sexta-feira, 14 de maio de 2010

Guide Michelin

As classificações dos restaurantes anualmente atribuídas pelo Guide Michelin Rouge (os guias verdes são de lugares turísticos) sempre foram, aqui em França, um tema de alguma controvérsia. Há acusações de favorecimento e de "habituação", por vezes não se entende bem se são os "chefs" que são premiados ou se são os restaurantes a ser destacados, muitos dizem que são seguidas meras "modas" gastronómicas e que prevalecem modelos estereotipados. Não obstante tudo isso, a chegada da edição anual do Michelin é sempre um acontecimento e os restaurantes "estrelados" acabam por sofrer um efeito comercial muito positivo. Perder uma "estrela" no Michelin (são atribuídas uma, duas ou três estrelas, como sinal crescente de qualidade) é considerado uma "tragédia" e já houve um "chef" francês que se suicidou por isso lhe ter acontecido.

No que me toca, como não-especialista mas como leitor regular dos Guides Michelin, de há muito que cheguei a algumas conclusões. A primeira, é a de que os restaurantes a quem são dadas "estrelas" são sempre bons, embora, confesse, não tenha uma sofisticação de gosto suficiente para saber se devem merecer uma ou mais "estrelas". A segunda é a de que os restaurantes que ganham "estrelas" passam, de imediato, a ser muito mais caros - e às vezes já eram bastante. A terceira conclusão é a de que não considero ser totalmente fiável o critério seguido pelo Michelin quanto à lista dos restantes restaurantes que o guia destaca em cada cidade, isto é, todos os que aparecem mencionados, para além daqueles a que são atribuídas estrelas. A seleção é frequentemente muito discutível. Esta observação, que já era válida para o guia sobre Portugal (cujos consultores sempre me pareceram seduzidos por um mercado de restauração turística em que não me revejo), tenho-a confirmado, cada vez mais, aqui em França.

Se o leitor me perguntar: mas usa ou não o Guide Michelin? Claro que uso, mas sempre em conjugação com outros guias. Um critério que considero imbatível para aferir da qualidade de um restaurante que não conheça é vê-lo referido positivamente em três ou mais guias conhecidos e respeitados, um dos quais o Michelin, claro. Este ano, em que saiu a 101ª edição anual do Guide Michelin Rouge, o tradicional "tijolo" tem uma opção bem mais cómoda para transporte e consulta, num "coffret" com seis volumes, com guias agrupando regiões.

Em tempo: um indiscreto mas muito amigo comentarista referiu uma velha observação minha, revelando um critério para obter o nome de um bom restaurante num lugar que desconheçamos: perguntar a uma pessoa local com ar abastado e "rotundo". De facto, esse foi um critério que utilizei e utilizo, por razões que me parecem óbvias. E, tal como o Gustavo, a experiência tem sido boa... 

7 comentários:

Margarida disse...

E uma boa, substancial, honesta, generosa refeição caseira, não?
(... comentário de quem nunca ligou a mínima ao livrinho...)
:)

Julia Macias-Valet disse...

Senhor Embaixador,
Aconselho-lhe a leitura do que escreveu ha dias Hervé This (fisico-quimico francês, investigador do IRNA e especialista em Gastronomia Molécular) a proposito da classificaçao atribuida pela revista "Restaurant Magazine" ao restaurante Noma (www.noma.dk) em Copenhaga como o melhor restaurante do mundo.

http://hervethis.blogspot.com/2010/04/classements.html

Dar também uma espreitadela ao site que segue para compreender que esta "coisa" das estrelas ganham-se mais em laboratorio do que em cozinha :

http://www.google.fr/imgres?imgurl=http://s2.e-monsite.com/2009/11/23/10/herve-this-cuisine-moleculaire_312.jpg&imgrefurl=http://tpe1smauve-cuisine.e-monsite.com/rubrique,quelques-grands-cuisiniers,348622.html&h=440&w=400&sz=38&tbnid=
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Uma coisa é certa, nao é comendo nos restaurantes "estrelados" que corremos o risco de nos transformarmos em Bibendum... : )

Acessivel a um maior numero de carteiras : o Guide Duchemin no filme "L'aile ou la cuisse" de Louis de Funès - a (re)ver !

PS Estranhissimo o nome do restaurante Dinamarquês :
http://fr.wikipedia.org/wiki/Noma_(maladie)

Anónimo disse...

Caro Embaixador

Notei a sua útil informação sobre a técnica de "cruzamento" dos guias.

Mas lembro de uma outra "técnica" que um dia lhe ouvi para descobrir um bom restaurante numa qualquer localidade: perguntar uma sugestão a um homem "gordo e abastado". Já usei isso e deu resultado.

Gustavo Sequeira

Helena Sacadura Cabral disse...

Essa do "gordo e abastado" é uma verdadeira preciosidade!
Há quem a usasse para escolher noiva a preceito, depois de ver a mulher do dito.

Fenêtre du Portugal disse...

Bom dia

Guide Michelin, ou...

"... perguntar a uma pessoa local com ar abastado e "rotundo"."


Considerando que o resultado é que conta, os dois métodos não devem sofrer de uma grande divergência qualitativa.

Eh eh. :-)

Mario Pontifice

patricio branco disse...

Numa materia como a gastronomia de restauração não é possivel atingir se a certeza e infabilidade. Nem é possivel experimentar e classificar todos os restaurantes existentes, mesmo que numa só área.
Os avaliadores do michelin parece que têm regras de exigencia e rigor que comandam o trabalho que fazem: ir incognitos, repetir o restaurante com outro avaliador, reunirem se para discutir e votarem, etc.
Alguma verdade que tem de haver na classificação e tambem criterios. É por isso sempre uma experiência ir a um restaurante recomendado pelo michelin.
Se gostamos ou não já é outra coisa e muitas vezes não sabemos se foi mau conselho do guia, se defeito ou azar nosso (no caso de não termos gostado).
Eu mesmo tenho uma guia pessoal de restaurantes (na minha memória) e por vezes, ao insistir num determinado tenho de o retirar. Então outro aparece e assim vamos.
Voltando ao michelin, em geral tenho tido boas experiencias no pouco de estrelas que experimentei.

patricio branco disse...

em restaurantes de estrada, ou de entrada e saida de cidades, tambem há a dos camionistas. Mas cuidado!
E nas autoestradas, as zonas de serviço só mesmo pra esticar as pernas, e um banal café, que nessas a gastronomia está muito ausente.