sábado, 5 de dezembro de 2009

Sá Carneiro


Francisco Sá Carneiro, que há 29 anos morreu no desastre de Camarate, por acidente ou atentado, teria hoje 75 anos. O que lhe teria sucedido, no quadro da vida política portuguesa, se não tivesse desaparecido? A História não se compadece com este tipo de interrogações, mas a indiscutível preeminência de que dispunha na sua área política leva à presunção lógica de que se teria mantido em cenários de continuado protagonismo.

Sá Carneiro foi uma personalidade de recorte muito particular na vida política portuguesa. Convidado para deputado independente nas listas da União Nacional, cedo entrou em conflito com Marcelo Caetano, ao constatar a sua falta de vontade para promover uma clara abertura política. O ostensivo afastamento que veio a marcar face ao regime, antecedido de alguns gestos reveladores de coragem e determinação, criou-lhe um crédito político que veio a utilizar após o 25 de Abril, ao fundar aquele que viria a revelar-se um dos partidos fundamentais no novo regime democrático - o então chamado Partido Popular Democrático (PPD), mais tarde Partido Social Democrata (PSD).

Os seis anos da sua relação com o PPD não foram tempos fáceis, quer dentro desta formação política, quer na sociedade portuguesa em geral. Sá Carneiro, afectado por problemas de saúde, rupturas familiares, dissidências internas e acusações públicas que se viriam a revelar infundadas, mostrou ser uma figura com carisma, encarnando com muita firmeza um projecto liberal que, simultaneamente, se opunha ao prolongamento dos militares no eixo da vida política e às orientações dos vários sectores da esquerda, de quem se tornou uma clara "bête noire". A sua morte coincide com a derrota, cujas consequências iria ter de suportar, do seu candidato à presidência da República, o general Soares Carneiro.

O que teria acontecido em Portugal, com o general Eanes na presidência, com a contestação que Sá Carneiro seguramente lhe iria fazer, com a crise económica que levou à intervenção do FMI? Qual seria, por exemplo, o seu grau de disponibilidade para entrar numa solução de Bloco Central, como a que foi protagonizada por Mário Soares e Mota Pinto, que foi então considerado essencial para superar um momento muito delicado da vida portuguesa? Nunca o saberemos, embora o perfil de Francisco Sá Carneiro se afigurasse pouco consentâneo com esse tipo de compromissos. A pergunta permanecerá para sempre: o que teria acontecido a Sá Carneiro se não tivesse morrido naquela trágica noite, em Camarate?

(Peço de empréstimo ao meu amigo Alfredo Cunha esta excelente foto de Sá Carneiro)

5 comentários:

Nuno Matos disse...

Nunca o saberemos, senhor Embaixador. Recordo, no entento, as suas intervenções nos dias que antecederam Camarate, o seu semblante carregado, o discurso apocalíptico e falho daquela energia contagiante que era a sua. Um homem que pressente uma desatenção do seu destino?
Sá Carneiro foi o corajoso portador de um projecto de liberdade que, na sua radicalidade, se separou daquele que o dr. Mário Soares protagonizava. Membro de uma família patrícia do Porto, o seu projecto político parecia ser mais liberal do que democrata, ao contrário do que foi protagonizado pelo dr. Mário Soares
A sua relação com Snu Abecasis revelou a sua coragem e total integridade, chocando a estreita
moral da época. O Portugal livre e democrático teve em si um dos fundadores.

Agradeço-lhe o permitir-me este comentário e desejo-lhe um bom fim-de-semana, senhor Embaixador.

Nuno Matos

Anónimo disse...

Há lideres que efectivamente não morrem... Pelo facto de fisicamente terem morrido, deixam a semente da auréola de mistério impregnada de esperança protagonizando os profetas do se...Mas a história tem sido implacável com alguns lideres carismáticos que não conseguiram perpetuar mais que um espaço temporal que expira a validade em sensivelmente 2 a 3 mandatos no exercício do poder efectivo, e perder o impacto do efeito de halo pela constatação da vulnerabilidade ou Força humana.

Quem Sabe...
Isabel Seixas

José Barros disse...

Nessa altura já me encontrava aqui em França com uns pares de anos de serviço (ao serviço da economia francesa) e vivi à distância o que se passava em Portugal. A imprensa escrita e falada francesa não tinha mãos a medir sobre o que se passava em vários pontos da Europa e deu evidência e grande destaque ao ocorrido em Portugal mas também ao que se passava simultaneamente na polónia com o estado de excepção imposto por Jaruzelski para reprimir o sindicato solidariedade e o aprisionamento de vários líderes do movimento incluindo Walesa. Por outro lado estávamos em vésperas de eleições presidenciais em França, com umas quatro dezenas de candidatos à presidência. Aproximávamos o fim do reinado de Giscard que asfixiava e o 10 de Maio de 81 que viria trazer uma certa esperança... À distância, para o bem ou para o mal, verifica-se que havia uma intensa actividade política. Será da idade, será, mas parece-me que as forças sociais perderam vigor...

Helena Sacadura Cabral disse...

Conheci Sá Carneiro que, infelizmente para mim, conduziria um dos meus filhos para esse campo pantanoso da política.
O outro, veja-se, acabou por ir para lá, por influência minha...
Aos 12 anos, um foi preso pela Pide. Far-se-ia comunista.
Aos 15, o outro, tinha um processo político em Tribunal. Salvou-o a idade!
O comunista deu ao PC dezoito anos da sua vida. O protegido de Sá Carneiro seria um dos primeiros militantes do PPD e lá esteve até ao desastre de Camarate.
Hoje, um é bloquista. O outro, centrista.
Que me teria acontecido se Sá Carneiro não tem morrido?!

Joaquim Pinto disse...

Embaixador Francisco Seixas da Costa.
Com toda a imparcialidade e como profissional, não posso deixar de comentar esta notícia sobre a morte de do Dr. Sá Carneiro. Com saudades deste Sr. Antigo Primeiro ministro Português que nos deixou no dia 4 de Dezembro de 1980. Quando digo com saudades por que era meu cliente e lhe cortei o cabelo a ultima vês no dia 18 de Novembro de 1980.
Ainda recordo as ultimas palavras desse dia que não voltou mais.
Era muito meu amigo como tantos outros, mas pela infelicidade o recordo com saudades visto ter conversado muito vezes com ele e lhe cortar o cabelo muitos anos.
joaquim Pinto