não se preocupa muito com reformas que são mais politicas que linguisticas.
Em Portugal já se escreveu PHARMACIA, nos paises de lingua inglesa continua a escrever se PHARMACY e isso não trouxe fraqueza ou problemas à lingua. Tambem os franceses dizem PHARMACIE. Bem, com este acordo, muitas consoantes e acentos vão à vida, reformam-se, ficam inuteis e a etimologia, essa história presente nas linguas através da ortografia, perde se. E tambem muito da estética, personalidade e originalidade da nossa lingua.